Múltiplos fatores

Avaliações do uso de tecnologia para fins pedagógicos apontam bons resultados, mas não é possível atrelar a melhoria no desempenho exclusivamente à incorporação dessas ferramentas

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De um lado, a desconfiança. A adesão cega, por parte das escolas, às ofertas de máquinas e softwares educacionais que aparecem constantemente no mercado parece não garantir melhoria em termos de aprendizagem. Ao mesmo tempo, não é possível renegar ou simplesmente ignorar a presença da tecnologia nas escolas, já que a vida, em geral, está cada vez mais permeada por dispositivos e interações digitais. Na ausência de respostas para uma pergunta recorrente – as tecnologias impactam positivamente a educação? -, cria-se mais um questionamento: qual é  a medida justa da incorporação dos meios digitais ao ensino?


A resolução de ambos os problemas passa pela instituição de processos avaliativos no que diz respeito às chamadas Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs). Mas mesmo a tarefa de avaliar se o uso das ferramentas interfere ou não no desempenho dos alunos não é nada trivial. “É importante ressaltar que, dependendo do que se concebe como educação, ela não necessariamente melhora a aprendizagem”, defende Ocimar Alavarse, da Faculdade de Educação da USP (Feusp). Em outras palavras, a concepção que se tem sobre educação deve ancorar os critérios de avaliação do uso de recursos digitais. “Por exemplo, se você educa para formar pessoas competitivas, a tecnologia pode ser uma maneira de acelerar os estudos, incrementá-los, para fazer com que seus alunos estejam à frente dos outros.”


O alerta é importante para a formação de senso crítico na interpretação de avaliações que se apresentam na mídia ou no âmbito da gestão educacional, de projetos e estudos sobre a aplicação de tecnologias no ambiente escolar. Uma delas, divulgada recentemente pela empresa Positivo Informática, em parceria com a Fundação Carlos Chagas (FCC), avaliou a experiência realizada no município piauiense de José de Freitas. O projeto “Aprendendo com Tecnologia” foi implantado por meio de uma parceria entre a Positivo Informática, a prefeitura municipal e o governo estadual do Piauí, colocando soluções de tecnologia – lousas interativas com câmeras, mesas educacionais, laboratórios de informática com software próprio – em escolas públicas da cidade.


O relatório de resultados do projeto destaca aumento do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) das escolas de José de Freitas. O Ideb da rede estadual passou de 3,3, em 2007, para 4,4 em 2009. No sistema municipal, foi de 2,8, em 2007, para 3,4 em 2009 (o índice é sintetizado a cada dois anos, portanto os responsáveis comparam os valores anteriores e posteriores à experiência). Testes aplicados pela FCC no primeiro semestre e no final do ano de 2009 também apontaram resultados positivos. As provas foram feitas por um grupo de controle com perfil similar ao de José de Freitas, o que mostrou ganhos maiores entre as escolas participantes do projeto.


Em língua portuguesa, os estudantes de José de Freitas, do 2º ao 5º ano do fundamental, tiveram ganho de 8,3 pontos porcentuais entre o teste final e o teste anterior ao início da experiência, contra ganho de 0,2 ponto porcentual observado no grupo de controle. Em matemática, a diferença foi de 6,5 pontos percentuais em José de Freitas, ante 0,2 ponto percentual no grupo de controle. “O que se percebeu é que a empresa não colocou a tecnologia e foi embora, mas fez todo um trabalho de capacitação dos professores, acompanhamento e avaliação”, afirma Glaucia Novaes, pesquisadora da Fundação Carlos Chagas, responsável pela avaliação da experiência.


Foi neste sentido que a entidade, além de medir o desempenho dos alunos nas provas, aplicou questionários a estudantes, professores e diretores. “Atribuímos o resultado ao projeto como um todo, incluindo capacitação aos gestores e docentes, à presença de monitores que acompanharam as aulas, ao planejamento orientado pela Positivo”, afirma. Uma questão a considerar foi a introdução de bibliotecas digitais nas escolas de José de Freitas, promovido pelo projeto. “Os alunos passaram a ter acesso a diferentes textos via computador, além de atividades variadas”, comenta. A diretora Maria do Livramento Carvalho, da escola municipal Levy Carvalho, concorda. “Antes, as aulas eram muito tradicionais, só com quadro-negro, giz e lousa. Com a utilização da ferramenta, essa aula deixou de ser só teoria e passou a ser mais atrativa”, afirma.


