Montessori rima com Haiti

Projeto é desenvolvido com êxito em país pobre

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Alceu Luís Castilho

Agência Repórter Social



No país mais pobre da América Latina, um projeto baseado no método Montessori ganhou reconhecimento do Banco Mundial e da Organização das Nações Unidas (ONU). Idealizado pelo empresário alemão Peter Hesse, o Centro Montessori do Haiti completa 20 anos em 2006. Voltado à pré-escola, para crianças de 2 a 6 anos, visa a estimular desde cedo a capacidade de desenvolvimento e mostrar às comunidades a importância do investimento em educação.



Desde 1986, são quase 50 centros de educação montessoriana. “A doutora [
Maria

] Montessori, há 100 anos, já tinha a idéia de que as crianças pobres também podem aprender”, explica Hesse. “E ela desenvolveu um método didático especialmente para as menos favorecidas pela sorte.” A partir de uma experiência com crianças italianas, Hesse pensou que poderia fazer o mesmo no Haiti. “O resultado nos surpreendeu”, afirma.



O interesse de Hesse pelo Caribe vinha da música. Em uma das viagens, em 1980, decidiu fazer um projeto-piloto, com apoio do Banco Mundial. “Veio o segundo teste, e continuou dando certo.” O Centro Montessoriano do Haiti viria a ser criado em 1986, após experiências da Fundação Peter Hesse com microcrédito, especialmente na área rural. Hesse diz que passou a achar que o problema-chave não era educar os adultos, mas os jovens. “Aprendi no país que é a forma mais verdadeira de ajudar as pessoas.”



No início da década de 80, ele encontrou uma professora montessoriana em Trinidad e Tobago que lhe perguntou: por que não aplicar Montessori no Haiti? “As pessoas na cidade ficaram entusiasmadas com a idéia”, diz. “Agora, somos considerados um projeto-modelo, pela própria literatura do Banco Mundial, em virtude do sucesso em implementar educação de qualidade para crianças carentes entre 3 e 6 anos.”



Fácil, não é. O Haiti ocupa, entre 177 países e territórios, a posição nº 153 no ranking de 2005 do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU (o Brasil está em 63º). A expectativa de vida é de 49 anos. Instável politicamente e em decadência econômica “rápida”, conforme o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), tem 53% de analfabetismo entre adultos e 65% da população abaixo da linha de pobreza. Médicos? Oito a cada 100 mil habitantes. Acesso a água potável? 46%. Desnutrição? 56%.



“A fundação não é rica o suficiente para prover comida para as escolas”, afirma Hesse, empresário por tradição familiar. O Centro Montessori trabalha com parceiros para oferecer mínima nutrição às crianças. “Não podemos resolver a situação, mas estamos desenvolvendo a própria capacidade deles de obter dinheiro.”



A cultura haitiana leva a particularidades na aplicação do método Montessori. A começar pela formação dos professores, com duração de nove meses. Como o país tem forte tradição na comunicação oral, eles enfrentam dificuldades na assimilação do material didático – item fundamental na metodologia desenvolvida pela médica italiana. Mais de 70% do curso para professores é dado em
criollo

e adaptado às necessidades dos estudantes.



Após estágio de seis semanas numa escola, os jovens professores desenvolvem o próprio material didático. A partir daí, eles são requisitados a servir por três anos em uma comunidade pobre. Ganham estímulo, inclusive econômico, para criar a própria pré-escola – desde que a comunidade se comprometa a oferecer apoio para que o projeto se torne sustentável em um ano.



“O método Montessori dá às crianças auto-confiança”, avalia Hesse. “E boas atitudes. Elas aprendem, por exemplo, que é divertido ajudar as crianças mais fracas, mais jovens; aprendem a ter responsabilidade social.” Fundamental, explica, é o desenvolvimento da própria capacidade de aprender. “E dar a eles a confiança de que podem conseguir”, diz. “O aprendizado cognitivo virá depois, de qualquer modo. Nessa idade eles aprendem automaticamente, se lhes é oferecida uma chance.”



A proposta do Centro Montessoriano do Haiti deve ser compreendida a partir de seus objetivos sociais. Uma das escolas é voltada especificamente para crianças portadoras do vírus HIV – 6% da população adulta do país é soropositiva. Outra escola atende crianças surdas. Mais duas estão integradas a um orfanato. Para atender melhor as crianças, as classes têm 30 alunos, pouco diante da média de 60 por turma na rede haitiana. Não há divisão por faixa etária, por conta do conceito de as próprias crianças auxiliarem as menores.




Educação

ouviu duas especialistas brasileiras no método montessoriano sobre o caso do Haiti. A professora Áurea Maria Paes Leme Goulart, da Universidade Estadual de Maringá, surpreendeu-se com a escolha. Por uma questão financeira. “O método é caro”, resume. “No Haiti, é complicado.” Ela considera a linha montessoriana muito rica, mas desde que o professor saiba utilizar o método. “Quem vai pagar esse material?”, pergunta. “Vão deixar material na sala para manipularem do jeito que quiserem?”



