Na prática, mas com teoria

O jornalista e professor Eugênio Bucci analisa o campo das ciências humanas aplicadas e defende a importância da dimensão teórica na formação dos futuros profissionais

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Foto: Gustavo Morita

“O diálogo com o mercado é indispensável para uma boa formação. Mas a dimensão da teoria não pode faltar […] Não gosto da solução ‘aqui se aprende na prática’. Se fosse assim, nós não teríamos escolas.” A opinião sobre a necessária inter-relação entre o aprendizado prático e o teórico para a atuação em áreas das chamadas humanas aplicadas tem base sólida quando se olha para a carreira profissional do jornalista e professor universitário Eugênio Bucci.

Antes de exercer na Universidade de São Paulo as atuais funções de docente do curso de jornalismo da Escola de Comunicações e Artes (ECA), superintendente de comunicação social e membro do conselho deliberativo do Instituto de Estudos Avançados (IEA), Bucci fez carreira na Editora Abril, onde dirigiu redações de diferentes revistas, como Superinteressante e Quatro Rodas, e foi secretário editorial. A consolidação na área rendeu-lhe convite para presidir a Radiobrás entre 2003 e 2007.

Sua boa circulação entre esses mundos colaborou para o sucesso de cases interessantes, como a criação e direção do curso de pós-graduação em jornalismo com ênfase em direção editorial, na ESPM, entre os anos de 2011 e 2013, idealizado em parceria com Roberto Civita (1936-2013). A união também rendeu a criação da Revista de Jornalismo ESPM, versão brasileira da Columbia Journalism Review vinculada à Universidade Columbia, nos Estados Unidos. Em 2013, a publicação, na qual Bucci atua como diretor de redação desde sua criação, foi vencedora do Prêmio Esso de Melhor Contribuição à Imprensa.

Em entrevista concedida durante sua participação no Ciclo Mutações, promovido pelo Sesc no último ano, Bucci propõe uma reflexão sobre a formação dos comunicadores e as ações e estruturas das IES voltadas especificamente para isso.

Há quem defenda que cursos de humanidades aplicadas devessem ser apenas especializações e não graduações ou pós-graduações stricto sensu. O que acha disso?
Não conheço um modelo de ensino que sirva para todas as possibilidades das chamadas humanidades aplicadas. Para o jornalismo, o modelo de que eu mais gosto é o que existe na Universidade Columbia e na City University of New York, ambas nos Estados Unidos. São cursos relativamente curtos, com duração de um a dois anos, e que são entendidos como programas de pós-graduação, oferecidos para quem já passou por uma graduação universitária. São programas profissionalizantes, mas que supõem uma formação humanista ou uma formação em alguma outra especialidade.

Acha o modelo brasileiro defasado?
Creio que sim. Na formação de jornalismo, deveríamos ter cursos profissionalizantes em nível de pós-graduação. Hoje, para ser bom, um jornalista precisa se formar na graduação e seguir estudando. Ele pode estudar mais economia, psicologia, especializar-se em um campo ou outro, mas precisa seguir estudando. Deveríamos ter a alternativa inversa: pegar pessoas que não são jornalistas, mas que já fizeram uma graduação, e oferecer-lhes um curso profissionalizante de jornalismo. Essa é uma possibilidade que a legislação brasileira ainda não admite. Não que isso seja vetado expressamente, mas o marco legal da educação superior no Brasil não prevê a figura de um curso de pós-graduação que seja profissionalizante. Já existe o mestrado profissional, mas é outra coisa. O mestrado profissional não serve para substituir uma graduação no nível superior.

O que acha da não obrigatoriedade do diploma de jornalista no país? 
Em todas as democracias que contam, o diploma não é obrigatório. Porém, normalmente, contratam-se jornalistas que saíram das boas escolas porque eles são melhores, são mais bem preparados. O ensino serve, então, para capacitar as pessoas, não para conferir um selo de legalidade. O jornalismo não precisa disso nas principais democracias. O que precisa é que as pessoas que se dedicam à profissão tenham uma formação sólida, boa e que não se esgote em quatro anos ou em dois anos. Outra necessidade é que elas sigam estudando a vida toda, como, aliás, acontece com médicos, advogados, dentistas.

Você foi diretor de um programa de pós-graduação criado em parceria com um empresário. Como foi a experiência?
Aquilo partiu de um acordo entre o Roberto Civita [fundador do Grupo Abril morto em 2013] e a ESPM. Na época, o Roberto me convidou para ser o diretor desse curso. Ele havia criado uma instituição, que era o Instituto de Altos Estudos em Jornalismo, e por meio dela estabeleceu essa parceria com a ESPM. O Roberto vislumbrava o que chamada de um curso world class de bom nível; um curso para jornalistas em meio de carreira, com 15, 20 anos de experiência, que os qualificasse para o presente. Nós então montamos uma pós-graduação em jornalismo com ênfase em direção editorial. Uma prioridade para mim nesse processo foi encontrar professores de excelente nível, porque os alunos passariam 360 horas em sala de aula e eu imaginava que o que faria a diferença era a qualidade do professor, além, claro, da qualidade do programa. Penso que para um certo padrão de ensino, o professor não pode ser menos do que excelente; o aluno tem de sentir que está sendo enriquecido naqueles minutos. Por isso, fui procurar grandes professores. Lembro-me de alguns deles, como Alberto Dines, Renato Janine Ribeiro, João Sayad, Thomaz Souto Corrêa, o próprio Roberto Civita, Carlos Eduardo Lins da Silva, Judith Brito, Luis Francisco de Carvalho Filho, Ricardo Gandour, Caio Túlio Costa. Esse curso de pós-graduação na ESPM existiu por três anos. Depois da morte do Roberto Civita, em 2013, não existiu mais.

