Mudança indigesta

Sem consenso entre suas unidades, USP também decide mudar sua seleção; Unicamp prefere amadurecer o processo de consulta

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Prova da Unicamp, em São Paulo: análises das mudanças para o vestibular de 2011

As universidades federais que resolveram adotar o Enem e seus novos parâmetros nos respectivos processos seletivos não serão as únicas a promover mudanças. Duas das três universidades estaduais paulistas, a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Estadual Paulista (Unesp), também farão modificações na estrutura de seus vestibulares.
 
No caso da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o grupo de trabalho que estuda possíveis alterações decidiu que, caso elas venham a ser feitas, só ocorrerão no vestibular de 2011. A Unesp introduzirá a prova em duas fases, com valorização de questões interdisciplinares, divididas por áreas, e abolirá a prova de francês e de habilidades específicas para alguns cursos.

Na USP, porém, o processo de aprovação das mudanças foi mais conturbado, em função da velocidade com que estas tramitaram. Apresentada pelo Grupo de Trabalho do Vestibular da Pró-Reitoria de Graduação da universidade em fevereiro deste ano às suas 34 unidades, a proposta foi votada dois meses depois, em reunião do Conselho de Graduação realizada no dia 16 de abril. As principais mudanças introduzidas são a não computação do desempenho do candidato na 1ª fase em sua avaliação final; a redução para três dias de prova na segunda fase, divididos em língua portuguesa (10 questões) e redação (1ª dia), prova de 20 questões de química, biologia, física, matemática, geografia, história e inglês, sendo seis delas interdisciplinares (2º dia) e um terceiro dia, variável por área, com 12 questões de até três disciplinas.

As mudanças, que aguardam apenas o julgamento de um recurso do Instituto de Matemática e Estatística (IME) ao Conselho Universitário, são ligeiramente diferentes da proposta apresentada às unidades em fevereiro. Naquela versão, as questões do segundo dia eram 18, sem a presença de língua inglesa; no terceiro dia, cada curso indicaria duas, e não três disciplinas a seus candidatos.

Das 33 unidades, 23 votaram a favor, uma se absteve e 10 foram contrárias à proposta na reunião do Conselho de Graduação. A maioria dos que votaram contra são da área de ciências exatas (Institutos de Física e Matemática de São Paulo e São Carlos, Escola Politécnica, entre outros). A principal crítica diz respeito à velocidade das mudanças e à falta de circulação transparente de dados que estavam em posse do Grupo de Trabalho para análise pelas unidades.

"Claramente, a proposta não estava madura para ser votada", diz Marco Gubitoso, presidente da Comissão de Graduação do IME e representante da unidade no Conselho de Graduação. "A proposta da Pró-Reitoria deveria ser testada antes em cursinhos, em simulados", acrescenta.

Sua unidade alega um erro processual na aprovação, em razão de a proposta votada não ser a que estava na pauta, e, sim, outra apresentada na reunião. Mauro Bertotti, professor do Instituto de Química e coordenador do Grupo de Trabalho do Vestibular, diz que era a mesma proposta, apenas com mudanças sugeridas pelas unidades. Instada a avaliar o processo, a Consultoria Jurídica da USP legitimou a votação. Resta agora saber a decisão da instância máxima da universidade.

A questão de fundo, porém, permanece: por que trocar a busca do consenso pela rápida aprovação? Ninguém fala abertamente, mas o rumor é de que se trata de decisão de afogadilho derivada da proximidade do final da gestão. Paul Jean Jeszensky, presidente da Comissão de Graduação da Escola Politécnica, preferiria que o novo sistema fosse implantado em 2011. "Não somos contra. Somos contra a forma como foi implementado. Perdemos a votação, mas reconhecemos o resultado", diz ele, para quem é necessário que haja mudanças.

A dúvida das unidades contrárias é se as mudanças adotadas não vão levar a um afrouxamento do rigor acadêmico. Para Sérgio Oliva, professor de matemática aplicada do IME, o foco no ensino interdisciplinar pode arrefecer as exigências. "O que há de interdisciplinar hoje não avalia nada, são questões de interpretação de texto", critica.

Para o coordenador Bertotti, o que se tentou fazer foi dar mais ênfase à prova discursiva, valorizando mais a segunda fase do vestibular. Cita, como exemplo, o fato de a nota da primeira fase não ser mais levada para o resultado final. E admite um desvio de redação no texto inicial: "Algumas pessoas viram as mudanças como um processo de facilitação. O texto inicial dizia que uma primeira fase mais enxuta facilitaria para o aluno da escola pública. Mas isso nunca foi o objetivo do Grupo de Trabalho. Por isso mudamos o texto", defende-se.

Outra ponto questionado diz respeito ao tempo diminuto para a indicação das disciplinas que comporão o terceiro dia de cada curso. Na prática, sua escolha implica um reexame das carreiras, pois essas disciplinas são as mais importantes para cada curso, conforme a lógica do novo sistema.


Unicamp


Já a Comissão Permanente para os Vestibulares (Comvest), da Unicamp, optou por alongar o processo de consulta às unidades. Segundo Renato Pedrosa, coordenador executivo do órgão, as eventuais mudanças, se aprovadas, só serão efetuadas em 2011. "Não temos pressa", diz.
 
Duas grandes questões permeiam as discussões na universidade: a atua­lização acadêmica, que se traduziria por um modelo mais próximo do novo Enem, com a divisão por áreas, não mais por disciplinas; aprimoramento da consistência do processo seletivo no que tange a efetivamente escolher os candidatos de maior potencial acadêmico. Segundo o coordenador, uma coisa é certa: a Unicamp não deixará de exigir conteúdos de todas as disciplinas em suas duas fases, como já faz. 

Assim como o coordenador do GT da USP, Bertotti, Pedrosa também acha que o vestibular de sua instituição acaba por pautar os currículos de ensino médio. E crê que isso seja positivo. "Apesar de visarmos um equilíbrio entre as áreas maior do que o que se verifica hoje no sistema público, que tem mais carga horária na área de ciências humanas do que nas exatas, deveremos indicar a ampliação das áreas de português e matemática", revela.

A recomendação tem razão de ser, também constatada por Paul Jeszensky, da Poli/USP: a formação dos alunos muitas vezes traz "buracos" nessas áreas, consideradas de base para a vida acadêmica.

Pedrosa questiona as novas atribuições do Enem, de seleção dos candidatos para as universidades federais. Em princípio, trata-se de um exame de avaliação do aluno do ensino médio no momento de sua saída. Não é uma avaliação do ensino médio, nem um processo de seleção para a universidade. E que a sobreposição de funções pode ser complicada, pois há habilidades trabalhadas no ensino médio que são importantes para a vida pessoal e profissional, mas podem não sê-lo para a vida acadêmica. E vice-versa.

"No vestibular, procuramos medir o potencial dos alunos em relação às habilidades acadêmicas e ao raciocínio científico. Se sofisticarmos muito as questões, podemos eliminar alunos com potencial, porém ainda não preparados para certo tipo de raciocínio", diz.

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