Nas asas da qualidade total

Projeto patrocinado pelo Instituto Embraer leva conceitos empresariais à rede pública de São José dos Campos (SP)

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Gestão eficiente, que proporcione educação de qualidade a todos os alunos. Com o propósito de alcançar essa meta, a Secretaria Municipal de Educação de São José dos Campos (SP) instituiu em outubro de 2002 um novo sistema de administração para a rede pública da cidade. Trata-se do Sistema de Gestão Integrado (SGI), cuja implantação foi patrocinada pelo Instituto Embraer, que contratou a Fundação Pitágoras, de Minas Gerais, autora do projeto, para assessorar o processo. A consultoria terminou em outubro de 2004 e o Instituto Embraer aguarda a aferição de resultados pelo Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp) para definir as próximas etapas do apoio.

A linha mestra do SGI parte de um princípio hoje muito conhecido no mundo corporativo: o alinhamento de metas nos diferentes planos hierárquicos – no caso da rede, traduzidos por secretaria, escolas, professores e alunos. Como nos planos de ação empresariais, foram estabelecidas missão, visão, metas, medidas e estratégias.

Ainda é difícil afirmar com clareza se o sistema funciona a contento. De um lado, a secretaria assinala benefícios gerados pelos novos métodos, mas admite funcionamento desigual entre as 39 unidades da rede, que apresentam graus diferentes de resistência à iniciativa. Lideranças – para usar a nomenclatura proposta pelo sistema – do SGI nas escolas acreditam que os alunos estão mais estimulados e que aumentou a auto-estima de professores e funcionários. De outro, professores criticam os procedimentos burocráticos e a perda de horas-aula antes destinadas ao trabalho de classe para o preenchimento de gráficos.

“O SGI oferece um sistema mais amigável para se trabalhar, acentuando práticas que a escola já mantinha, porém de maneira informal”, defende o professor Hélio Gomes, superintendente da Fundação Pitágoras. “O sistema não substitui o projeto nem as crenças pedagógicas da escola, é apenas uma forma mais organizada de as pessoas trabalharem.”

Segundo ele, o projeto — criado pela fundação como meio de auxiliar escolas públicas de municípios mineiros — resulta da observação da existência de critérios de excelência semelhantes em “organizações de classe mundial”. A proposta foi elaborada tendo como base o
Prêmio Nacional da Qualidade

, que traz oito critérios para a gestão de excelência.

O professor Antônio Carlos de Oliveira, coordenador de implantação do SGI e orientador pedagógico da rede, diz que o projeto trabalha muito com os conceitos de eficiência e eficácia. Oliveira faz coro a Gomes quanto ao fato de não haver interferência na dimensão pedagógica. “As metas de sala de aula são bem parecidas com as metas normais de ensino”, afirma. “Apenas algumas práticas, como os projetos de pesquisa, são feitas de forma sistematizada, à luz de um sistema de gestão.”

A preocupação constante de todos os envolvidos na implantação do SGI em ressaltar que ele não interfere no plano pedagógico pode ser vista como evidência da dificuldade de assimilação do projeto pelos professores. Atenuar o seu alcance, ao situá-lo apenas no campo administrativo, seria uma forma de tentar não melindrar os docentes.

A orientadora pedagógica Mônica Guimarães Camargo, da EMEF Luzia Levina, relata que encontrou muita resistência dos professores na escola em que trabalhava antes. “Alguns têm pouca abertura para buscar outros conhecimentos, outros referenciais teóricos”, diz. Para ela, as principais virtudes do método são o ganho de agilidade nas ações e o envolvimento das pessoas. O principal “delta” ou “oportunidade de melhoria” seria a adoção de jornada integral para todos os professores, pois aqueles que não participam do Horário de Trabalho Coletivo (HTC) não podem dedicar-se tanto quanto a prática exigiria.

A mesma crítica é feita por um professor de português da rede que preferiu não se identificar, e que leciona nos três períodos. “Sou obrigado a dar uma atividade de estudo de texto aos alunos enquanto preencho os gráficos que a escola tem de mostrar à secretaria”, afirma. “O projeto foi mal implantado, sem considerar a realidade existente e sem preparar o corpo docente.”

