Mudança de hábitos

Com a adoção de tecnologias educacionais, ambiente escolar fica mais interativo e professor se vê obrigado a modificar sua postura e seu planejamento de aulas

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Aula de informática deixou de ser o único investimento das escolas em tecnologia. Aliás, em muitas delas – do ensino fundamental ao superior -, nem há mais uma disciplina chamada Informática, com aulas sobre o uso de aplicativos de textos e tabelas ou buscas na internet. A lei agora é usar o computador – que até pode estar numa sala de informática – para a aprendizagem de conteúdos de todas as disciplinas, como Matemática, Língua Portuguesa, Geografia e até para as matérias mais específicas dos cursos superiores.

No Colégio Bandeirantes, de São Paulo, as aulas de informática foram abolidas em 1993. "Os alunos já vinham com uma certa cultura por terem computador em casa. Foi na mesma época que começaram a aparecer os primeiros softwares educacionais no mercado. Aí começamos a testá-los", comenta Mario Abbondati, professor e um dos coordenadores de tecnologia do colégio, que possui mais dois professores com esse título e que desde a década de 70 discute internamente o tema da tecnologia na educação.

A primeira medida foi implantar um laboratório de informática multidisciplinar – a escola conta hoje com 11. Em seguida, a direção investiu em equipamentos para as salas de aula. O principal foi o eBeam, tipo de lousa digital presente hoje em 40% das classes de ensino fundamental e médio. A previsão é de que, até o final de 2007, todas estejam equipadas. Este tipo de lousa é portátil: basta um quadro branco, um computador e um projetor multimídia. E as informações projetadas podem ser acessadas diretamente no quadro por meio de uma caneta digital, com a qual o professor também consegue sublinhar textos, acessar páginas na web e baixar apresentações previamente montadas. Todo conteúdo exposto em aula é salvo na rede interna da escola e fica disponível para os alunos acessarem também fora do horário de aula.

No total, 80% das salas do Bandeirantes têm um computador para o professor e toda a escola está equipada com rede wireless para acesso à internet. Os docentes também têm à disposição notebooks, tanto para usarem em sala com os alunos quanto para prepararem suas aulas em qualquer ambiente da escola, graças à rede sem fio.

Mais duas ferramentas tecnológicas estão disponíveis para os professores do Bandeirantes: o CPS e o TRS. O primeiro permite que os alunos, por meio de uma espécie de controle remoto, respondam a questões de múltipla escolha durante a aula. Os resultados servem para avaliar o nível de aprendizado sobre determinado assunto. Usado nos laboratórios de informática, o TRS reproduz a aula na tela do computador do aluno, que fica bloqueado para acesso a outras páginas. O sistema é muito usado para aplicar provas, sem risco de cola.


Planejamento diferente

Com a adoção de tecnologias como o eBeam, o CPS e o TRS, as aulas no Colégio Bandeirantes passaram por mudanças significativas, não de conteúdo, mas de forma. Foram incorporados simulações, vídeos e exercícios que evocam mais interação entre alunos e professor. Auxiliado por uma equipe de técnicos, o professor de geografia pode montar uma animação do movimento das placas tectônicas, por exemplo.

O planejamento mudou e o professor precisou se adaptar. Para isso, a escola criou, em 2002, um curso de capacitação, o Edutec no Band, que tem duração de dois anos, com 96 horas-aula. "O curso é interessante para eles terem uma noção real sobre o tempo de desenvolvimento de aulas multimídia", explica Cristiana Assumpção, professora responsável pela criação do curso e também coordenadora de tecnologia do colégio.


