Mudança de hábito

Redes municipais começam a “acordar” para a importância das bibliotecas escolares e a promover ações sistêmicas

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Em 2001, durante seu mestrado em letras, Rovílson José da Silva, então professor de língua e literatura da rede pública de Londrina/PR, começou a pesquisar como se dava a leitura literária nas primeiras séries do ensino fundamental. Notou que havia dessintonia entre o discurso que exaltava a leitura, e as práticas, mal estruturadas. E, mais do que isso, que não havia bibliotecas nas escolas. "Havia praticamente só salas de leitura, que têm caráter sazonal e podem ser desfeitas a qualquer momento", relembra.

A partir do ano seguinte, passou a coordenar o Projeto Bibliotecas Escolares: Palavras Andantes (título de uma obra de Eduardo Galeano sobre o cordel), encampado pela rede municipal. A proposta se assentava em cinco eixos: formação de professores; implantação de uma biblioteca em cada unidade escolar; ampliação do acervo; estímulo ao empréstimo de livros; realização da Hora do Conto Semanal.

Seis anos depois, 80 escolas da rede (90%) contam com bibliotecas e em torno de 140 professores receberam formação. Entre 2002 e 2006, o número de empréstimos feitos aos alunos cresceu nove vezes, passando de 72 mil a 640 mil, resultado de uma política que busca fazer com que o estudante tenha o maior contato possível com os livros.

Segundo Rovílson, apesar de os livros distribuídos pelo PNBE serem de boa qualidade, a questão das bibliotecas tem sido "empurrada com a barriga há mais de uma década". "É preciso que os municípios tenham isso em conta, que provejam as escolas."

Em sua experiência, viu que há um vácuo enorme entre discurso e práticas escolares, pois, se todos falam que ler é bom e importante, sinalizam outra coisa ao deixar que as bibliotecas, quando existem, sejam mal iluminadas e mal arejadas, além de não funcionarem em muitos horários. "Se ler pode ser um bom lazer, por que ficam fechadas em muitos horários, até mesmo no recreio?", questiona.


Rede interativa


Em São Bernardo do Campo/SP, um projeto que a princípio deveria contemplar cinco bibliotecas escolares acabou por se transformar numa rede com 73 bibliotecas, com projeção para se estender às 158 unidades de ensino fundamental, infantil e especial da secretaria municipal. A empreitada começou com um convênio com a USP para a constituição da Rede Escolar de Bibliotecas Interativas (Rebi). Com o processo de municipalização, a rede cresceu e as novas unidades passaram a solicitar as bibliotecas.


Alunos da Escola Municipal de Educação Básica Anísio Teixeira, em São Bernardo do Campo: ensino para a busca da informação

As unidades são modulares, adaptáveis ao espaço da escola, mas com um mesmo padrão. Têm, em média, 100 m2, área de leitura, espaço cênico (arquibancada com palco, espaço audiovisual (com aparelhos e periódicos), três computadores (um para o responsável, um para as crianças, um para a comunidade) e um acervo inicial de 3 mil títulos. O mobiliário, desenvolvido pela Faculdade de Arquitetura da USP, é colorido e feito sob medida para o tamanho dos alunos, variando de acordo com os usuários. A verba para construção e equipamentos é de R$ 150 mil, administrada pelas Associações de Pais e Mestres de cada escola.
 
A Rebi já nasceu com a proposta de não ter bibliotecários de ofício à frente das unidades. A secretaria optou por criar o cargo de professor de apoio à biblioteca escolar (Pabe) para as unidades. Esses professores têm, além da formação inicial, uma manhã por semana de formação contínua, além de apoio da equipe responsável (quatro bibliotecárias, uma orientadora pedagógica e 12 professores de referência).

