No passado, a chave da identidade

Projetos bem-sucedidos conscientizam crianças, jovens e adultos sobre a importância do patrimônio histórico

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Um dos principais patrimônios culturais do Brasil esteve recentemente ameaçado. Desde que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) anunciou, em novembro de 2004, que faria um assentamento no entorno do Parque Nacional da Serra da Capivara (PI), muitas famílias começaram a chegar ao local na esperança de conseguir um pedaço de terra. Alguns invasores, sem ter onde ficar, abrigaram-se nas cavernas do parque, que guardam a maior coleção de pinturas rupestres do Brasil. Sem a consciência da importância dos desenhos que cobrem as paredes das casas improvisadas, eles quebraram rochas, sujaram as cavernas e acenderam fogueiras ao lado dos registros da vida cotidiana dos primeiros habitantes brasileiros.

A arqueóloga Niède Guidon, diretora da Fundação Museu do Homem Americano, que administra o parque, não se surpreendeu com o descaso diante do patrimônio arqueológico. Ela teve dificuldade de explicar a importância do sítio até mesmo para autoridades do governo federal. No fim das negociações para buscar uma solução, chegou a uma conclusão: “Agora que vi o que o Incra recebe de verba, percebi que o Iphan (
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional

) não recebe nada. O problema é que cultura não tem muito eleitor.”

Neno Vianna


Casa dos Contos, em Ouro Preto (MG)

Episódios de descaso comprovam, nos últimos anos, a falta de preocupação dos governantes com a preservação do patrimônio histórico e artístico. Em abril de 2003, ocorreu um incêndio no casarão onde funcionava o Hotel Pilão, na principal praça de Ouro Preto (MG), primeira cidade brasileira a receber o título de Patrimônio Histórico da Humanidade, concedido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Após o prédio centenário se transformar em cinzas, descobriu-se que outros prédios importantes corriam o mesmo risco e revelou-se o despreparo do corpo de bombeiros local.

Mas o incêndio do Hotel Pilão serviu para despertar a consciência dos habitantes. “Hoje a cidade está cuidando mais de seu patrimônio, não espera o governo estadual ou federal intervir”, afirma Sérgio Lélis Santiago, secretário de Cultura e Patrimônio de Ouro Preto. A população elegeu para prefeito nas últimas eleições um crítico e curador de arte, Ângelo Santos, com histórico de luta pela preservação arquitetônica. Já está em andamento na cidade um projeto de educação patrimonial, em que o tema do patrimônio histórico tornou-se presente em todas as escolas da cidade.

No Parque Nacional Serra da Capivara, os problemas também podem se tornar uma solução. Antes das invasões, a fundação dirigida por Niède Guidon passou por uma séria crise financeira e demitiu funcionários. Para sanar as dificuldades, conseguiu verbas do Ministério da Cultura e de empresas estatais, que vêm se juntar ao apoio financeiro que recebe do Instituto Ayrton Senna. No acordo firmado com o Incra, está prevista a reativação das escolas mantidas pela Fundação: “Estou estudando um assentamento diferenciado, com uma educação de alto nível para que o assentado deixe de plantar na terra seca e passe a trabalhar com turismo e conservação. Precisamos agregar valor. Ao invés de plantar feijão, podemos investir na cultura de plantas ornamentais da caatinga, cujo mercado é muito bom.”

Há outro projeto em andamento, que atinge 180 crianças e jovens moradoras da região, a maioria de renda baixíssima. Entre as atividades desenvolvidas, além da preservação do patrimônio pré-histórico, está a documentação dos diferentes tipos de manifestações artísticas dos jovens. “Eles estão resgatando as músicas regionais e colocando em partituras. É um projeto de arquivo da cultura nordestina”, explica Niède.


