Não pise no paragrama!

Os escritores e poetas preferem brincar com as palavras. Brincar com palavras é muito melhor do que brigar com as pessoas. Ou com os alunos

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Ilustração do livro Palavra vai, palavra vem, de Paula Taitelbaum (texto e ilustrações) L&PM, 2013

O que é “paragrama”? O paragrama designa uma alternativa gramatical, em nível ortográfico, fonético, sintático ou semântico, dialogando com a norma e gerando efeitos inesperados. Por exemplo, eu digo que estou mais preocupado com o “esquecimento global” do que com o aquecimento global. Ou que acabei de pagar uma “fratura”. Ou que é importante rejeitar determinadas “probostas”.

Um paragrama precisa ser interpretado. Sem preconceitos, sem rigidez, e sem paranoia. Pior do que cem paradigmas pode ser um único paradogma. O paradogma segundo o qual os outros não pensam direito me impede de falar e escrever melhor. Precisamos confiar na inteligência de quem ouve, de quem lê. Apostar numa lógica não alérgica ao jogo verbal. O paragrama dará certo se for recebido de mente alerta e aberta. A mente então acelera e vai mais longe.

O paragrama não para em si mesmo, não se detém na jogada, na firula, na paráfrase. É mais do que uma piada, ainda que possa fazer rir. O riso indicará a compreensão imediata, na lata! Um paradogma mata. Um paragrama ensina a ver o mundo e a conviver com todo mundo. Os escritores e poetas preferem brincar com as palavras. Brincar com palavras é muito melhor do que brigar com as pessoas. Ou com os alunos.

Vazar do vazio
Eu estava dando uma aula sobre linguagem criativa. E comentei que Guimarães Rosa, certa vez, dissera “tanto faz”, quando um revisor que trabalhava sobre um texto seu perguntou-lhe se determinada palavra, inexistente em todos os dicionários do mundo, era com “s” ou com “z”.

A aula prosseguiu. Dez minutos se passaram e um aluno me perguntou, sem eu entender direito a razão de sua dúvida, se a palavra “extravasar” era para ser escrita com “s” ou com “z”…

Por uma questão de apego etimológico, respondi que era com “s”, pois é o vaso, com “s”, que extravasa. Caí na armadilha! O aluno me contestou, cheio de si: “tanto faz, professor, porque ‘extravazar’ com ‘z’ é transbordar do vazio”. E eu compreendi que a poesia vive zanzando perto de nós.

A vida fica cheia de graça quando deixamos a língua solta. E quando a escola se descola de práticas vazias que já não convencem ninguém. Abaixo a lixão de casa! Os defeitos especiais nos abrem os ouvidos para enxergarmos outras coisas: o pior cego é o que não quer ouvir.

Ficamos cheios de vazio quando desprezamos os erros acertados, as ambiguidades explicativas, as obscuridades esclarecedoras. O paradoxo parece mentira, mas faz a mente mentar e fermentar de verdade. Não pise no paragrama! Vamos cultivá-lo, fazer experiências com a palavra.

Por exemplo, “os fins justificam os e-mails” foi um paragrama mais ou menos óbvio quando começamos a nos comunicar pelo correio eletrônico. Era preciso justificar e fazer justiça a essa nova conquista da Idade Mídia. Era preciso preencher com motivos reais nossas ações virtuais.

Processos e progressos
Os paragramas nos ajudam a ter uma visão menos histérica e mais histórica das coisas. A histeria quer resultados imediatos, respostas mínimas em velocidade máxima. Já a história quer entender os processos para evitar retrocessos.

Compreender histórias tem a ver com leitura. E quando leio um livro eu quero ver se me livro. Se me livro de doenças crônicas como a preguiça crítica. Essa preguiça que me faz repetir ideias odiosas, reproduzir notícias noturnas que nada têm a ver com a luz do dia.

Se eu superar a preguiça que me enguiça (e engana) a mente, poderei fazer parte daquela imensa minoria que eu tanto admiro: mestres de ontem e de hoje que nos mostram as raízes e razões de mil e uma questões.

O paragrama bilíngue oswaldiano “tupy or not tupy” toca uma dessas questões. Ainda está em curso o processo de nacionalização da nação. Ainda precisamos aprimorar nossa noção de nação brasileira. Como podem os nossos projetos pedagógicos acontecerem de verdade se não houver, de verdade, um projeto consensual de nação?

Outra questão tem a ver com a “nexologia”, esta ciência que nos dá consciência de que tudo tem a ver com tudo. Erros podem desterrar grandes tesouros. Há quem escreva “descente” querendo dizer que alguém é decente. Mas talvez tenha descoberto algo mais certo: quando alguém deixa de ser decente começa a descer e se torna “descente”.

Aprender é processual. Nada tem de paranormal. Progresso não linear, porém. Um passo para a frente, outros para trás, outros para o lado, outros para o outro lado. Não existe um caminho único, reto e direto. Ou melhor, o caminho mais concorrido não é necessariamente o que leva ao destino de outros tantos caminhantes: – Ei, caminhante, o seu caminho não existe! O caminho se faz à força do seu próprio caminhar.

*Gabriel Perissé é professor e pesquisador do NPC – Núcleo Pensamento e Criatividade – www.perisse.com.br

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