Não falta dinheiro

O problema do Brasil não é a falta de recursos, e sim que os recursos são mal aplicados

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A idéia de que falta dinheiro, de que o país investe pouco em educação, é quase axiomática. Reza a lenda que, com essa falta de recursos, seria impossível oferecer uma educação de boa qualidade. Não é verdade.

O Brasil gasta 4% ou 4,1% do seu PIB com recursos públicos para a educação — dados dos relatórios
Global Education Digest 2004

(Unesco) e
Education at a Glance 2004

(Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), respectivamente. Bem próximo da média mundial, incluindo gastos públicos e privados, de 4,75%, e mesmo dos países da OCDE, de 5%. E igual ou superior ao que alguns dos países com os melhores sistemas educacionais do mundo investem: Alemanha (4,3%), Japão (3,5%), Espanha (4,3%) e Rússia (3,0%).

Se presumirmos que a mensalidade média de uma escola do ensino básico é de R$ 400 e de uma faculdade, de R$ 500 – estimativa conservadora – , teríamos um gasto adicional de 2,4% do PIB com educação privada, o que colocaria o gasto total brasileiro em 6,4% ou 6,5% do PIB, acima da média dos países ricos.

Mesmo considerando apenas os gastos públicos, as estatísticas enganam, porque comparam coisas diferentes. Os países da OCDE, os mais desenvolvidos do planeta, têm níveis de matrícula que superam os 80% no ensino secundário, enquanto o Brasil fica na metade disso. E, na universidade, esses países alcançam 52% de matrícula bruta, contra 16% aqui. O Brasil deveria gastar muito menos que os países desenvolvidos, mas está muito perto deles.

Mais útil, portanto, é olhar o gasto por aluno. Para evitar as discrepâncias de poder aquisitivo, a OCDE nos faz o favor de compilar esses dados em porcentagem da renda
per capita

dos países estudados. Na educação primária, os países da OCDE gastam por aluno o equivalente a 20% do PIB
per capita

. Brasil:13%. Educação secundária: OCDE 26%, Brasil 14%. Pausa pra reflexão. Se os números globais não são tão diferentes, se o Brasil tem menos alunos nas escolas, como pode a diferença ser tão grande nos dados pro ensino primário e secundário? Prêmio pra quem pensou nas universidades públicas.

Enquanto que nos países da OCDE um universitário custa 43% do PIB
per capita

, no Brasil esse número vai a obscenos 161%. Nosso universitário público custa quatro vezes mais do que os universitários dos países ricos, e 15 vezes o valor de um aluno do ensino médio. Esses números mostram que o problema do Brasil não é falta de recursos – é que os recursos são mal aplicados. Vai muito para uma pequena elite na universidade pública e muito pouco a quem realmente precisa: nossa escola de base, que está tão capenga.

Aqueles que querem lutar por uma educação melhor para o país precisam entender essa realidade. As demandas por mais recursos, nesse quadro de aperto fiscal, serão rejeitadas. Porque dinheiro já há. Só tem que ser tirado de quem não precisa e gasta mal, e dado a quem precisa – e gaste bem, de preferência. O professorado tem papel importante nessa batalha. Enquanto predominar o espírito de corpo, em que qualquer crítica a algum nível educacional é vista como declaração de guerra à classe, os competentes e comprometidos continuarão sofrendo com a incompetência e desperdício dos que sugam os recursos. E quem paga a conta são as nossas crianças, o nosso futuro, o nosso país.



Gustavo Ioschpe é mestre em desenvolvimento econômico com especialização em economia da educação.

E-mail:



desembucha@uol.com.br




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