A escola recebeu dois laboratórios: um com 17 computadores e outro com a lousa interativa e a câmera. A programação relacionada ao projeto inclui atividades em sala de aula antes e depois da aula com os computadores. A professora Jacquelane Maria Carvalho Cruz, da EM Agripina Portela, afirma que o “Aprendendo com a Tecnologia” contribuiu com mais estratégias didáticas e opções de atividades. “No início, tínhamos dificuldade em fazer a integração do conteúdo apesar de o software ser programado de acordo com nossa grade. Depois, tivemos formação, e vieram os arquivos impressos, para não perdermos tanto tempo buscando e tentando entender como é uma atividade”, relata.


Segundo Glaucia, as turmas em que os alunos eram protagonistas da aprendizagem apresentaram ganhos maiores nos resultados medidos – premissa defendida por vertentes pedagógicas desde o início do século passado, como a linha da Escola Nova, em um tempo em que não existia computação. “Agora, os professores utilizam diversas metodologias didáticas, os alunos pesquisam na internet, leem textos, utilizam vários gêneros textuais. E através da tecnologia, o aluno, que antes tinha um papel passivo, passa a ser ativo, evoluindo no aprendizado”, conta Maria do Livramento. Na escola dirigida por ela, a diferença no Ideb não foi o principal indicador atrelado ao projeto. Passou de 2,9, em 2007, para 3,0, em 2009. “Em 2010, com a utilização da ferramenta tivemos reprovação quase nula na escola, contra uma situação anterior que chegava a 50% dos alunos”, revela a diretora.


Números e critérios
A avaliação do projeto “Sala de Aula Conectada”, realizado na área metropolitana de Hortolândia (SP) entre junho de 2009 e novembro de 2010, também apresenta resultados positivos, em números e nos aspectos de interação e motivação. O programa foi fruto de uma parceria entre a empresa de computadores Dell e a Secretaria de Estado de Educação de São Paulo. O “Sala de Aula Conectada” incluiu conteúdo interativo, formação de professores e sala de aula equipada com projetor/lousa digital, computador do professor e kit multimídia, além de ferramentas de gestão remota.


Produzida pela Unesco, a avaliação comparou os resultados dos alunos do programa com um grupo de controle – o projeto apontou ganhos em sua aplicação. “Os alunos participantes de ensino fundamental apresentaram melhora de desempenho de 34% em português e 20% em matemática, resultados 2 a 7 vezes melhores do que o grupo de controle de alunos não participantes”, diz o texto. Os critérios da avaliação do projeto são condizentes com os pressupostos da empresa sobre educação, expressos na abertura do documento: “para mantermos e ampliarmos nosso crescimento econômico nos próximos anos, garantindo uma cidadania equânime para todos, precisaremos acelerar o ritmo dos ganhos de aprendizado dos nossos alunos”, diz o texto assinado pelo presidente da companhia no Brasil, Raymundo Peixoto.


O relatório faz duas ressalvas importantes: “além da introdução do uso da tecnologia, as escolas estão sujeitas a outros fatores intervenientes” e “resultados encontrados revelam uma tendência de melhora de rendimento, porém para a generalização desses resultados seria necessária a realização de uma série histórica ampliada”.  São ponderações necessárias de se observar na interpretação das avaliações de uso de tecnologia, no sentido de evitar a mitificação da informática como salvadora da educação.


“Não defendo que não se adotem as TICs, mas não é a presença dessas ferramentas que produz os incrementos no desempenho de leitura e resolução de problemas. Se não houver um programa pedagógico ativo na escola, que favoreça a leitura, não são essas ferramentas que produzirão isso”, defende Alavarse. A perspectiva de que a tecnologia não é capaz de resolver os problemas da educação foi reforçada em junho por um relatório da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), que relaciona o uso de computadores com resultados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) em 70 países, realizado a cada três anos, desde 2000.


O estudo sugere que os estudantes estão desenvolvendo capacidades de leitura digital principalmente ao utilizar computadores em casa, de acordo com seus próprios interesses. A frequência do uso de PCs no lar, principalmente para lazer, tem uma associação positiva com as habilidades de leitura em ambiente digital, ao passo que a intensidade do contato com a informática na escola não produz o mesmo resultado. Para medir o impacto do computador na escola, o relatório admite a necessidade de estudos mais detalhados sobre as atividades realizadas.”Evidentemente que, em alguns contextos, o fato de você levar um computador para a sala de aula pode criar elementos que causem maior engajamento dos alunos e dos professores, produzindo resultados melhores na aprendizagem. Outra coisa é como isso vai ficar ao longo do tempo”, comenta Alavarse.

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