No coração da Amazônia

Premiadas e reconhecidas internacionalmente, Escolas-Bosque no Amapá e Pará sofrem com descaso e são alvo de disputas políticas

Compartilhe
, / 787 0








 



Luis Indriunas*







De Belém (PA)



 





A receita está na memória das crianças. “Coloca a hortelã, cada um escolhe o cheiro que quer, e mistura com sabão de côco”, tenta explicar Ângelo, de 12 anos. Foi esse xampu, feito durante as aulas de biologia, que Lenise, de 13 anos, usou até acabar, dias antes. “Gastei tudinho”. Os dois são alunos da Escola-Bosque Eidorfe Moreira, na ilha de Outeiro, em Belém (PA). Assim como o xampu, eles já fizeram tinturas contra a coceira de picadas de carapanãs (o nome que se dá ao pernilongo na região). “Foi de Melão de São Caetano”, adianta-se Wislley, de 11.



Os 2.000 alunos da Escola-Bosque utilizam as plantas cultivadas nos 120 mil m
2

de área. Afastada das salas, a uns 20 minutos a pé, fica a horta. São ervas medicinais e leguminosas plantadas pelos alunos. “Cada classe tem o seu canteiro”, explica a professora Ana Vilma Luz.



A Escola-Bosque é a única unidade de ensino do município de Belém que atende do ensino fundamental ao médio, além de fornecer curso de técnico em meio-ambiente, profissão recentemente regularizada.



O projeto tem mais de oito anos, já recebeu vários prêmios e foi pioneiro em educação ambiental. “Na época, fomos procurados pela própria comunidade, que tinha conseguido aquela área e queria utilizá-la da melhor maneira possível”, lembra Terezinha Gueiros, então secretária municipal de educação. “Nós já vínhamos discutindo a implantação de questões ambientais no currículo.”




PFL x PT –

Afastada da administração pública desde a saída do marido Hélio Gueiros (PFL) da prefeitura, Terezinha acredita que o projeto educacional da escola foi desvirtuado pela atual administração petista, que assumiu em 1998, um ano após a inauguração da escola. “Tínhamos professores em regime de tempo integral, que tiveram de sair. Além disso, não pretendíamos superlotar a escola prejudicando o caráter pedagógico. O projeto previa mil crianças matriculadas”, lembra Terezinha. No início foram 700 alunos.



O atual diretor da escola, Edson Mota, diz que mesmo com o dobro de alunos não houve perda da qualidade pedagógica. “Hoje temos convênios internacionais, pesquisas e uma integração maior com a comunidade”, afirmou. Mota lembra que foram abertas novas salas em espaços destinados a outras atividades e mais seis anexos em ilhas menores vizinhas a Outeiro.



A própria realidade da ilha mudou. No início, o local era habitado principalmente por pescadores e pequenos agricultores. “Na época, tentamos colocar um ônibus para os alunos. Acabamos doando bicicletas, já que eles moravam em áreas muito dispersas”, lembra a ex-secretaria. Hoje, a realidade urbana é muito mais complexa. São 36 mil habitantes de baixa renda, que dependem de trabalhos sazonais como o turismo de verão das suas praias ou do funcionalismo público.



O açaí, que era um dos principais produtos da ilha, diminuiu drasticamente com as invasões dos últimos anos. O assunto foi pesquisado pelos alunos, que procuraram entender os problemas ocasionados pela degradação ambiental e buscar alternativas alimentares com a fruta. Esse trabalho recebeu o prêmio da Fundação Bunge e do MEC, em 1999.



Em relação aos professores, Mota afirma que aqueles que saíram não compartilhavam da filosofia petista: “Nós precisávamos de pessoas que tivessem vontade de interagir com os moradores”. O diretor nega que tenha acabado o regime de tempo integral. “O trabalho continua intenso e até maior.” Os professores da escola recebem uma gratificação

que aumenta em 30% seus salários, somando cerca de R$ 2.000 por mês.



Um dos trabalhos mais importantes desenvolvidos pela escola foi o levantamento feito por seus alunos e pelos estudantes de farmácia do Centro de Ensino Superior do Pará, uma faculdade particular de Belém. Eles pesquisaram com a população a utilização de diversas plantas medicinais presentes na ilha. O trabalho resultou em um livro em que se mesclam lendas amazônicas com a utilização das ervas. Financiada pela prefeitura de Ponta Sievi, da Itália, a publicação é bilíngüe.



Para o curso técnico em meio-ambiente, que se divide nas áreas de fauna, flora e ecoturismo, a escola mantém convênios de estágios em instituições como a Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), o Museu Paraense Emílio Goeldi e a madeireira japonesa Eidai. O curso pode ser feito durante ou após o ensino médio e atende a outros públicos, como os agentes de saúde. “Com o que aprendemos aqui, como reciclagem de lixo ou cultivo de plantas, podemos dar dicas nas casas que visitamos”, conta a agente de saúde Regina Coeli, de 42 anos, que trabalha em Icoaraci, na periferia de Belém.




* Da Agência Repórter Social




Comentários

comentários

PASSWORD RESET

LOG IN