Segundo Dalva Francheschetti, chefe da Seção de Bibliotecas Escolares da Secretaria de Educação, os professores de apoio trabalham a partir de quatro eixos: infoeducação (em que ensinam aos alunos os princípios dos principais códigos de biblioteconomia), cultura, leitura e memória. "Não queremos dizer que temos todo o saber, queremos ensinar a criança a usá-lo. Então, compomos um acervo básico e mostramos como procurar em outras fontes", explica Dalva, para quem a associação entre planejamento e projeto pedagógico é fundamental para mostrar como as informações estão organizadas.


Os protagonistas


Os professores de apoio são selecionados entre os docentes da rede interessados. Roberta Massaini, Pabe da EMEB Profa. Jandira Maria Casonato há dois anos, trabalhava como professora de educação especial em três escolas e candidatou-se para "respirar, fazer outra coisa". "O trabalho no Rebi mudou tudo. Ainda sou professora, mas agora tenho de lidar com outros docentes e seus alunos. O bom é que conheço todos os estudantes da escola. Antes, olhava apenas para os meus", diz.

Cláudia Strini, que atua como "Pabe Referência", também buscou o cargo para se reciclar. Depois de 17 anos como professora de educação infantil, achou que era hora de passar sua experiência para colegas mais jovens e aproveitar o conhecimento acumulado em sala e em seus anos de formação. Visita as bibliotecas a cada 15 dias para reuniões de acompanhamento e planejamento. "O que funciona bem é reunir os Pabes para trocar experiências. Eles começam a ver tudo que é possível fazer", conta.


Ônibus-biblioteca


Fora da escola, também há relatos de sucesso na conquista de novos leitores. É o caso do projeto "Leitura em Movimento", da Secretaria de Cultura de Campinas/SP, que busca levar opções a espaços da periferia em que não há escolas. Desde 2003, dois ônibus-biblioteca visitam 40 bairros. O público, em sua maioria, é composto por adultos e crianças. Os adolescentes são poucos, a não ser quando há o chamariz do hip-hop. Também entre os adultos é preciso começar com o universo próximo para depois passar à literatura.

"Eles começam de um lugar do ônibus, onde estão as coisas de culinária, de bordados, e depois vão avançando", conta Gláucia Mollo, ex-coordenadora de bibliotecas públicas e responsável pelo projeto. Ela ressalta a importância do empréstimo. "Nos bairros tidos como piores segundo o conceito geral, estão as pessoas que mais devolvem os livros. O interessante é que são os filhos que os retiram pelos pais", relata.


Para Saber Mais


Plano Nacional do Livro e Leitura:
www.pnll.gov.br

MUDANÇA DE HÁBITO

Número de leitores que utilizam suporte tradicional está em declínio no mundo; para especialistas, novas formas interagem com aquela já consagrada

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Regina Zilberman, da UFRGS: "A escola anda de patinete e a sociedade, de avião"

A escola sempre se refere ao livro como algo positivo na educação de seus alunos. Não poderia ser diferente, afinal as instituições de ensino se sustentam em textos impressos para educá-los. Seus professores foram formados nessa cultura e nada mais natural do que passar essa maneira de aprender para as novas gerações.

Entretanto, uma ampla pesquisa da NEA (National Endowment for the Arts), uma agência do governo norte-americano para o acompanhamento do desenvolvimento das artes no país, apontou tendências nada reconfortantes para os defensores do livro como principal instrumento de formação escolar. Entre 1984 e 2004, o número de adolescentes de 13 anos que nunca leram um livro aumentou de 8% para 13%, enquanto o dos que lêem diariamente baixou de 35% para 30%. Pode não parecer catastrófico, mas o problema aumenta consideravelmente conforme a faixa etária: entre os jovens de 19 anos, ou seja, entre aqueles que estão deixando a escola, esses números passaram de 9% para 19% entre os que nunca leram e de 31% para 22% entre os que se dedicam todos os dias aos livros.

