Nas cidades invisíveis

Ignoradas pelo governo, favelas se multiplicam e obrigam sociedade civil a se unir para levar educação a moradores

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Clayton Melo


“Ai, barracão

pendurado no morro

vai pedindo socorro

à cidade a teus pés…”





(Luiz Antonio e Oldemar Magalhães)








Cidade investigada





Situado na Vila Mariana, bairro de classe média de São Paulo, o Colégio I. L. Peretz fez um trabalho conjunto este ano com a escola municipal Campos Sales, do Heliópolis, uma das principais favelas paulistanas. O ponto em comum foi o projeto
Urbanização

, em que estudantes do último ano do ensino fundamental de ambas as escolas fotografaram o centro velho de São Paulo. Como resultado, surgiram uma exposição fotográfica e um encontro em outubro com o senador Eduardo Suplicy, em Brasília. Os estudantes entregaram a ele uma carta alertando para os problemas da favela. A parceria se estendeu para a área de informática. Os alunos do Peretz ministraram oficinas de computação para os colegas do Campos Sales.



A cada oito dias, surge uma favela no Brasil. No mundo, 32% da população (ou 924 milhões de pessoas) vive nessas moradias precárias, em sua maioria sem saneamento básico, asfalto, assistência médica, creches ou escolas. A Pesquisa de Informações Básicas Municipais, divulgada no mês passado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revela que 23% das cidades brasileiras declaram ter favelas ou moradias precárias semelhantes, como mocambos e palafitas. São 2,4 milhões de moradias cadastradas pelas prefeituras – um número maior do que o total de domicílios da cidade do Rio de Janeiro, com 1,8 milhão, segundo o Censo 2000.



Apesar de representar um universo de 6,55 milhões, esses marginalizados brasileiros não têm políticas públicas que os atendam. Governos aceitam as favelas como componentes naturais da paisagem social. O pragmatismo chega a ponto de se propor ações que tornem as favelas lugares habitáveis. Em meio à adversidade, surgem esforços – insuficientes – que ajudam a apontar caminhos e desmascaram a omissão do Estado. Cansada de esperar melhorias, a sociedade civil se une em um movimento silencioso, ainda tímido: o da educação.



Um dos exemplos mais proeminentes desse engajamento está na Maré, um complexo de 16 favelas esparramado pela Zona da Leopoldina, subúrbio carioca situado ao lado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Famosa pela miséria e violência – a área é dividida entre facções do tráfico como Comando Vermelho e Terceiro Comando – , foi nessa região em que nasceu, em 1997, o Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (Ceasm). A entidade tem como inovação o fato de ter sido organizada por moradores da comunidade (
leia mais à pág. 42

).



Outra característica peculiar é o fato de todos os fundadores do Ceasm terem curso superior – alguns são professores em universidades – e apresentarem trajetória ligada a movimentos sociais na própria Maré. A proposta é funcionar como uma rede sociopedagógica que organiza cursos pré-vestibulares, de idiomas, aulas de artes e informática.



Érika da Silva Costa, 27 anos, vive na Maré desde o nascimento e fez parte da primeira turma pré-vestibular do Ceasm. Quando viu o anúncio do curso, pensou ser uma piada. Para ela, entre a faculdade e a favela havia um abismo quase intransponível. Mesmo assim, Érika freqüentou as aulas e descobriu que o sonho de chegar ao ensino superior era possível de ser alcançado: “Como muitos dos professores eram da comunidade, percebi que nada poderia me impedir de conseguir também.”



Ao lado dos colegas, ela participava dos “corujões” – sessões de estudos que se arrastavam até a madrugada. O esforço valeu a pena. Hoje, Érika cursa o 6º semestre do curso de serviço social na Universidade Federal Fluminense e se lembra do instante em que viu seu nome na lista de aprovados no vestibular. “Corri para o meu pai e disse: ‘passei’. Ele estudou até a 4ª série do primário e sempre fez de tudo para os filhos terem o que ele não teve. Podia faltar qualquer coisa em casa, menos o material da escola”, diz a universitária, que trabalha como estagiária em projetos do Ceasm.



Assim como os professores foram modelos para Érika, ela eosdemais universitários da Maré que trabalham no Ceasm são referência para as novas gerações que integram outras ações da entidade, como o
Programa de Criança Petrobras

. Desenvolvido em parceria com a estatal e a Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, o programa atende 2,4 mil crianças de oito escolas da rede pública. Elas participam, fora do horário escolar, de oficinas de artes, informática, idiomas e educação. As atividades são realizadas nas escolas ou em uma das três sedes da entidade. Iniciado em 1999, com investimento anual de R$ 1,3 milhão da Petrobras, esse é o principal projeto do Ceasm.






Na ponta da sapatilha –





O projeto
Dançando para não Dançar

, por sua vez, elegeu a cultura como seu instrumento de cidadania. O programa ensina balé clássico para crianças e adolescentes de nove comunidades do Rio de Janeiro, como Cantagalo, Rocinha, Mangueira e Pavão-Pavãozinho. O trabalho ainda contempla aulas de espanhol, atendimento médico, odontológico, psicológico e fonoaudiológico para os alunos e seus familiares diretos.





