Nem técnica nem magia. Política e arte

Ou o porquê da importância do professor na criação de uma proposta pedagógica

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Lembro-me de que era final de ano, provavelmente novembro, no início da década de 90. Na sala de professores de uma escola de ensino médio, corrigia, entediado, provas de filosofia. Irene, professora de português, ao nelas ver um excerto de Platão, comentou sua admiração pela cultura grega clássica, pelo seu teatro e sua arquitetura pública. Walmir, professor de física que estudava história da ciência, animou-se com nossa conversa e passou a falar sobre as concepções cosmológicas e a física aristotélica. Em minutos estávamos completamente tomados pelo prazer de poder relatar e ouvir histórias, discutir concepções, aprender uns com os outros.

Não me lembro de quem veio a idéia – e nem importa, posto que foi gestada em conjunto. Mas sei que alguém falou algo como ‘O Mundo Grego …’, provavelmente Walmir, com seus gestos teatrais, ‘é isso o que deveríamos ensinar! Já pensou? Estudar teatro grego, filosofia, ciência …’. Com entusiasmo quase juvenil iniciamos um ‘planejamento’ do que poderia ser o conteúdo de uma disciplina assim: filosofia e ciência nos pré-socráticos, dramaturgia clássica e artes plásticas… . Um bimestre para cada professor. Claro, precisaríamos de um bimestre de história. E convencer a escola de que seria viável e interessante. Com quatro professores, poderíamos nos alternar: em cada bimestre um professor assumiria uma turma, duas aulas por semana. O esboço dos nossos sonhos acabou por consumir o horário de almoço de duas ou três segundas-feiras.

Apresentamos a idéia aos demais professores, coordenadores e alunos. Com coragem e ousadia, a escola topou. E por um ano tivemos a experiência extraordinária de propiciar a nós e a nossos alunos a oportunidade de aproximarmos da Grécia Clássica a partir de olhares e perspectivas distintas e complementares. Até hoje não sei se deveria considerar a iniciativa como um trabalho trans, inter ou multidisciplinar, o que, aliás, nunca importou a nenhum de nós. Sei que parte substantiva de seu êxito se deveu ao fato de que ela não foi uma tentativa de ‘aplicação’ de ‘teorias pedagógicas’ concebidas no isolamento tecnocrático dos especialistas. Ao contrário, o projeto nasceu do interesse e do entusiasmo compartilhados por um grupo de professores, na teia cotidiana de suas relações de trabalho.

Paradoxalmente, parece ser justamente o êxito de iniciativas como essa que subjazem às tentativas de se forjar métodos e procedimentos pedagógicos pretensamente capazes de imprimir mais eficiência, criatividade e qualidade ao trabalho docente. O problema é que, ao transformar iniciativas autônomas e locais em ‘teorias metodológicas’, esquecemos algumas das condições fundamentais de seu êxito. Por exemplo, o fato de que nasceram da imaginação e da prática dos profissionais responsáveis por sua execução e que refletem seus interesses, aspirações e saberes. Como dizia o velho mestre José Mário Pires Azanha, professores que não participam da criação de uma proposta pedagógica desoneram-se de seu êxito. O valor educativo de uma iniciativa pedagógica não é produzido pela observância de procedimentos técnicos, nem resulta da magia pessoal de quem os aplica. É fruto da política e da arte.


José Sérgio Fonseca


de carvalho Doutor em filosofia da educação pela Feusp



jsfc@editorasegmento.com.br

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