Chao Lung Wen: tecnologia ajuda na humanização médica e dá aboradagem global às informações

No Centro Federal de Educação Tecnológica de Pernambuco (Cefet-PE) há um laboratório exclusivo de preparação de aula. Ali, os professores contam com o apoio de uma equipe de técnicos para elaborar apresentações e provas aplicadas no Lan Class, sistema adotado atualmente pelo centro em três salas, conhecidas como salas de aula do futuro. Nesses laboratórios, que começaram a funcionar de forma experimental em 2004, computadores sem disco rígido estão interligados com o do professor. Assim, ele tem total domínio sobre as tarefas desempenhadas pelos alunos. Enquanto um grupo faz uma pesquisa na web, outro pode criar textos e outra equipe responde a exercícios sugeridos. "Não tem sentido o professor usar a sala sem ter feito o planejamento da aula", afirma o diretor-geral da instituição, Sérgio Gaudêncio. Lá também já houve a organização de dois cursos de capacitação para os professores feitos pelos técnicos da empresa fornecedora da solução. O próximo curso será ministrado pelos próprios professores que já foram capacitados anteriormente.

Para o professor que atua em instituições que investiram em tecnologia, o trabalho de planejamento de aulas pode ser dividido em antes e depois da informática. "Produzir uma aula pode demorar até quatro vezes mais do que pelo método antigo", afirma Severino Carlos de Oliveira Filho, professor de estatística, matemática, e modelagem e simulação empresarial da Faculdade Trevisan. A escola, fundada em 1999, hoje possui lousa digital, o Smart Board, em todas as 18 salas de graduação e pós-graduação. "Às vezes, preparar uma aula pode levar um dia inteiro", afirma o professor, referindo-se ao universo vastíssimo de possibilidades aberto com a internet, por exemplo, rica em simulações, animações e vídeos ou softwares educacionais. Em contrapartida, as aulas ganharam muito mais dinamismo. "Para 2007, a Trevisan planeja instalar microfones nas lousas para oferecer posteriormente aulas on-line com áudio", conta Claudemir Santos, diretor de TI e professor de tecnologia da instituição.

Para se aprofundar no uso de informática na sala de aula, o professor Severino Carlos de Oliveira Filho iniciou mestrado no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em ciências contábeis. "Além da linguagem da disciplina, ainda temos que trabalhar a linguagem da tecnologia do software usado na aula", explica. Por meio do Smart Board, Oliveira projeta suas aulas na lousa e replica também para os computadores dos alunos em sala, ou então para os notebooks dos alunos – o equipamento é quase obrigatório e sua aquisição recomendada pela instituição. Mas ele alerta: "Não basta fazer apresentação em Power Point", similar às feitas nos – hoje arcaicos – slides ou transparências. "Dessa forma o aluno continua passivo como antes." Oliveira se refere à nova postura do professor na sala de aula do futuro, que deixou de ser o centro do conhecimento ou o único que vai fornecer conteúdo. Agora, o professor precisa adotar um posicionamento mais colaborativo. Com o auxílio do computador – entenda-se aqui softwares e hardwares -, ele desempenha uma tarefa mais interativa com o aluno.

Na Trevisan, o novo conceito interferiu até na arquitetura das salas, que deixou de lado as tradicionais carteiras e montou células de 12 mesas com computadores, dispostas de forma que os alunos ficam sempre de frente um para o outro. Também podem estar dispostas em formato de U. "A lousa não é mais o ponto de referência, e o professor fica mais perto dos alunos, circulando pelas células durante uma aula", conta Oliveira.


Início da mudança


Claudemir Santos: microfones nas lousas para oferecer posteriormente aulas on-line com áudio

É numa sala com disposição semelhante de computadores que acontecem as aulas de capacitação para os professores envolvidos com os projetos da Escola do Futuro, núcleo de pesquisa da Universidade de São Paulo que discute novas propostas de uso da informática na educação. Ali, são atendidos, em sua grande maioria, docentes da rede pública. São projetos de simples configuração, que exigem pouco ou nenhum uso de computadores e que mais estimulam a interação, o trabalho em grupo e o contato entre docente e aluno. "O professor deixa de ser apenas aquele que entra na sala, dá aula e vai embora. Passa a ser um acompanhante de um processo que se centraliza no aluno", afirma a professora Marcela Fejes. Ela coordena dois dos nove projetos em andamento na Escola: o Lect – Laboratório de Ensino de Ciências e Tecnologia, e o Labvirt – Laboratório Didático Virtual. Ambos atuam na área de ciências, mas, segundo Marcela, estimulam habilidades de outras disciplinas. Os projetos são vendidos para governos municipais e estaduais, e também para escolas particulares.