Muitos desses professores são jornalistas renomados. Trazer esses profissionais para a docência faz diferença em cursos das chamadas humanas aplicadas?
Não concordo com a visão de que aprendemos as coisas na prática, porque acho que isso pode levar a enganos perigosos. É claro que a prática ensina muito; o diálogo com o mercado é indispensável para uma boa formação. Mas a dimensão da teoria não pode faltar. Quando nós lidamos com o ensino, é preciso saber como os modelos funcionam; como se articulam tese, antítese e síntese; como um projeto concebe um sentido; de que forma um discurso se encadeia logicamente. Sem isso, é difícil ensinar. Aliás, sem a perspectiva da crítica, é difícil entender a prática. Um dos maiores objetivos de qualquer ensino nesse conjunto de saberes das chamadas humanidades aplicadas é mudar a prática, racionalizá-la, e não tratá-la como critério da verdade. Essa é uma ilusão já superada. Então, eu não gosto da solução ‘aqui se aprende na prática’. Se fosse assim, nós não teríamos escolas, bastaria que os jornalistas entrassem numa redação e estaria tudo resolvido.

Há limites para a influência do mercado nos cursos de ensino superior?
Não podemos esquecer que as escolas de jornalismo passaram a existir porque alguns perceberam que os jornalistas precisavam de uma formação mais sólida. E um dos primeiros que realmente se importou com isso foi Joseph Pulitzer (1847-1911), que defendeu a abertura de uma universidade no mesmo nível de outros cursos de educação superior. Esse curso acabou sendo feito em Columbia pouco depois de outro curso ter sido aberto nos Estados Unidos, mas tudo isso só em 1911, 1912. E Pulitzer defendia isso desde 1903. Pulitzer era um magnata da imprensa. Ele enxergava que os jornalistas precisavam de uma formação que fosse realizada não na prática, mas sim na escola. Nisso aí a universidade é insubstituível. Nós precisamos da escola para repensar a prática, inclusive.

Você está na USP, mas passou pela ESPM. Quais as diferenças de trabalho em escolas com propostas tão diferentes?
Eu já havia dado aulas na Cásper Líbero antes de morar em Brasília para dirigir a Radiobrás. A partir daí, dei aulas na ESPM e dou aulas na USP. São três instituições muito boas, com histórias diferentes. A ESPM foi criada há uns 60 anos para formar profissionais publicitários para o mercado. A instituição era muito alinhada com esse mercado em particular, e não com o mercado em geral. Depois, a ESPM se transformou numa instituição com mais densidade, com mais conteúdo e foi se tornando mais diversificada. Mas o DNA da escola está mais relacionado ao mercado. Inclusive o conselho da ESPM, que é a instância máxima de decisão da escola, tem representantes do mercado. Já a USP nasceu de uma tradição completamente diferente, uma tradição de pensar o país ainda no tempo do Armando de Sales Oliveira (1887-1945). A Escola de Comunicações e Artes, que é uma escola criada há cerca de 50 anos, também tem um caráter de formação de mão de obra para o mercado, mas segue outra tradição, que é a da USP, em que as humanidades têm um peso gigantesco.

Qual é o caráter da Revista de Jornalismo ESPM e como foi viabilizada a parceria com a Columbia Journalism Review?
Classificaria essa revista como uma extensão daquilo que faz, há 50 anos, a Columbia Journalism Review. No Brasil, usamos alguns conteúdos da versão internacional e produzimos conteúdos nacionais sobre o jornalismo no país. Não sei se a publicação pode ser vista como uma revista de divulgação científica, mas com certeza é uma publicação que reflete sobre a atividade do jornalismo, e, dentro disso, sobre o mercado do jornalismo. É preciso atentar para alguns aspectos que fizeram um diferencial para a sua criação. Um deles é a participação do ex-presidente da ESPM, José Whitaker Penteado, e do Roberto Civita. Do contato que os dois tiveram na Universidade Columbia, surgiu a ideia de trazer a revista para o Brasil. Mas sem o empenho pessoal do José Whitaker, isso não teria acontecido.

Com o devido incentivo dos gestores, iniciativas como essas são replicáveis em outras IES privadas? O que falta para que isso ocorra com mais frequência?
A lei no Brasil procura impor que as escolas tenham áreas de pós-graduação stricto sensu, que são áreas, a princípio, deficitárias, mas que geram conhecimento. As instituições cumprem o que a lei exige, mas ir além disso é muito raro. De forma geral, nós ainda enxergamos a universidade como uma repartição em que as pessoas vão se qualificar para exercer uma determinada profissão. Isso é uma das coisas que uma universidade faz, mas não a única. Precisamos ter mais peso da universidade no Brasil. Isso depende de mercado, mas também depende de pessoas mais preparadas para apostar em um caminho ousado e fazer com que a formação vá mais longe. Isso não envolve só decisões sobre a gestão. Envolve também pensar na qualidade dos cursos; na bibliografia; em como recrutar pessoas para a pós-graduação. São essas algumas das questões que movem a universidade, e muitas vezes elas não estão presentes. As IES privadas, muitas vezes, para fechar a conta, precisam ser lucrativas. Nada contra, porque realmente as coisas precisam ser lucrativas. Isso faz bem para o mercado. Mas, às vezes, por uma visão mais imediatista, mais estreita, não se faz o investimento de longo prazo, que é necessário.

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