Educação e renda –

Tanto em Ouro Preto quanto na Serra da Capivara, a busca de soluções para a preservação passa pela educação. Um caminho que pode trazer importantes conquistas, acredita João Tadeu Gonçalves, gerentes de projetos de educação patrimonial do Iphan: “Quando a população admite o objeto como um bem, ela se torna responsável por ele. É aí que entra a educação patrimonial, integrando a comunidade e fazendo-a compreender aquilo como parte de sua identidade”.

Só a educação, entretanto, não basta. Em muitas cidades, a população que vive em prédios históricos é de baixa renda. Por isso, diversos projetos de educação patrimonial planejam não apenas permitir que os moradores conheçam sua história e se tornem conscientes da importância da preservação, mas também criar mecanismos de geração de renda.

Em São Luís (MA), famosa pelas casas revestidas de azulejos portugueses, começou a funcionar em março a Escola de Azulejaria, parceria da prefeitura com o Programa Monumenta, do Ministério da Cultura. O projeto visa preparar mão-de-obra e facilitar a inserção de jovens no mercado de trabalho. Durante o curso de três meses, o aluno aprende história da cidade e do azulejo e tem aulas práticas de restauração e prática de campo. A escola atende jovens de 18 a 23 anos que moram no centro histórico.

“O foco da prefeitura é a geração de renda. Assim, preparamos jovens para o trabalho com manufatura e restauração de peças para o patrimônio”, explica Karla Nunes, coordenadora do núcleo gestor do centro histórico de São Luís. No primeiro processo de seleção, 719 jovens concorreram a 40 vagas.

O centro histórico da capital maranhense possui 5,6 mil prédios tombados, ocupados na maioria por moradores de baixa renda. São cerca de 12 mil moradores. Atualmente, 106 prédios da região encontram-se em risco de queda iminente. “É tudo monumental: o número de prédios, o tamanho, a população, o problema social”, observa Karla. Nem bem começou, a Escola de Azulejaria já vislumbra problemas. O custo das restaurações é muito alto. Segundo Karla, para restaurar cada prédio, são necessários R$ 600 mil. Para salvar as 106 construções que podem cair a qualquer instante, seriam necessários mais de R$ 60 milhões. “Se o governo nos destinar uma verba de R$ 2 milhões, só dá para restaurar três prédios”, calcula.


Mãos à obra –

Outro projeto que busca conciliar educação patrimonial com geração de renda está sendo desenvolvido no Espírito Santo. O “Mãos à obra” atua na capital e no interior, fruto de parceria entre a Secretaria de Cultura do Estado, o Instituto Goia — ONG que desenvolve trabalho de formação de mão-de-obra e educação patrimonial — e a Companhia Siderúrgica de Tubarão (CST).

Pedro Camal Filho


Projetos Mãos à obra recupera prédio em Vitória (ES)


Jovens em situação de risco nas cidades passam por um curso de oito meses. Primeiro, são oferecidas aulas de história. “Para despertar o engajamento na preservação do patrimônio”, define a arquiteta Karin Maia, presidente do Instituto Goia. Depois, começam as aulas práticas, desenvolvidas em prédios históricos que necessitam de recuperação. No final, passam por um curso de aperfeiçoamento da técnica. Após a conclusão do curso, os artesãos passam a integrar um banco de talentos para próximas obras.

No total, 75 jovens já se beneficiaram do projeto, que recuperou 12 dos 297 prédios de interesse histórico de Vitória. Atendendo à demanda, ele se expandiu para o sul do Estado, região que, segundo Karin, tem prédios históricos e concentração de jovens em risco social. Dois pólos de restauro foram instalados nas cidades de Muqui e Mimoso do Sul, em parceria com as prefeituras.

O projeto inclui parceria com a Secretaria de Justiça do Estado: a restauração do Museu de Arte do Espírito Santo foi realizada com a participação de presidiários em fase final de cumprimento da pena. Karin ficou muito satisfeita com o resultado: “A gente não tinha experiência em trabalhar com apenados, mas também não tinha preconceito. Eles restauraram o museu e deram um show de habilidade. Foi uma experiência magnífica”.