Criado em 1994 pela bailarina Thereza Aguillar, o projeto foi inspirado na experiência do Balé Nacional de Cuba – onde ela trabalhou -, que formava dançarinos entre crianças de baixa renda e órfãos. Depois de três anos em Havana, Thereza retornou ao Brasil com o sonho de montar um projeto que possibilitasse a formação profissional na área de dança e estímulo à cidadania. Hoje, a iniciativa conta com patrocínio da BR Distribuidora e os apoios do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (Faperj) e da produtora Vídeo Filmes. A sede do projeto fica na Vila Olímpica da Mangueira, no Rio de Janeiro (RJ).



O início das atividades, como sempre, foi difícil. “Havia preconceito por parte de algumas pessoas, principalmente diretores dos Cieps[
Centros Integrados de Educação Pública

]. Diziam que balé era coisa de rico ou então que eu não poderia fazer um trabalho desses porque não era formada em educação física. Respondia: ‘Não quero formar atletas, e sim bailarinas'”, recorda Thereza.



No primeiro teste para formar a equipe, apareceram 300 meninas, das quais 40 foram selecionadas. Os frutos não tardaram. Duas adolescentes estudam na escola de dançaStaatliche Balletschule Berlin, na Alemanha – a estada delas no exterior é garantida pelo cineasta Walter Salles. Outros 58 alunos foram para a Escola de Dança Maria Olenewa, do Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

O


Dançando para não Dançar

também ajuda a enterrar preconceitos. Bruno dos Santos Oliveira encaixa-se na imagem do garoto que sonha ser um craque da bola. Negro, magrinho, sorriso maroto, é quase impossível não associá-lo à figura de Pelé quando jovem. Hoje com 12 anos, Bruno começou a jogar aos 5 anos na quadra da Mangueira. Quando fez 7 anos, sentiu vontade de fazer balé por influência da irmã, Ingrid, que já participava do projeto. “Fiquei em dúvida porque os meninos iam me ‘zoar'”, conta Bruno. Aos poucos, ele gostou da idéia. O pai do garoto, Cláudio Santos da Silva, apóia a iniciativa: “Um projeto como esse é importante porque há crianças largadas na rua, sem ter o que fazer, e esse trabalho aponta um caminho.”



No caso do projeto
Nós do Morro

, o teatro é o protagonista. Montado em 1986 por iniciativa do diretor Guti Fraga e voltado para a comunidade do Vidigal, morro do Rio de Janeiro (RJ), o projeto exibe mais de 30 peças no currículo e 300 alunos inscritos atualmente. O grupo já recebeu os prêmios Shell e Coca-Cola de Teatro Jovem e há dois anos conta com patrocínio da Petrobras. O
Nós do Morro

promove oficinas de cinema, interpretação, preparação de cenários, figurinos e iluminação, entre outros ofícios.



O ponto central do projeto é criar uma base de produção cultural na comunidade e formar profissionais para a área artística. Lá foram revelados, por exemplo, Jonathan Haagensen, ator

de
Cidade de Deus

, Mary Sheila, que atuou na minissérie
A Casa das Sete Mulheres

, e Roberta Rodrigues, de
Mulheres Apaixonadas

.



A Associação Cultural Monte Azul, fundada em 1979 e com atuação na favela de mesmo nome, localizada na zona leste de São Paulo (SP), também se serve do teatro em seu trabalho. Seu raio de ação, porém, abrange outras frentes, como oficinas de música e dança, além da realização de mostras anuais dessas expressões artísticas.



Os braços da entidade se ramificam ainda por ações na área de educação e saúde, além de cursos profissionalizantes. Um de seus diferenciais é a instalação na favela de creches, ambulatórios e oficinas de iniciação ao trabalho. A Monte Azul atende 1,8 mil crianças e adolescentes nas áreas de educação e cultura e 4 mil pessoas por mês no setor ambulatorial. Emprega 222 funcionários.



A mentora da associação é a pedagoga alemã Ute Craemer, senhora de modos contidos, vestes simples e facilmente avistada nas ruas da favela. A fala tranqüila não dá pistas do desassossego que viveu durante a infância no pós-guerra de uma Europa acometida pela fome. Fugida da guerra, sua família foi morar na Áustria, onde trocava bens pessoais, como móveis e louças, por alimentos. Quando não havia o que negociar, o jeito era pedir comida aos camponeses austríacos.



Nascida na Alemanha, chegou ao Brasil na década de 70 para trabalhar em uma escola de classe média adepta da pedagogia Waldorf. Como essa linha de pensamento prega uma nova relação das pessoas com o próximo e com o meio em que vivem, Ute aproximou seus alunos dos moradores da favela Monte Azul, vizinha à escola.



