Na Terra do Nunca

O início do rito de passagem de Wendy para a vida adulta domina a versão mais recente de Peter Pan

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Sérgio Rizzo*

Autor de peças teatrais e romances, o escocês J. M. Barrie (1860-1937) recebeu o título de sir e fez sucesso na primeira metade do século XX. Com o tempo, no entanto, seu nome tornou-se bem menos conhecido do que o de seu personagem mais popular, Peter Pan. Barrie o inventou com base nas histórias que criava para entreter os cinco filhos de um casal de amigos, adotados pelo escritor depois que seus pais morreram. Em 1904, apresentou Peter ao público em um espetáculo teatral. Dois anos depois, publicou uma nova história com o personagem. E, em 1911, adaptou a peça original em forma de livro.



Essas obras deram origem a diversos filmes, como
Hook – A Volta do Capitão Gancho

(1992), e influenciaram os conceitos de infância e maturidade na cultura ocidental. O psicólogo americano Dan Kiley batizou de síndrome de Peter Pan o fenômeno contemporâneo dos homens que resistem a se tornar adultos. Muitos supunham que já não haveria nada de novo a dizer sobre o personagem, mas esta versão recente de
Peter Pan

demonstra que sempre é possível estabelecer novo olhar sobre os clássicos.




“Todas as crianças crescem, exceto uma”, diz o letreiro inicial. Supõe-se então, a exemplo da maioria das adaptações, que o foco estará em Peter (Jeremy Sumpter). Na verdade, o filme se concentrará em Wendy (Rachel Hurd-Wood) e no início de seu rito de passagem para a vida adulta. Filha de um bancário (Jason Isaacs), ela tem 13 anos e os mesmos lábios da mãe (Olivia Williams), em “forma de beijo”. Seu queixo, diz a tia (Lynn Redgrave), é “de mulher”. “Quase uma mulher”, corrige o pai. Depois de alguma resistência, no entanto, ele concorda que a filha vá morar com a tia para “começar seu aprendizado”, ou seja, saiba como ingressar na sociedade e arrumar um bom marido.




É nesse ponto, quando Wendy começa a lidar com a possibilidade de separar-se dos dois irmãos mais novos (com os quais se diverte, contando histórias fantasiosas) e dar adeus à infância, que surgem Peter, a ciumenta fada Sininho (Ludivine Sagnier) e os demais personagens da Terra do Nunca, onde o casal brinca de papai e mamãe. A descoberta do amor e da sexualidade é carta aberta sobre a mesa.




“Adoro o jeito como você fala das mulheres”, diz Wendy a Peter. “Eu adoraria lhe dar um beijo”, provoca em seguida. O contraste entre a postura adulta dessa “quase mulher” e a infantilidade selvagem do “sempre menino” rende, sozinho, bom material de discussão sobre as diferenças entre os sexos e os papéis reservados a eles na sociedade ocidental. O trunfo desta versão talvez seja o de conciliar a leitura adulta da história com um forte apelo infanto-juvenil, voltado para a ação e a fantasia, lembrando que a riqueza e a perenidade do universo criado por Barrie estão justamente na diversidade de interpretações que oferece.



*Jornalista, professor e crítico da revista
Set

e da
Folha de S.Paulo

.




srizzojr@uol.com.br


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