Muito além da visita monitorada: projetos de longo prazo permitem maior aproximação entre museus e escolas

Instituições investem em maneiras inovadoras de fortalecer parceria, dando espaço para novas experiências na disciplina de artes

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Muito além da visita monitorada: projetos de longo prazo permitem maior aproximação entre museus e escolas

Crédito: Shutterstock

Um grupo de crianças se senta no chão em frente a uma das obras e permanece por lá durante 20 minutos, discutindo com mediação do professor apenas aquela obra. Outro grupo segue em fila indiana atrás do docente e observa obra por obra, sem se deter demais em nenhuma específica. Além deles, alunos dispersos circulam livres pelo museu, caminhando sem nenhum direcionamento; apenas no fim do dia vão se reunir para conversar sobre a experiência. Assim é um dia típico de visitas de escolas ao Masp, museu que há dois anos aboliu as visitas monitoradas, numa tentativa de dar mais protagonismo a professores e estudantes. “Além das próprias obras, eles se olham, se observam, percebem que há diferentes formas de ocupar o espaço”, afirma Lucas Oliveira, do Masp.

A experiência considerada “radical” pelo próprio porta-voz do museu tem modificado a relação com as escolas, ampliando as formas de trocas. Isso sem que o número de visitas escolares tenha caído. “Até imaginamos que poderia cair, mas não foi o que aconteceu. Em 2016, com exposição sobre infância e parques de diversão, as visitas cresceram muito. Mas mesmo ano passado tivemos um patamar acima de 2015”, afirma Oliveira.

Foi pelo site do museu que Caroline Cassiana, coordenadora da Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Cacilda Becker, ficou sabendo que o Masp estava aberto a projetos de longo prazo. “Em 2016, a gente tinha uma turma do oitavo ano muito difícil, nas notas e no comportamento. Decidimos sair com eles da escola, tentar um projeto diferente”, conta. A professora de artes desenvolveu durante o ano letivo um trabalho de retratos e autorretratos. Os alunos visitaram várias vezes o museu, sempre indo de metrô, e aproveitaram o acervo como inspiração. No final, os estudantes expuseram suas obras em um centro cultural do bairro.

“Quando eles nos procuraram para usar o Masp como referência e depois ocupar um espaço no bairro deles, adoramos a ideia. Eles também iam produzir arte. Queremos uma relação de longo prazo e de outra natureza, que nossas exposições sejam um recurso para discutir o mundo e a atualidade”, afirma Oliveira. A parceria entre a escola e o museu deu tão certo que, no ano seguinte, se intensificou. Dessa vez, foram as turmas da educação de jovens e adultos (EJA) que tomaram o museu. “Teve uma noite que o Masp ficou aberto e nós levamos mais de 100 alunos para lá. Imagine como foi isso no metrô! Uma das alunas levou junto a patroa dela, que nunca tinha ido ao Masp”, recorda a coordenadora.

Tirar as coisas do lugar tradicional é o grande desafio para a disciplina de artes dentro dos currículos escolares, defende a professora Sandra Avellar, do ensino fundamental da Escola Santi, colégio particular de São Paulo. “Mesmo com obras consagradas, as boas exposições conseguem dialogar com o que está acontecendo no momento. Por isso a visita não é só um passeio e não pode se encerrar nela mesma”, afirma Sandra. Promover o pensamento crítico das crianças e adolescente não exige necessariamente uma preparação muito extensa. Uma boa pergunta norteadora antes da visita pode ser suficiente.

De forma geral, com ou sem polêmicas, a própria expressão artística dos pequenos costuma mudar depois de uma visita bem trabalhada a museus. “Dá para perceber que voltam mais inspirados”, diz Sandra. E as mudanças nos trabalhos dos alunos tendem ainda a ser duradouras, afirma Léo Rodrigues, professora no Santa Maria, colégio particular da capital paulista.

Mesmo as questões que podem parecer puramente técnicas da arte trazem junto uma outra forma de experimentar a vida. “Vejo que as crianças estão cada vez mais imediatistas. No 1º ano o que mais ouço é ‘terminei o meu trabalho rápido’. A arte vai tirando isso dos alunos, eles percebem que o bom trabalho é feito por etapas, aos poucos e com tranquilidade”, relata a professora do Santa Maria.

“A gente tenta trazer a família para esse projeto. Assim como vão a shoppings nos fins de semana, a ideia é que passem a visitar museus no tempo livre”, diz a professora. Para isso, famílias costumam receber uma agenda de exposições interessantes para irem durante as férias. “É um trabalho de formiguinha, mas fico feliz pelas sementes que vejo frutificando.”

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