Música na boléia

Pianista usa caminhão para levar repertório de qualidade a comunidades carentes em seis estados brasileiros

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Irineu Franco Perpetuo


 


Ele foi menino prodígio, laureado em concursos internacionais, estudou na Rússia e na França e gravou uma série de discos dedicados aos maiores compositores de seu instrumento, como Mozart, Chopin e Rachmaninov. Aos 63 anos de idade, Arthur Moreira Lima é um dos pianistas brasileiros mais conhecidos do grande público. Mesmo gente que nunca foi a uma sala de concertos na vida reconhece sua postura encurvada, o nariz adunco, a cabeleira esvoaçante e a prosa fácil, em carregado acento fluminense.





Agora, a facilidade de comunicação com o público de Lima está sendo utilizada para levar a música de concerto até gente que nunca foi a um teatro. Aliás, há lugares que nem sequer possuem um teatro. Claro que seria mais fácil fazer isso com um violão, uma flauta ou um violino, mas Arthur Moreira Lima está carregando consigo seus pianos de cauda, e tocando música pelo interior do Brasil.




O fato é que, mesmo quando a apresentação é de graça, muita gente ainda se intimida com o aspecto imponente das salas de concerto. Aqueles gigantes de concreto e mármore parecem ser templos abertos apenas aos “iniciados”, erigidos para afugentar os “leigos”.




Pois bem: o projeto de abrir os segredos dos templos da música para aqueles que não têm a oportunidade de chegar até eles se chama
Um Piano pela Estrada

, e consiste em um caminhão Scania, de 14 metros de comprimento, dotado de todo equipamento necessário para um concerto.




O caminhão se transforma em um palco de 45m
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, sobrando espaço para um camarim com ar condicionado, toalete e frigobar. A caravana ainda conta com mais um caminhão de apoio, micro-ônibus e dois carros de passeio, que transportam o pianista e sua equipe, além de equipamentos de som e luz.




A estréia do projeto aconteceu em setembro de 2003, seguindo o curso do rio São Francisco. Foram percorridos 10 mil quilômetros, nos estados de


Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas – um percurso que incluía travessias de balsa e solavancos em estradas de terra. Calcula-se que 60 mil pessoas já assistiram às apresentações.




Percorrendo distâncias menores, o pianista agora traz sua iniciativa à cidade de São Paulo. Os bairros de Perus, Pinheiros e São Miguel abrigaram, em abril, as primeiras de uma série de apresentações agendadas para as 21 subprefeituras paulistanas. Como de praxe, Lima intercala a execução de cada peça com uma explicação breve e informal.






Os programas escolhidos refletem a trajetória do pianista ao longo de sua carreira. Estão lá os grandes cânones da música de concerto, como Bach, Beethoven e Chopin; mas a música brasileira, que ele sempre se esforçou por gravar e divulgar, também se fazem presentes, por meio de Pixinguinha, Noel Rosa e Ernesto Nazareth. E a diluição dos limites entre o “erudito” e o “popular” se concretiza nas obras de Astor Piazzolla, o autor que fez do tango um patrimônio universal, acima de fronteiras de nação, época ou idioma.


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