Navegando pelo (des)conhecido

A cisão entre instrução e educação, fruto de uma visão técnico-utilitarista do mundo, contrasta com as possibilidades de livre acesso ao conhecimento trazidas pela tecnologia, avalia o médico e filósofo italiano Mauro Maldonato

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Tempo, conhecimento e loucura. Esses três temas são alguns daqueles que compõem o universo de indagações e descobertas do filósofo, médico-cirurgião e psiquiatra italiano Mauro Maldonato, que passou a ser figura frequente no Brasil depois de temporadas como professor visitante da Universidade de São Paulo (USP) e da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP).


Apontando a cisão entre instrução e educação como um grande fosso do universo escolar contemporâneo, Maldonato vê um descompasso entre um mundo fluido – o das possibilidades do conhecimento ancoradas, entre outras coisas, na tecnologia – e os saberes padronizados exigidos pelos sistemas educacionais.








Divulgação
O italiano Mauro Maldonato, autor de Passagens de Tempo
Professor de psicologia da Universidade de Basilicata (sul da Itália) e autor do recém-lançado Passagens de Tempo (Sesc-SP, 2012), o pensador aposta numa mudança de paradigma cognitivo gestada pelas novas formas de circulação em rede dos saberes. E acredita que dela decorrerá um redesenho do papel dos poderes públicos. Leia, a seguir, a entrevista concedida via e-mail a Rubem Barros.


Em seu livro Passagens de Tempo, o senhor aponta como aspecto crítico dos sistemas educacionais contemporâneos o fato de eles serem por demais uniformizadores, agentes de um processo de achatamento do conhecimento na tentativa de socializá-lo.
Enquanto a evolução social descortinou novas possibilidades de liberdade individual, o sistema de ensino e as organizações burocráticas – transformados agora em sistemas quantitativos, estatísticos e uniformizadores – estão degradando as descobertas e o conhecimento. Sua rigidez administrativa e seu papel não natural de “agências de socialização” achatam o saber e o conhecimento tornando extremamente árdua a possibilidade de proceder a partir de uma indagação viva em direção a um propósito comum. A cisão entre educação e instrução – concebida originalmente para concentrar energia e recursos na instrução e evitar assim a subordinação da educação a um Estado ético – não só não resultou em melhoria visível da instrução, como provocou o seu gradual nivelamento-rebaixamento. Separada da instrução, a educação tornou-se uma “terra de ninguém”.

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Como lidar com o fato de que a escola deve ao mesmo tempo buscar transmitir uma herança simbólica comum, mas também incentivar a liberdade do pensamento?
É cada vez mais urgente compreender que o conhecimento é um caminho ao mesmo tempo ordinário e extraordinário, de confirmação e de surpresa, de fascinação e de temor, de esforço e de felicidade. Aprender não é somente reconhecer aquilo que já é sabido. Não é tampouco transformar incógnitas em conhecimento. Aprender é a unidade entre reconhecimento e descoberta, a união do conhecido e do desconhecido. No “extraordinário problema” da relação entre mente e cérebro é que está a trama, insolúvel sob muitos aspectos, em torno da qual giram visões de mundo, problemas do homem e do conhecimento: um nó górdio que só pode ser desatado com um golpe preciso, porque isso diz respeito antes de tudo à liberdade do pensamento.
 
As sociedades, cada vez mais, têm cobrado da escola a transmissão de saberes pragmáticos, utilitários, voltados ao mundo do trabalho. Até que ponto os educadores diferenciam, hoje em dia, as dimensões de saber e conhecimento?
Como não enxergar que uma escola estruturada a partir de saberes técnico-utilitários é uma resposta débil aos problemas gigantescos que temos à frente? Que, enquanto tudo se modifica em uma velocidade sem precedentes, a exigência de um saber de base nivelado, uniforme, transforma-se num instrumento velho e inútil? Para poder enfrentar o desafio de um mundo em mutação constante, os saberes de base deveriam conter em si mesmos interrogações com sentido, capacidade de aprendizagem autônoma, possibilidades de autoeducação.


Educadores do mundo todo se veem perplexos ante o efeito de sedução que as tecnologias produzem sobre os jovens. Em sua opinião, o que os seduz tanto?
Não me inscrevo no partido dos apocalípticos. A tecnologia liberta a vida de antigas escravidões: aquelas do espaço e do tempo. Isso já é realidade para bilhões de pessoas. A internet não é somente o maior espaço público que a humanidade conheceu, mas um lugar em que a vida muda de qualidade, onde são possíveis o anonimato e a multiplicação das identidades, o conhecimento e a ubiquidade, a liberdade plena e o controle total. Essa grande transformação tecnológica transforma não somente o quadro dos direitos civis e políticos, mas redesenha também o papel dos poderes públicos, muda as relações pessoais e sociais e incide sobre a antropologia das pessoas. Tudo isso é válido antes de tudo para os jovens.


