Movimento maker: alunos se tornam produtores de conhecimentos e objetos

Muito mais do que instalar um laboratório sofisticado, aderir ao movimento que virou tendência exige organização de cenários de aprendizagem que permitam participação e autoria por parte dos estudantes

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Crédito: Shutterstock

Tendência crescente em todo o mundo, o movimento maker já está mudando a realidade de algumas escolas brasileiras, e tem o potencial de mudar muitas mais. O barateamento de tecnologias como impressoras 3D e cortadoras a laser permite que dentro de laboratórios pequenos sejam fabricados objetos que, até há pouco tempo, só podiam ser produzidos em linhas de montagem industriais.

Luciano Meira, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e sócio-fundador da Joy Street, afirma que o movimento maker na educação vai muito além da aplicação de tecnologias para fabricar novos produtos imaginados pelos estudantes. Para ele, se trata de mudar a própria concepção de escola. “O conceito é o de superar o modelo de escola dogmática, que transmite conhecimentos — mas o caminho ainda é longo”, afirma. Uma escola verdadeiramente maker faz com que as crianças e jovens identifiquem problemas relevantes e busquem soluções de forma colaborativa.

Portanto, transformar o modelo de escola vai bem além de instalar um laboratório sofisticado. Assim, uma escola que deseja aderir de forma plena ao movimento maker deve organizar cenários de aprendizagem que permitam participação e autoria por parte dos alunos. “Se não estiver a serviço de uma cultura de autoria, de resolução de problemas e desenvolvimento de projetos, o laboratório não faz a diferença. Não adianta mandar os alunos uma vez por semana para fazer “chaveiros”, sem relação com o restante do que acontece na escola”, explica o professor.

Quando o trabalho é bem feito, os alunos desenvolvem criatividade, pensamento crítico, práticas argumentativas, capacidade de trabalhar em equipe, entre outras competências essenciais para a cidadania do século 21, garante o estudioso. Para dar certo, o investimento principal deve ser nas pessoas que vão orientar o uso da tecnologia, recomenda o professor.

Para escolas com poucos recursos, uma ideia é procurar envolver os professores da disciplina de artes. Em geral, eles estão acostumados a desenvolver produções com sentido para os alunos, a partir de materiais muito simples. “O objetivo das produções de artes costuma ser o estético, mas é possível adotar essa lógica para temas transversais, objetivos de outras disciplinas”, garante o palestrante.

“A cultura maker tem como princípio o aprender a partir de sua própria experiência prática. Você aprende pesquisando, levantando hipóteses, testando, compartilhando as descobertas e informações”, explica Ivan Ipólyto, gerente de novos negócios da empresa Viamaker. Assim, passo a passo, os estudantes vão ganhando resiliência frente às dificuldades e cultivando laços entre eles.

Outra transformação que decorre das práticas da cultura maker é o maior engajamento dos alunos. “Através da conexão emocional e afetiva da construção de sua própria ideia, a criança se envolve com os conhecimentos, comportamentos e hábitos envolvidos no processo”, diz Diego Thuler, da Little Maker. Por isso, um dos pilares da metodologia da empresa é permitir que os estudantes escolham com o que trabalhar. “A livre escolha do projeto traz engajamento, sentido e propósito para a criança ou jovem”, explica.

“Para conseguir de fato mudar a cultura de trabalho dentro de toda a instituição, não basta vontade: é necessário planejamento e preparação, processo que cabe ao gestor encabeçar. Assim, o primeiro passo, antes de qualquer mudança, se anunciada, é preparar a equipe”, recomenda Luis Laurelli, diretor de Relações Institucionais da Mind Lab, empresa que oferece metodologias para ampliar os potenciais de aprendizagem por meio da integração de jogos de raciocínio à grade de aula.

“Não só os professores, todos precisam de formação e envolvimento. Se a gestão não ouve os professores, ou não os prepara para trabalhar com algo novo, não vai virar uma prática”, afirma. Nesse caso, as famílias em pouco tempo percebem a desconexão entre o discurso e a prática. Contudo, quando todos os que trabalham na escola estão alinhados, os alunos logo sentem a diferença e se engajam no processo — levando as famílias a compreender na prática a proposta pedagógica. “Dessa forma, o projeto se torna um movimento verdadeiro, não uma ação isolada”, diz Laurelli.

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