Os dados são mais reveladores quando notamos que nesses 20 anos o número de crianças que lêem diariamente por prazer permaneceu praticamente inalterado (de 53% para 54%), mas esse hábito cai vertiginosamente com o avançar dos anos: entre os adolescentes de 17 anos a porcentagem era de 31%, em 1984, de 25%, em 1999, e chegou a 22% em 2004. Ou seja, se o objetivo da escola nos Estados Unidos é formar leitores, ela fracassa.

Outros números importantes da pesquisa (disponível em
www.nea.gov/research/toread.pdf

) mostram a diminuição do capital empregado pelas famílias anualmente na compra de livros e as conseqüências dessa diminuição da dedicação aos textos: notas escolares proporcionais ao número de livros que as pessoas têm em casa, maiores dificuldades para conseguir empregos e remunerações consideravelmente inferiores entre os leitores que raramente freqüentam as páginas dos livros.

O cenário desanimador nos Estados Unidos não é muito diferente daquele encontrado em outros países ricos. Contudo, pelo menos nos dados de mercado editorial, a América Latina mostra resultados distintos. Em uma avaliação do Centro Regional para el Fomento del Libro en América Latina, el Caribe, España y Portugal (Cerlalc), editores de vários países da região apontaram melhora do cenário no último ano, principalmente em vendas no varejo, ou seja, nas livrarias, o que significa diminuição da dependência do governo, que normalmente é o principal comprador de livros para repassá-los ao ensino público. Além disso, a expectativa do setor para o futuro próximo é otimista.

Seria precipitado diagnosticar os resultados alvissareiros da América Latina como um maior equilíbrio no consumo de literatura no mundo, uma vez que a estabilidade econômica da maior parte desses países foi responsável pelo aumento de bens de consumo, inclusive culturais. A tendência global é outra, e está direcionada para a diminuição do impresso. "De acordo com vários estudos que conheço, é geral na maior parte dos países do mundo – isso em decorrência da forte penetração da escrita virtual, dinamizada pela internet, que vem velozmente mudando os hábitos de leitura das populações", argumenta Ezequiel Theodoro da Silva, professor da Faculdade de Educação da Unicamp e presidente de honra da ALB (Associação de Leitura do Brasil).

A mudança de suporte da leitura, ou seja, a migração de leitores de impressos para sistemas audiovisuais e digitais trará conseqüências para a forma de pensar das novas gerações, o que não significa um futuro sombrio. "Uma concepção de leitura e de leitor deve contemplar, hoje, todos os meios e linguagens, fazendo com que uma linguagem seja suporte para o entendimento das demais. A escrita permitindo entender melhor a imagem e, vice-versa, a imagem facilitando a compreensão crítica da escrita", reflete Silva.

"São linguagens distintas e uma não pode se sobrepor à outra", considera Adilson Citelli, professor da Escola de Comunicações e Artes da USP e pesquisador de comunicação e educação. Ele concorda com a afirmação de Silva e diz que "precisamos ampliar o nosso conceito de leitura".

Regina Zilberman, professora de literatura na UFRGS e autora de diversos livros sobre a leitura no Brasil, acredita que o padrão de leitura individual e silenciosa deve se modificar, mas não enxerga problemas nisso. Ela lembra que há alguns séculos a leitura era feita em voz alta para o público. "As coisas vão se acomodando e o público se adapta."


Escola perdida

Se a sociedade vai modificar suas formas de ler e de lidar com textos, o mesmo não se pode dizer da sala de aula. "A escola anda de patinete e a sociedade, de avião", brinca Regina. Ela desconfia que o ambiente escolar corre o risco de se tornar dispensável caso não se prepare para abarcar outras formas de leitura amplamente disseminadas pela mídia e cada vez mais acessíveis a todos os grupos da população.

Para Citelli, a escola precisa se ressignificar. O professor argumenta que hoje ela é uma instituição entre tantas outras e que precisa descobrir como vai se especializar no trato do conhecimento. O grande objetivo da escola, segundo ele, deve ser alfabetizar para a palavra.