Que tipo de impacto a velocidade das tecnologias pode provocar no modo como raciocinamos e em como buscamos o conhecimento no âmbito escolar?
O nosso cérebro modifica a sua capacidade de elaboração cognitiva de acordo com as informações recebidas. A diversidade daquilo que é percebido em nosso sistema nervoso de elaboração da informação depende da modalidade e da capacidade de recepção dos dados. A operação primária de significação do nosso cérebro consiste em especificar a colocação espaçotemporal dos sinais percebidos em cada evento observado. Isto nos permite perceber de que modo as mudanças na estrutura cerebral, derivadas do processo de aprendizagem, podem interferir na elaboração mental do espaço e do tempo. Dito isto, é preciso acrescentar que a utilização cooperativa das redes poderá, num futuro imediato, responder a problemas de alta complexidade: antes de tudo, pela construção de uma mudança de paradigma cognitivo, por meio de uma ampla cooperação de pesquisa e inovação educativa em rede, entre centros de pesquisa e escolas. Isto nos dá esperanças, não obstante o fato de que, na nossa sociedade, o sistema educativo e cultural não encoraja o desenvolvimento criativo dos jovens.


As diversas formas de registro que usamos no mundo de hoje fizeram com que deixássemos de ver como um valor positivo a memorização. Podemos prescindir dessa faculdade que era um dos pilares da retórica clássica?
A memória, desde sempre um objeto privilegiado da filosofia, é hoje objeto de uma atenção pluridisciplinar. No horizonte contemporâneo, são particularmente relevantes, de um lado, os estudos derivados das ideias de Freud, que evidenciam, sobretudo, os aspectos afetivos e significativos dos processos relativos à memória do indivíduo, pondo em relevo os mecanismos inconscientes de defesa. De outro lado, as pesquisas da psicologia experimental, que se concentram na mensuração das faculdades de lembrança e esquecimento, sobre a verificação da resposta de recordações pessoais, sobre a elaboração de modelos de funcionamento da memória. O pensamento científico recente costuma sublinhar o caráter seletivo e reconstrutivo dos processos mnêmicos. Ainda que às vezes conserve nos seus modelos a metáfora agostiniana da memória como depósito, o pensamento contemporâneo tende a concebê-la como um conjunto de atividades e como pluralidade inter-relacionada de funções. Disso não se pode prescindir.


Escola e educadores contemporâneos atribuem o insucesso escolar de muitos alunos a diversos transtornos de aprendizagem. Até que ponto eles estão ligados à velocidade da vida contemporânea?
Não acredito que haja uma relação particular entre as dificuldades específicas de aprendizagem e outros problemas do desenvolvimento infantil e as questões derivadas da velocidade e da hipercomplexidade da vida contemporânea. Nos próximos anos se trabalhará muito para melhorar os diagnósticos em neuropsiquiatria infantil e talvez isto nos mostre cenários até aqui impensáveis.


Das diversas doenças mentais com que o senhor teve contato como psiquiatra, qual aquela que chamou sua atenção no que se refere a um tipo particular de relação ou percepção do tempo?
No século 20, a questão do tempo foi objeto privilegiado de reflexão de pensadores como Husserl, Minkovski, Binswanger, Von ­Gebsattel, Lévinas, que trouxeram a questão da temporalidade para o campo de forças do vivido, das diferentes vivências no “face a face” do mundo. Com a fenomenologia, a figura do outro, estranha e inalcançável, é reinscrita no tempo. A análise fenomenológica da experiência do tempo mostra que a vivência humana se constitui de dois elementos irredutivelmente diferentes, que compartilham um mesmo horizonte: o polo do experimentar e aquele de temporalizar-se. Em todo caso, para lhe responder, o que me fascina são a esquizofrenia e a melancolia. Sondar os abismos intangíveis constitui uma imensa aventura.


Os índices de normalidade e loucura, ao que parece, são também construções sociais derivadas de interesses, posições morais etc. Sob esse aspecto, como o senhor descreveria os tempos atuais, de forma sucinta, levando em conta o que é considerado como doença mental hoje? Ainda que as fronteiras entre normalidade e loucura às vezes sejam frágeis, acredito que sempre se faça uma distinção clara. O tempo atual vê uma expansão de formas de sofrimento psíquico de natureza não necessariamente psiquiátrica, sob a forma de sociopatias, sofrimentos anímicos e não nominados. Todos nós devemos falar e ser vigilantes quanto aos riscos de tantas formas de ardis naturalizados que se fazem de contraponto à tentativa biopolítica e tecnocientífica de controle da nossa sociedade.

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