As passagens marcantes da infância deram à Ute sensibilidade para compreender os dramas sociais que décadas depois ela encontraria no Brasil. “O que me impressiona nessas pessoas é o fato de, dentro de uma condição tão desfavorável, carregarem uma chama que faz com que mantenham a dignidade.”



Quando Ute chegou ao Brasil, a paisagem da Monte Azul era desoladora. Todos moravam em barracos, não havia encanamento nas casas e os serviços públicos passavam longe da região. A violência era assustadora. Mais de duas décadas depois, o cenário mudou para melhor. Além da presença dos serviços diretamente ligados à associação, hoje a favela tem residências de alvenaria, encanamento e posto de saúde.



A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo não possui dados por região, mas os moradores confirmam que os crimes não são mais um tormento. “Houve uma época em que chegávamos para trabalhar e víamos corpos estendidos no chão; hoje não é mais assim”, avalia Paulo Roberto Ignácio, um dos fundadores e membro da coordenação da Monte Azul. Em cada uma dessas benfeitorias há o dedo da associação, que organiza mutirões para realização de obras e faz a ponte com o poder público para implantação de políticas sociais.





Tipo exportação







“O abrigo [
da favela

] é temporário mesmo se durar para sempre; a habitação é durável mesmo se desabar amanhã”, sintetiza a arquiteta Paola Berenstein Jacques no livro
Maré Vida na Favela

. O raciocínio de Paola explica um fenômeno que já pode ser observado em muitas favelas: a substituição dos barracos de papelão por casas de alvenaria construídas em esquema de mutirão. Esse modo solidário de transformação da arquitetura das favelas é uma característica tipicamente nacional, segundo observou uma força-tarefa da ONU, em visita ao Brasil em julho deste ano. Representantes de associações de favelas brasileiras devem encaminhar à entidade suas experiências. A intenção da ONU é melhorar até 2020 as condições de vida de 10% dos favelados do mundo.



(CC)








A cidade a seus pés




Jailson de Souza e Silva mudou-se para a Favela da Maré na juventude, vindo de uma modesta família nordestina. Hoje, é doutor em geografia e professor da Universidade Federal Fluminense, além de um dos fundadores e membros da diretoria do Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (Ceasm). Ativo líder comunitário, ele critica a noção de terceiro setor, expõe o preconceito contra a favela e ajuda a organizar uma base de dados inédita sobre a Maré.





Revista Educação – Em que contexto surgiu o Ceasm?

J




ailson de Souza e Silva





O espírito, na época da fundação, era entender por que tão poucas pessoas de origem popular, como nós, chegam à universidade. Tínhamos um dado: 0,57% da população da Maré havia ingressado no ensino superior, segundo o IBGE, sendo que a média no Rio de Janeiro é de 15%. Criamos uma rede que facilitasse o acesso à universidade e o envolvimento do jovem em projetos culturais, educacionais, para que ele fosse referência para outros jovens. A idéia era criar um centro de estudos com formação de pesquisadores na comunidade.





O senhor não acha que as ONGs estão assumindo um papel que seria do Estado?





Uma coisa que não fazemos de forma alguma é suprir uma função que é do Estado. Por exemplo, já fomos convidados para administrar postos de saúde aqui na Maré e não aceitamos porque isso cabe ao Estado. Não tem sentido gerirmos escolas, creches comunitárias. Criticamos a idéia tradicional de terceiro setor, com a qual não trabalhamos. Somos sociedade civil.





Como se fundamenta a crítica ao terceiro setor?





Ele está associado à idéia de Estado mínimo, de um determinado conjunto de entidades – com maior “eficiência” – que cobririam funções do Estado. No nosso caso, estamos suprindo uma deficiência na qualidade da escola pública, mas não cumprimos o papel dela. Fazemos isso por causa da extrema desigualdade social e falta de investimento do Estado. Buscamos recursos para melhorar o acesso. Mas é um absurdo ter de montar um pré-vestibular porque a escola que é oferecida aos pobres e às pessoas dos espaços populares não consegue competir com a escola privada.





Que tipo de preconceitos o senhor identifica quando o assunto é a favela?





Uma visão preconceituosa diz respeito à formação desses espaços populares, sempre definidos pela ausência. A favela torna-se o lugar que não tem água, luz, esgoto, é o caos, a anarquia. Dessa maneira, pensam no morador da favela como potencialmente criminoso e por isso falam dos nossos meninos “o jovem da favela pratica dança ou está na universidade, mas poderia estar no tráfico de drogas”. Ou seja, se a Sasha, filha da Xuxa, quer dançar, então é porque ela quer desenvolver seu potencial artístico. Mas se o pobre vai dançar, é porque ele quer se livrar da violência. Essa visão paternalista enxerga o pobre como vítima passiva de uma ordem injusta. No fundo, são visões dos grupos dominantes que definem os espaços populares a partir de suas referências. A favela poderia ser definida pelo alto grau de sociabilidade entre os moradores.
(CM)




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