Nem salvação nem reprodução

Notas sobre as sociedades e suas escolas

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Ana Teixeira
O século 20 nos legou duas grandes narrativas acerca das relações entre escola e sociedade que ainda hoje se alternam nas representações de professores, intelectuais e homens públicos. A primeira, forjada em suas décadas iniciais, atribui à escola o papel de uma instituição salvadora, capaz de liberar o gênero humano da ignorância e do preconceito; capaz de criar um forte sistema de coesão moral e social e de legitimação das diferenças sociais, que teria por base o desempenho do indivíduo e não sua origem social. Assim, a igualdade de oportunidades escolares resultaria, progressivamente, na instituição de uma sociedade justa e esclarecida.


A segunda narrativa, difundida a partir dos anos 70, opõe ao sonho da salvação o fado da reprodução. O discurso da igualdade de oportunidades ocultaria a verdadeira função social da escola, que é a reprodução material e simbólica das desigualdades sociais encoberta pelo manto ideológico da meritocracia individual. Em sua radical oposição, ambas têm um ponto em comum: creem na potencial identidade entre escola e sociedade, entre a parte e o todo. A primeira porque acredita na onipotência da escola para forjar uma sociedade à sua semelhança e a segunda porque crê na onipotência da sociedade para forjar uma escola que seja seu simples mecanismo de reprodução.


Na obra As sociedades e suas escolas, Dubet, Duru-Bellat e Vérètout, sociólogos franceses, convidam a pôr em questão as certezas da narrativa reprodutivista e da salvacionista. E o fazem a partir da análise comparativa de sistemas escolares em sociedades relativamente semelhantes, como a americana e a canadense; a alemã e a francesa; a japonesa e a coreana. O resultado é que a firme crença de que práticas e valores sociais se reproduzem de forma imediata nos sistemas escolares acaba sofrendo abalos que a relativizam fortemente. Como explicar que a competitiva, desigual e pouco coesiva sociedade norte-americana tenha produzido um sistema escolar público compreensivo e acolhedor em relação a seus alunos? Ou que a França e a Alemanha, países mais coesos e igualitários do que os EUA, tenham desenvolvido sistemas escolares bastante competitivos e com diferentes ramificações hierárquicas em seu seio?


O fato é que existe certa distância entre as sociedades e suas escolas e não há razão para se crer nem na homologia mecânica entre sociedade e escola, nem na capacidade de esta última superar, por si só, as injustiças sociais e econômicas de uma determinada configuração social. O Japão, por exemplo, foi capaz de criar um sistema escolar bastante igualitário, em que pese a persistência de uma sociedade de rígidas hierarquias. Nada indica, pois, que uma escola relativamente aberta e equânime possa criar uma sociedade mais móvel ou justa. A Itália, por sua vez, desenvolveu um sistema escolar mais aberto e igualitário do que a França e a Alemanha, mas nem por isso tornou-se um país menos desigual do que estes.


Esses dados, longe de instaurarem um pessimismo pedagógico, podem nos convidar a pensar a cultura escolar como um subsistema relativamente autônomo em relação aos condicionantes econômicos e sociais maiores. Isso não implica – que fique claro! – postular a independência total entre escola e sociedade, mas nos propõe o desafio de buscar compreender as especificidades de cada cultura escolar e de suas relações com a sociedade em que se insere. E, ao assim fazer, sugere a necessidade de enfrentar o problema das injustiças sociais a partir de sua dimensão central, que é política e não escolar. Ao atribuir às escolas o papel de promover a igualdade, as sociedades acabam por postergar para um amanhã sempre inalcançável uma tarefa que deveria ser enfrentada hoje; e por todos  os seus atores políticos e não somente pela escola!


*José Sérgio Fonseca de Carvalho
Doutor em filosofia da educação pela Feusp e pesquisador convidado da Universidade Paris VII
jsfc@editorasegmento.com.br

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