Na opinião de Theodoro da Silva, o professor na escola deve "usar  bom senso e criatividade na preparação de suas aulas, entrelaçando as diferentes mídias no seu planejamento de ensino e nas suas metodologias". Ele faz questão de lembrar que as mídias digitais também se sustentam na "escrita".

De qualquer modo, são poucas as instituições de ensino e os professores preparados para trabalhar com outras linguagens e, quando se sentem ameaçados por suportes que não dominam, tendem a refutá-los. "Eu não vejo as linguagens como coisas estanques, mas co-ocorrendo dinamicamente numa sociedade. Por isso mesmo, nenhum meio deve ser demonizado mesmo porque são conquistas culturais que servem para o enriquecimento da comunicação humana", pondera Theodoro da Silva.


Para que serve a literatura?


Um grande jornal lançou este ano uma coleção de títulos de literatura brasileira e a anunciou como a oportunidade de "colecionar conhecimento". Nada mais evidente do que, em uma sociedade que valoriza amplamente o caráter utilitário de tudo, tentar estabelecer para obras em que é impossível quantificar um uso a possibilidade de acumular um "bem": o conhecimento. Como estratégia de marketing, pode valer, mas se pararmos para pensar um pouco nos colocaremos a questão: para que serve a literatura em um mundo no qual tudo precisa ter uma aplicação? Para o prazer? Distração? Outros meios conseguem suprir essa necessidade humana de forma muito mais imediata.

"Ainda que os veículos digitais e eletrônicos venham galopantemente ganhando mais espaço no gosto ou preferência de grande parte da população, percebo uma convivência equilibrada desses veículos com o livro e demais veículos impressos", observa Theodoro da Silva. "Isso porque o livro, em sua forma tradicional, é um fortíssimo instrumento cultural, enraizado na consciência dos povos da forma como ele sempre se apresentou e vem sendo lido." Ele considera ainda que "o livro impõe um modo de percepção, intelecção e fruição que é muito diferente de outras mídias existentes".

Citelli indica que estamos desconsiderando uma dimensão programática no sentido de uma dimensão pragmática, ou seja, de buscar razões práticas para tudo. Para ele, a literatura não é para resolver problemas imediatos, é um compromisso maior com o ser humano. "A temporalidade da literatura é outra."


Fim do livro?


Recentemente, a grande loja de comércio eletrônico Amazon lançou um aparelho que permite armazenar cerca de 100 mil livros em formato digital, além de jornais, blogs e outros arquivos de texto. Perguntado se a Apple, depois de renascer investindo em música e vídeos, entraria também no mercado de suporte para textos, seu presidente pop star, Steve Jobs, disse que não, pois as pessoas não lêem mais livros. A afirmação ganhou manchetes de jornais, e o livro, mais uma vez, foi decretado morto.

Bem mais comedida, a revista norte-americana The New Yorker publicou uma matéria sobre as conseqüências para a população dos Estados Unidos que, paulatinamente, se dedica mais aos audiovisuais e à internet do que a livros, revistas e jornais. A reportagem cita uma série de estudos que apontam características de grupos pouco afeitos ao texto escrito, como necessidade de informações gráficas e de metáforas para compensar a falta de um vocabulário passivo mais amplo. O autor do texto não acredita na extinção da leitura e da escrita, mas considera sua diminuição e que a leitura por prazer ficará restrita a grupos de interessados.

Para o professor da Unicamp Ezequiel Theodoro da Silva, o livro tem qualidades que não são facilmente dispensáveis, a começar pelo seu formato. "O veículo ou objeto cultural ‘livro’ possui uma portabilidade insubstituível e, além disso, tem uma função importante junto a segmentos que ainda necessitam da folha impressa para as práticas de leitura", diz. "O livro não precisa ser ligado numa tomada para ser lido."

Mesmo que o impresso perca espaço para meios digitais, isso também não significa o fim da literatura. A professora da
UFRGS Regina Zilberman salienta o crescimento de outros veículos de divulgação de textos na própria internet por onde a produção literária pode se disseminar.

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