Outros professores também reclamam do excesso de papéis e dizem que o seu preenchimento toma até 30% do tempo antes destinado a atividades didáticas. “Parece que a escola se transformou numa empresa. E nós lidamos com seres humanos. Muita papelada, muita cobrança, mede-se o aluno o tempo todo”, relata uma professora de artes. “É um recurso antididático, pois o aluno tem medo de seu fracasso ficar pendurado na parede. Antes, o negativo era objeto de conversa com os pais, hoje ele é exposto”, diz outra docente, referindo-se aos gráficos de desempenho que são afixados em sala com os pontos de destaque (positivos) e os “deltas” de cada um.

Essa visibilidade do desempenho do aluno é aprovada por muitos que desempenham papéis de liderança – diretores, assistentes de direção, orientadores pedagógicos e educacionais. Para Marina Guedes, diretora da EMEF Elizabete de Paula Honorato, os gráficos possibilitam mostrar aos pais o quanto cada criança avançou e qual a sua assiduidade. Quando o nome de um aluno vai para o quadro de destaque, ela acredita que isso constitui incentivo para que os outros melhorem.

A idéia do Instituto Embraer de colaborar com a Secretaria de Educação de São José dos Campos, município com cerca de 600 mil habitantes na região do Vale do Paraíba, surgiu depois de a entidade inaugurar na cidade o colégio de ensino médio Engenheiro Juarez Wanderley, voltado a alunos de escolas públicas. A primeira turma ingressou na escola no início de 2002.

“Queríamos colaborar com a educação no município e a secretaria nos sugeriu que investíssemos em gestão, pois do ponto de vista pedagógico não havia grandes problemas”, explica Luiz Sérgio Cardoso, diretor-superintendente do instituto. “Tivemos conhecimento do projeto do Pitágoras no município de Vespasiano (MG) e achamos que tinha tudo a ver com o plano de ação que fazíamos na Embraer, propondo alinhar os esforços de todos.”

O Instituto Embraer contratou a Fundação Pitágoras para uma consultoria de dois anos, com reuniões mensais de técnicos da entidade e educadores da rede para implantação do sistema. Se os resultados no Saresp forem positivos, o Instituto Embraer poderá estender o projeto a outros municípios.

Outra possibilidade é a de que seja executada ação para melhorar o ensino de inglês no 2o. ciclo do ensino fundamental. “Vamos ver como utilizar da melhor forma as 240 horas/aula de inglês que os alunos de 5a. a 8a. séries têm”, diz Cardoso. A idéia surgiu da constatação de que o nível dos alunos que chegaram ao Colégio Engenheiro Juarez Wanderley não era satisfatório nessa disciplina.




Na universidade, críticas ao modelo




A lógica que movimenta a gestão da qualidade total faz parte do universo corporativo, que adota a racionalidade administrativa voltada para a obtenção do lucro. A administração da escola pública, que tem como finalidade central a formação de cidadãos por meio da educação, buscando minimizar as diferenças sociais, é incompatível com essa lógica.

De maneira geral, essa é a posição comum a educadores de universidades ouvidos sobre a adoção de princípios empresariais na escola pública, prática que se fortaleceu a partir dos anos 90, quando o conceito de qualidade total foi amplamente difundido em vários campos de atuação.

Para o professor Romualdo de Oliveira, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FE-USP), os eventuais ganhos da adoção de mecanismos competitivos – embutidos no processo de gestão empresarial – têm um potencial de modificação de pouco fôlego. “Isso não se sustenta no longo prazo. Às vezes, como no vestibular, traz um ganho imediato evidente, mas é desigual e excludente.”

A aceitação desses mecanismos ocorre, acreditam especialistas, em função de os sistemas educacionais não terem projetos claros. Os sistemas de gestão entram, então, para “organizar um pouco a casa”. Sua lógica, no entanto, acaba por levar a “uma inversão entre objetivo e meio”, na avaliação do professor João dos Reis Silva Jr., do Departamento de Educação da Universidade Federal de São Carlos.