O Lect estimula os alunos de 7 a 17 anos a atuarem como pequenos pesquisadores com atividades que contextualizam temas da botânica, zoologia, termodinâmica e termologia, gestão ambiental, entre outros. A observação dos pássaros do entorno da escola é um projeto do Lect. Feita a pesquisa de campo, seguindo métodos científicos e apoiando-se também em buscas na web, os alunos são estimulados a publicar os resultados da experiência no site do projeto. Lá, eles podem cruzar os resultados com os de outras escolas e interagir com alunos de outras localidades por meio de fóruns e chats. Tudo isso com o apoio do professor. "Estas atividades geram maior interesse pela ciência e por estudar", afirma Marcela. Cerca de 13 mil alunos já participaram do Lect, no Brasil, na Argentina e até em Aruba.

Já o Labvirt estimula a produção de roteiro de simulações com situações do cotidiano que exemplifiquem os fenômenos da física e da química. Direcionado aos jovens do ensino médio, o projeto estimula, sobretudo, o trabalho em conjunto e a criatividade. O roteiro é transformado em animação com o apoio de grupo de designers da Escola do Futuro. Todas as simulações são publicadas no site do projeto e ficam à disposição de outras escolas. O acesso é livre.

A professora de física Solange Andrade trabalhou o Labvirt com os alunos da Escola Estadual Professor Doutor Laerte Ramos de Carvalho, localizada em Cidade Dutra, na zona sul de São Paulo. "Mudou a imagem da matéria junto aos alunos. Ela deixou de ser penosa", conta. Para Solange, as aulas para produção da simulação no Labvirt, realizadas na sala de informática da escola, que possui apenas dez computadores, foram fundamentais para despertar mais interesse já que "no livro didático, o assunto é muito compactado: O jovem precisa de motivação para ir para a escola", diz.

Segundo dados da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, 77 tipos de softwares pedagógicos são utilizados na rede estadual atualmente. Entre eles estão o Trilha de Letras e o Números em Ação, que apóiam alunos das 5ª e 6ª séries do ensino fundamental com dificuldades de aprendizagem em leitura e escrita e raciocínio lógico, respectivamente.


Política de incentivo


Cláudio Haddad: não podemos confundir método pedagógico com tecnologia

Em nenhuma das escolas ouvidas pela reportagem, as diretorias obrigaram todo o corpo docente a adotar as tecnologias compradas pela instituição. Há entusiastas mas também os céticos. O que prevalece é uma política de incentivo ao uso das novidades, porque a mudança na cena escolar é inexorável. "O professor não será substituído pelo computador, mas por outro professor envolvido com tecnologia", analisa Severino Oliveira, da Trevisan.

No Colégio Bandeirantes, quem arregaçou as mangas e colocou em prática as ferramentas tecnológicas foi recompensado: "Temos uma avaliação dos professores feita pelos alunos ao final do ano. Aqueles que usam tecnologia começaram a receber uma avaliação melhor", conta a coordenadora de tecnologia Cristiana Assumpção.

Os profissionais do Hospital das Clínicas, por exemplo, são periodicamente convidados pela direção da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), que administra o complexo, para conhecer as possibilidades de aplicação das teleaulas, que permitem a transmissão de vídeo on-line no centro cirúrgico, acesso ao material didático e chat com o professor, tudo ao mesmo tempo. Em qualquer ponto do Complexo HC, o principal hospital universitário do país, um procedimento pode ser transmitido por meio da rede de fibra ótica para alunos da própria FMUSP ou de universidades conveniadas, até em outros estados. O recurso também pode transmitir reuniões clínicas das quais participam estudantes de pós-graduação ou de especializações. Tudo o que foi transmitido fica acessível pela internet. "Essa tecnologia ajuda na humanização médica e dá abordagem global às informações", explica o professor e coordenador-geral de telemedicina da Faculdade de Medicina da USP, Chao Lung Wen.

