Negócio da China

País revolucionou o sistema de ensino público investindo 2% do PIB em educação

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É fácil de se entender o monumental desenvolvimento da China nos últimos anos quando se olha para o pragmatismo e eficiência com que eles conduzem o sistema educacional.



Primeiro choque: as universidades públicas cobram mensalidades. E diferenciadas. Os melhores alunos pagam bem menos do que aqueles que não conseguem obter a nota de corte. De 1998 a 2002, a taxa de matrícula passou de 6% para 15% – igual à brasileira. Essa brutal expansão aconteceu enquanto o número de instituições de ensino superior caiu (!) de 597 para 267, em um processo do governo central em busca de maior eficiência administrativa.



Segundo choque: no nível secundário de ensino, há dois tipos de escolas públicas, as normais e escolas-chave. As segundas recebem mais recursos, atraem os melhores professores e podem selecionar os melhores alunos; suas taxas de admissão na universidade são superiores a 90%. No sistema público da China comunista, se preza o mérito e se recompensam os melhores com melhores oportunidades.



Terceiro choque: o Ministério da Educação foi abolido de 1966 a 1975. Durante esses anos, acabou-se com muito da estrutura do ensino chinês, com a defesa de que todos podiam ensinar e de que o verdadeiro conhecimento não estava nos livros das aulas, mas na sabedoria do camponês. Terra arrasada. Tudo o que alcançaram, portanto, saiu praticamente do zero nos últimos 30 anos.



Quarto choque: como o país tem 1,3 bilhão de habitantes, o sistema de ensino é grandiloqüente. São 20 milhões de alunos no pré-primário, 121 milhões no primário, 67 milhões no secundário inferior, 29 milhões no secundário superior e 16 milhões nas universidades. A China tinha em 2002 mais alunos do que a população do Brasil. Quinto choque: desde 1989, o sistema de testes gera um ranking de professores, que influencia seus salários. De acordo com sua experiência e desempenho nos testes, os professores estatais são divididos em cinco categorias: professores-super (5% do total), sênior e de primeiro, segundo e terceiro níveis.





Sexto e derradeiro choque: enquanto fazia essa revolução na sua educação na década de 90, a China gastava em torno de 2% do seu PIB com educação. O Brasil tem gastado em torno de 4%.




Essa é pra quem acha que precisa gastar mais em educação no Brasil pra se chegar a níveis melhores de qualidade e acesso. Pra quem acha que ser de esquerda é defender universidade pública gratuita para todos. Pra quem acha que num Estado “republicano” qualquer forma de competição ou recompensa aos melhores, sejam alunos ou professores, é antidemocrático e parte do programa neoliberal. Pra quem entende que ser verdadeiramente de esquerda e preocupado com o futuro do país significa capacitar alunos usando de todos os métodos possíveis, ao invés de ficar repetindo discursos bobocas, doutrinando crianças e colocando a culpa da sua incompetência no FMI.





Em 1960, o Brasil era um país mais rico e desenvolvido que a Coréia. Hoje, nossa renda é de um quinto da deles. Se alguém quiser apostar que daqui a 30 anos vamos ter as mesmas lamentações em relação à China, eu topo.



Gustavo Ioschpe é mestre em desenvolvimento econômico com especialização em economia da educação

E-mail:



desembucha@uol.com.br



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