“O aluno acaba se tornando um meio e a educação, mercadoria. Com isso, muda-se o objetivo da educação, subordinando-a à economia. A gestão da qualidade total ou o modelo de competências tendem a formar indivíduos que se adaptam a qualquer tipo de trabalho, mas não são capazes de fazer uma contextualização real, apenas uma contextualização funcionalista. Esse movimento opera um reducionismo do processo educativo”, critica Silva Jr.

Para Vitor Paro, professor aposentado do Departamento de Administração Escolar e Economia da Educação da FE-USP, não assumir que gera conseqüências no campo pedagógico é um contra-senso de qualquer projeto de gestão. “A administração envolve todo o processo. Qualquer mediação visa a atingir os fins”, diz.




O trem e o trilho




A secretária de Educação de São José dos Campos, Maria América de Almeida Teixeira, foi uma das articuladoras da implantação do Sistema de Gestão Integrado (SGI). À frente de uma rede de 39 escolas, com 2.445 professores e 35 mil alunos no ensino fundamental, ela administra um orçamento anual de R$ 240 milhões. Veja, a seguir, sua opinião sobre o SGI.




Por que investir em gestão?


O município investia bastante em formação continuada de professores e isso não estava chegando à sala de aula. Verificamos que faltava gestão e procurei o Instituto Embraer. Eles estavam abertos a fazer uma parceria e sugeriram que fôssemos conhecer o trabalho feito em Vespasiano
[MG]

. Gostamos muito e a Embraer contratou a consultoria da Fundação Pitágoras.


Os procedimentos do SGI são realizados no horário das aulas?


O SGI nada mais é do que gestão. Não é para mudar a parte pedagógica. Temos o trabalho desenvolvido nas escolas, que seria o trem, e o SGI é o trilho. Quando alinhamos o sistema da secretaria com as escolas, salas de aula e tudo mais, sabemos aonde queremos chegar.


Alguns professores dizem que as atividades do SGI tomam tempo de trabalho do conteúdo curricular.


É sinal de que não está sendo feito da maneira como deveria. O professor, principalmente de 2º ciclo, não precisa fazer gráfico. Aluno é que tem de fazer. É que professor gosta de tudo certinho. Você vai a uma escola e vê todos os gráficos iguaizinhos, o aluno vai lá e só marca. Quem tem de fazer o gráfico é o aluno. Antes tínhamos dados que não eram concretos. Hoje, por meio do sistema de gestão, minha avaliação é em cima de dados. Graças ao SGI, mudou-se o olhar.


Quais são os resultados constatados com o SGI que mostram essa evolução?


Tenho resultado, sim. Não recebi ainda a avaliação. Temos a avaliação estadual, que é o Saresp
[Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo]

, e este ano vai sair a nossa avaliação de matemática da própria rede, o que é extremamente positivo. O aluno se vê no gráfico, o pai sabe fazer leitura de gráfico para ajudar a fazer o papel dele de acompanhar melhor o trabalho de aprendizagem. Então, só vejo pontos positivos. O SGI teve dois anos de formação com a Embraer. Agora pretendemos consolidar. Continua sendo um desafio grande, porque gestão em educação era algo muito distante. A gente tem de quebrar paradigmas. Não tenho 100% da rede dizendo que gosta de trabalhar o sistema de gestão. Mas, com certeza, temos um número muito grande.


Alguns educadores dizem que métodos trazidos da iniciativa privada, baseados na obtenção de lucros, são incompatíveis com o universo da educação. O que a senhora pensa?


O nosso lucro é a qualidade de ensino, que é a finalidade da educação. Temos uma rede grande e diversificada. O aluno da periferia, de uma classe social menos favorecida, tem o direito de ter um ensino de qualidade. É um trabalho de inclusão. Temos escolas de periferia que trabalham muito bem o SGI, os alunos podem ter um desempenho melhor do que os de uma escola mais centralizada. Trabalha-se em cima de dados.




Reportagem: Rubem Barros




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