Nichos de qualidade

TVs Câmara e Senado oferecem documentários de qualidade que podem ser boas ferramentas em sala de aula

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Laurindo Lalo Leal Filho*

Uma última zapeada na televisão antes de deitar me levou, outro dia, à descoberta de uma preciosidade: o documentário
A Revolução não Será Televisionada

, transmitido no fim da noite pela TV Câmara. Não consegui desligar antes de subirem os créditos finais. Lá estavam os nomes dos repórteres Kim Bartley e Donnacha O’Brain, cuja proeza foi retratar com fidelidade o frustrado golpe que tirou do poder, por algum tempo, o presidente Hugo Chávez, da Venezuela, em abril de 2002.




Alguém já disse que o goleiro, além de ser bom, tem que ter muita sorte. Vale o mesmo para os jornalistas. Kim e Donnacha estavam no lugar certo, na hora certa. Realizavam no palácio presidencial um documentário sobre o presidente venezuelano quando eclodiu o golpe. Competentes, não perderam a chance de mudar a pauta e registrar, de vários ângulos, um momento histórico. O vídeo é uma aula de telejornalismo, com imagens do interior do palácio do governo antes, durante e depois do golpe. O documentário usa, também, cenas das ruas de Caracas e das emissoras privadas de TV, apoiando o movimento golpista, e da TV estatal que, com dificuldade, procurava dar ao público informações alternativas sobre os acontecimentos.




Pena que o documentário foi levado ao ar tarde da noite e só pôde ser visto por aqueles que têm TV a cabo ou antenas parabólicas. Repete-se na realidade brasileira o que o vídeo de alguma forma demonstra: o descompromisso das televisões privadas com informações aprofundadas e circunstanciais, capazes de oferecer ao público diferentes visões de um mesmo acontecimento, deixando que o telespectador tire suas próprias conclusões.




Essa é um das características do documentário, o gênero informativo nobre da TV. Mas também o mais caro e o que exige talentos mais apurados. A televisão comercial desistiu desse tipo de programa há muito tempo, restringindo-o a alguns nichos como as TVs Câmara e Senado. Nos acervos dessas emissoras vão se acumulando não só produtos importados, mas produções nacionais, perpetuadoras de nossa memória. Lá estão registrados, pela TV Câmara, o movimento das Diretas Já, a vida e a obra de Florestan Fernandes, o fenômeno jornalístico chamado
O Pasquim

e, pela TV Senado, o significado de Getúlio Vargas para a história do Brasil, a epopéia que foi a construção de Brasília, o golpe de 1964 visto com um distanciamento de 40 anos, entre outros títulos.


O acesso a essas produções ainda é difícil. Como elas não chegam por meio dos canais comerciais, cabe a nós o esforço de ir buscá-las, multiplicando suas exibições para outras platéias. Uma delas é, sem dúvida, a sala de aula, onde os documentários podem se tornar um ótimo apoio para o ensino de diferentes disciplinas.

*Sociólogo, jornalista e professor da Escola de Comunicações e Artes da USP


laloleal@uol.com.br



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