Iniciativas como a de São Luís e a do Espírito Santo podem servir de exemplo para outras regiões que precisam encontrar alternativas para a preservação do patrimônio cultural. O Centro de Estudos Históricos e Culturais da Fundação João Pinheiro, vinculada ao governo de Minas Gerais, começou recentemente um projeto de levantamento das práticas de educação patrimonial no Brasil. O objetivo, segundo a pesquisadora Maria Valeska Drummond, responsável pelo levantamento, é avaliar o estado da arte no Brasil e criar um banco de dados com as experiências que deram certo ou não. “A educação patrimonial é uma ferramenta de proteção mais forte que o tombamento”, observa.


O projeto da fundação –

que, em sua primeira fase, está cadastrando instituições e pessoas que já tiveram experiências na área — pode ajudar a disseminar a educação patrimonial pelo país. “Quando você se reconhece na manifestação cultural de seu povo, está menos sujeito a se submeter a outra cultura. É uma manifestação de liberdade”, diz Karin Maia.




Cinzas da preservação


Um incêndio despertou a população de Ouro Preto para a necessidade da preservação. Em 14 de abril de 2003, o Hotel Pilão, uma das edificações de maior valor histórico da cidade, sucumbiu em chamas. Dois anos depois do acidente, o município se prepara para iniciar as obras de restauração da fachada do hotel, que passará a abrigar um centro cultural.

Segundo o secretário municipal de Cultura e Patrimônio, Sérgio Lélis Santiago, a cidade já vinha se mobilizando em torno da defesa do patrimônio por outras questões menos traumáticas. Intervenções arquitetônicas impróprias, um outro incêndio de pequenas proporções em frente ao hotel e um chafariz que foi atropelado duas vezes por caminhões começaram a indignar a população.

“São eventos que representam o descaso. Os caminhões que destruíram o chafariz não deveriam estar descendo aquela rua. Então, já havia uma mobilização na sociedade para suprir a ausência do poder público”, avalia Santiago. O incêndio demonstrou a fragilidade da proteção ao patrimônio. A cidade não tinha material para atender casos como esses. “Hoje, os corpos de bombeiros dos centros históricos estão mais preparados”, observa.

O desenvolvimento e a expansão urbana ameaçam seriamente a preservação do patrimônio. Santiago conta que a cidade cresceu sem plano diretor. As construções foram erguidas sem critério e fiscalização. “Nosso conjunto patrimonial é muito forte, mas, se deixássemos do jeito que estava, ele seria engolido pelas ocupações”, afirma. “O patrimônio não corre risco hoje porque existe essa preocupação, essa disposição da sociedade e do poder público de recuperar e investir nas áreas que permitam o crescimento da cidade”.

A atual administração procura regulamentar o Plano Diretor elaborado em 1996, mas que nunca saiu do papel. Além disso, vem elaborando projetos de educação patrimonial com jovens e adultos. O tema tornou-se matéria interdisciplinar nas redes privada e pública do município. “A questão do patrimônio está presente em todas as disciplinas, desde matemática, analisando a geometria das construções, até a história da cidade”, explica Francisco Alves Carlos, coordenador de projetos especiais da Secretaria de Educação de Ouro Preto. Os adultos participam de programas desenvolvidos pela Secretaria de Cultura. “Conscientizar é a melhor forma de conviver bem e preservar o patrimônio”, afirma Santiago.

No local da tragédia que sensibilizou a população e inseriu a questão da preservação do patrimônio entre as prioridades do município, surgirá das cinzas do Hotel Pilão um centro cultural. Construído pela Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) em parceria com o Sesi, o centro irá recuperar a fachada destruída. O interior será adaptado para receber novas atividades. A construção deve começar ainda em 2005 e tem previsão de durar 15 meses.





Reportagem: Flávio Amaral e Lígia Ligabue (Agência Repórter Social)



Saiba mais:

Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional




www.iphan.gov.br


Centro de Estudos Históricos e Culturais da Fundação João Pinheiro




www.fjp.mg.gov.br/educ_patr.php



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