Nem ao diabo lembra…

Convém prevenir investidas que firam o princípio da laicidade na escola

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Um pai pediu transferência do seu filho para a nossa escola, alegando que a criança sofrera humilhação por ser uma criança "
adventista

". Perguntei-lhe se conhecia crianças "
católicas

", "
socialistas

", ou "
flamenguistas

"… E se não haveria apenas crianças… Sem rótulos!

Trabalho com educadores de todos os credos, crente de que, em matéria religiosa, nenhuma crença, ou descrença, vale mais do que outra. Nada me move contra qualquer credo, mas considero ser necessário assegurar o respeito pela criança. E pela diferença!

Como diria o Ademar, não compete à escola ensinar uma religião, nem ensinar o ateísmo. Quando a religião entra na escola, deixa de ser fator de integração e de união para passar a ser um fator de divisão e de segregação. A abertura estreita da burca mental de certos "educadores" somente os deixa ver o que é permitido num horizonte encurtado pelo fanatismo. Ilustrarei com exemplos. E recomendo a leitura das crônicas que a Cecília Meireles escreveu sobre o assunto, na era Vargas. Setenta anos depois, elas mantêm atualidade.

Em algumas escolas brasileiras, um livrinho serviu de material para inculcar doutrina. Eis alguns excertos do livrinho, reflexos da ideia de um Deus cruel, postados numa tênue separação entre doutrinação e obscenidade: "
Nas Escrituras, Deus ordena aos pais que utilizem a vara como instrumento na criação dos filhos. A aplicação da vara tem por objetivo corrigir na criança os elementos que podem impedi-la de obedecer ao Senhor com alegria. Bater é uma forma de preparar o coração das crianças para buscar o que de melhor Deus tem para ela

".

Quando se discutia o uso do crucifixo nas escolas, uma "educadora" escrevia num blog: "
Não é o nosso povo majoritariamente católico? As pessoas que são contra o uso do crucifixo, se não estiverem contentes, que se mudem para outra terra

". Bem nos avisava o grande Abbé Pierre: "
a Igreja Romana não está ainda curada das suas chagas: a miséria dos privilégios

". A igreja católica perde crentes e a hegemonia, enquanto surgem instituições evangélicas ávidas de espaço na educação brasileira, numa disputa por delimitação de território. Numa escola, assisti a uma cena degradante: uma professora "católica" acusava de todos os males os evangélicos e uma professora "evangélica" replicava no mesmo tom. Enquanto eu ensaiava uma prece:
Que Deus tenha piedade das crianças que caírem nas mãos desta gente!

Num tempo de fanatismo, como é o nosso, é perigosa a defesa de um ensino confessional nas escolas públicas, porque, qualquer que ele seja, pressupõe uma visão redutora do ser humano e de mundo. O Decreto nº 1.960, de 16 de dezembro de 1906, que aprovava o "Regulamento da Instrução Primária e Normal do Estado" de Minas Gerais, já nos dizia que a educação moral deveria "ser naturalmente respirada na atmosfera da escola".

Valores devem ser ensinados, mas sem a contaminação de sectarismos. Sem negar a relevância de uma fé autêntica, o domínio do secular deve ser objeto de crítica e debate e não ficar subordinado a "verdades reveladas". Muito menos deverá ficar nas mãos de ensinantes, que se consideram proprietários da consciência, da ética e da moral dos outros, e que exercem sobre os alunos sutis formas de condicionamento espiritual. Quem se recordará do projeto de lei "Deus na escola", que feria o princípio da laicidade do Estado e o direito à igualdade e liberdade de consciência e de crença? Se a memória é curta, convém prevenir novas investidas, que contrariam o disposto no artigo 227 da Constituição. Nem ao diabo lembra explicar a divindade como conteúdo escolar!…


José Pacheco


Educador e escritor, ex-diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves (Portugal)



josepacheco@editorasegmento.com.br

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