Os alunos da FMUSP também podem aprimorar os aprendizados por meio do Homem Virtual, que reúne milhares de animações digitais do funcionamento do corpo humano. "Há simulações aqui que eu, quando era estudante, só com o apoio dos livros e a explicação do professor, levava duas semanas para entender", conta Wen.

Mesmo com lousas digitais, provas eletrônicas e aulas transmitidas por fibra ótica, algumas técnicas tradicionais de ensino devem demorar para desaparecer. No Ibmec São Paulo, instituição que investe anualmente R$ 1,5 milhão na compra e troca de novos equipamentos e onde o notebook é sinônimo de caderno entre os alunos, o quadro-negro e o giz permaneceram. As salas possuem lousas largas, dispostas lado a lado e que expõem uma aula inteira, "como nas tradicionais escolas americanas", defende Cláudio Haddad, diretor-presidente da instituição. A faculdade dispensou o uso de quadros digitais por acreditar que as lousas comuns são mais eficientes para aplicação do método participativo. "Não podemos confundir método pedagógico com tecnologia", critica o professor.


A NOVA SALA DE AULA

Conheça alguns dos recursos tecnológicos aplicados em escolas brasileiras – do ensino fundamental ao superior


– Rede interna

– Facilita o acesso dos alunos aos conteúdos mostrados em sala pelos professores. As aulas podem ser acessadas a qualquer momento pelo aluno via computadores da escola ou pela internet. Alguns professores preferem que as tarefas de casa sejam "entregues" na rede.


– Softwares educacionais

– Há uma infinidade de programas. Os direcionados para o aluno contêm jogos, exercícios e animações e usam como base o conteúdo de disciplinas tradicionais. Os voltados para professores dão dicas de planejamento de aula e execução de trabalhos em grupo. Muitos podem ser baixados da internet gratuitamente, como o Iluminatus, software de programação de aulas.


– Lousa digital

– Substitui o quadro-negro. O giz dá lugar à caneta eletrônica. Com ela, o professor pode acessar arquivos da tela projetada, assim como sublinhar virtualmente suas apresentações e buscar páginas na internet, tudo para complementar a aula no ato, com informações extras. Esse conjunto de hardwares pode custar de R$ 1 mil a R$ 4 mil.


– Fóruns de discussão e chats

– Incluídos no site da escola, os fóruns podem ser transformados em tira-dúvidas. O aluno deixa uma questão que será resolvida por professor de plantão.


– Teleaulas

– Misturam vídeo, chat com professor e exposição de material didático, tudo ao mesmo tempo, transmitidos via rede interna ou internet. São alternativas também para aulas a distância. Muito usadas no curso de Medicina da USP para transmissão de procedimentos médicos e discussão cirúrgica com outras universidades do país.


– Laboratório de informática multidisciplinar

– Sala com computadores em rede e que também podem estar interligados com a máquina do professor. Usado para aplicação de provas eletrônicas, trabalhos em grupo ou buscas na internet com orientação. Em algumas instituições, como o Cefet-PE, o professor tem o controle sobre os programas e páginas acessadas pelos alunos.


– Sistema interativo de respostas

– Tecnologia portátil por meio da qual o professor consegue medir o grau de entendimento da sala sobre determinado assunto, de forma imediata. Os alunos respondem a questões de múltipla escolha usando uma espécie de controle remoto. O sistema contabiliza as respostas e libera as estatísticas. Geralmente usada no final do semestre para revisão de matérias.


– Sistema de provas eletrônicas

– Recurso distribui provas diferentes para cada computador, sendo muito difícil um aluno colar do outro. Se forem de múltipla escolha, os resultados saem de forma automática.

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