No meio do caminho

Fazer planos não é suficiente: no ambiente escolar, é preciso ter persistência e avaliar a viabilidade de certos projetos

Compartilhe
, / 808 0




Mario Sergio Cortella*




Quando o ano letivo vai chegando ao meio, um certo indefinido cansaço vem à tona e começamos a fazer planos de mudanças, talvez para o ano que vem.







A questão é antiga: por que as pessoas costumam marcar uma data para iniciar mudanças e, em geral, no próximo ano? Bem, o comodismo é sempre uma força perigosa quando se precisa mudar; é por isso que Fernando Pessoa escreveu que “na véspera de não partir nunca, ao menos não há que arrumar malas”. Muitas e muitos preferem ficar como estão, supondo-se seguros, mesmo quando todos os sinais e condições indicam a premência da mudança. Essa é uma segurança momentânea e frágil e carrega o risco do imobilismo.





Ora, é certo que todo projeto de algo novo precisa ter um marco inicial simbólico para dar a idéia de ponto-de-partida. De maneira geral, as pessoas escolhem esse marco em um futuro, próximo ou não, que também pareça o início de um ciclo (o ano, a semana, o verão, os trinta anos, etc), mas, o ponto-de-partida não pode ser um simulacro de decisão a ser continuamente postergada.








Plano e metas são o horizonte que sinaliza a direção para a qual se deseja ir. Tê-los todos os anos é um modo de não deixar que esse horizonte se reduza ou, pior ainda, fique esquecido. Já o cumprimento dos planos está na relação direta do empenho pessoal, da honestidade de propósitos e, especialmente, da necessidade de evitar o “auto-engano”.





É por isso que não é suficiente “fazer planos”. É urgente, também, ter consciência da capacidade de persistência que se terá e, mais do que tudo, pela percepção da factibilidade dos planos. Um plano não-factível aproxima-se do delírio e, claro, resulta em fracasso e frustração. Afinal, por mais que o desejo seja diferente, sempre vivemos em um mundo com incertezas. A grande diferença agora é que os desejos chegam mais aceleradamente e em quantidades inimagináveis. Não é inteligente sucumbir às incertezas, mas, isso sim, procurar lidar com elas em função do horizonte desejado. Como deve ser lembrado amiúde, “para quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve”.





Caminhos novos a serem trilhados exigem a inteligência contida na flexibilidade. Ser flexível é diferente de ser volúvel. O volúvel muda de postura a qualquer momento, em função de movimentos ou “ventos” que não entende. Já a pessoa flexível é aquela que é capaz de alterar a própria convicção ou rota a partir de uma reflexão que leve em conta o diverso ou o inédito. Quem não tem flexibilidade de pensamento repousa em um conhecimento fossilizado e com um comprometimento assemelhado à domesticação, isto é, sem autonomia.





Qual o risco? Gente assim acaba ficando é com um grande passado pela frente.





*Professor de Pós-Graduação em Educação (Currículo) da PUC/SP.





Comentários

comentários

PASSWORD RESET

LOG IN