Na escola da natureza

Pai Patrão recria a história verídica do escritor italiano Gavino Ledda, que era pastor e analfabeto até os 20 anos

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Sérgio Rizzo*


Siligo, vilarejo da Sardenha (Itália), janeiro de 1944. Gavino, 6 anos incompletos, começa a freqüentar a escola por uma determinação legal que obriga todas as crianças nessa idade a serem alfabetizadas. Seu pai, no entanto, precisa dele para trabalhar como pastor na propriedade rural da família. Certo dia, resolve tirá-lo à força da sala de aula, para espanto da professora e dos demais alunos. “Vim buscá-lo. Preciso que ele cuide das ovelhas. Ele é meu”, explica.



A cena, de impressionante brutalidade, abre
Pai Patrão

, clássico dirigido pelos irmãos Paolo e Vittorio Taviani – os mesmos de
A Noite de São Lourenço

(1981) e
Bom Dia, Babilônia

(1986) – baseado no livro homônimo de Gavino Ledda. O filme, lançado agora em DVD no Brasil, ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1977 e correu o mundo. O relato autobiográfico também foi um sucesso internacional e, recém-traduzido para português (Berlendis & Vertecchia, 319 págs., R$ 49), trouxe Ledda ao país, em abril, para participar da Bienal Internacional do Livro, em São Paulo.



Tratado como um servo pelo pai até completar 20 anos, ele só aprendeu a ler e a escrever quando se alistou no exército. A descoberta das palavras apresentou-lhe um mundo novo. Virou escritor e, durante um período, professor. Depois, retornou a Siligo, onde vive até hoje, para dedicar-se à glotologia (estudo científico de uma língua). Sua trajetória ímpar é recriada, pelos irmãos Taviani, com um misto de realismo e poesia que às vezes choca e outras vezes encanta.



Todo o drama se concentra, como o título sugere, na relação de dominação entre pai e filho que, embora pareça inaceitável para um espectador urbano do século XXI, era regra entre as famílias da Sardenha no pós-guerra. Há, ainda, outro senhor na história a exercer seu domínio sobre Gavino: a terra. O filme é também uma crônica da vida rural nas regiões mais pobres da Itália que caminha de acordo com o ritmo das estações e com o obedecimento a diversos rituais, inclusive os de vingança e os de iniciação sexual com animais.



A adaptação dos Taviani usa diversos recursos para destacar o turbilhão de sentimentos vividos pelos personagens. Em algumas seqüências, ouvimos seus pensamentos e desejos. A música, em outras situações, procura traduzir estados interiores. E, por mais que a experiência de Ledda tenha sido moral e fisicamente violenta, ele sobreviveu bem a ela. “Involuntariamente, seguindo seu egoísmo, meu pai fez um grande favor histórico”, disse ele em entrevista ao jornal
O Estado de S.Paulo

. “Salvou a minha cabeça de uma escola nada criativa, mergulhando-a na escola da natureza.” Quase tudo o que aprendeu de essencial, demonstra
Pai Patrão

, veio dessa sala de aula sem nota, diário de classe ou programa.



*Jornalista, professor e crítico da revista
Set

e da
Folha de S.Paulo





srizzojr@uol.com.br




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