A professora Alessandra Arce, do
campus

de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), segue a mesma linha. Com a ressalva de que não conhece a realidade do Haiti, ela observa que tentativas de compensar o baixo investimento em educação nos países pobres costumam ser acompanhadas de “discursos apelando para o voluntarismo e a boa vontade”. “A utilização do método me causa estranheza, pois ele é caro, e seus materiais e escolas demandam pesado investimento”, afirma. “Caberia investigar até que ponto está realmente sendo utilizado ou apenas se ouve o canto da sereia, que em nada resultará.”



Segundo Hesse, o orçamento anual para o projeto no Haiti varia entre US$ 60 mil e US$ 70 mil. “Vem do meu próprio bolso e de amigos”, conta. Mais especificamente, de 50 doadores, com uma ajuda de custo do governo alemão para gastos excepcionais. Durante alguns anos, o PNUD e o serviço de desenvolvimento do governo alemão financiaram um voluntário da ONU. O custo inicial por escola varia entre US$ 3 mil e US$ 4 mil, para o kit didático, ajuda na construção do prédio, gastos administrativos, coordenação, supervisão e investimento nos novos professores.



No caso, explica Hesse, a pobreza do Haiti é um fator que barateia os custos, já que os investimentos são em dólares. Segundo os coordenadores do projeto, levar educação de alta qualidade a um país tão pobre é possível, mesmo com poucos recursos, desde que a formação dos professores seja boa. Além disso, a experiência tem o objetivo de influenciar o setor público e privado da educação haitiana, para adoção em escala do método.



O material montessoriano, segundo Hesse, beneficia o desenvolvimento cognitivo da criança, “mesmo que o professor não tenha entendido completamente o
background

didático”. “Professores que não entenderam completamente a pedagogia Montessori podem efetivamente lecionar”, avalia. “É por isso que o método treinou pessoas de lugares pobres e com baixo nível de instrução, tornando-as professores nacionalmente reconhecidas.”



Hesse vai todo ano ao Haiti para acompanhar o projeto. Ele conta que, entre as milhares de crianças atendidas, houve “experiências maravilhosas”. “Algumas das primeiras crianças já têm filhos, e as trazem para as escolas”, relata. “Eles viram que funcionou para eles.” Ele diz que chega a ser difícil apontar exemplos individuais. “Uma das nossas alunas agora é professora de dança”, afirma. “Pequenas coisas como essa dão o toque especial”.




No Brasil, viés católico




A médica e pedagoga italiana Maria Montessori (1870-1952) não acreditava na criança como uma tábula rasa a ser preenchida, mas como alguém com potencial único a ser despertado. Após lidar, como psiquiatra, com crianças portadoras de distúrbios mentais, começou a trabalhar em 1907 com moradores da periferia de Roma. E ficou impressionada com as habilidades infantis. Era o início do método Montessori, que viria a se espalhar pelo mundo ao longo do século.



“Ela e outros médicos-educadores se preocuparam não só com a questão física, de saúde, mas também de educação, que naquele momento estava relegada a segundo plano”, analisa a professora Áurea Maria Paes Leme Goulart. Montessori reorganizou então método desenvolvido pelos médicos franceses Jean Itard e Edouard Séguin, estimulando ao mesmo tempo a habilidade das crianças, que considerava inata, em absorver cultura e o desenvolvimento do amor-próprio. “O material montessoriano é riquíssimo”, diz Áurea.



Em 1915, convidada por inventores como Thomas Alva Edison e Alexander Graham Bell, Maria Montessori falou no Carnegie Hall, em Nova York (EUA). Durante a II Guerra Mundial, por suas idéias anti-fascistas, teve de sair da Itália. Curiosamente, foi de uma escola montessoriana que a jovem judia Anne Frank e sua irmã foram expulsas, durante o nazismo na Alemanha. Maria Montessori foi então morar na Índia – país que aparece no Guiness Book of World Record com a maior escola do mundo, e montessoriana.



“O método foi muito divulgado porque ela viajou por vários países e continentes divulgando sua obra”, avalia a professora Alessandra Arce. No Brasil, segundo Áurea Goulart, o método chegou na década de 50, em Curitiba (PR). Mas já com outra interpretação, católica. Por conta disso e dos custos elevados, foi mais divulgado nas camadas médias e altas da sociedade. “Fui professora de classe especial, na Mooca”, lembra-se Áurea. O material utilizado era o “compramos, mas ninguém soube usar”, diz.



Na década de 80, com maior divulgação no Brasil das teorias construtivistas de Emília Ferreiro e Jean Piaget, o método montessoriano, fonético, perde a sua força. “Eram posicionamentos que, se não opostos, não coincidiam”, diz Áurea.  Ela conta que em Maringá havia uma escola montessoriana e o método foi extinto, substituído pela proposta de Emília Ferreiro. “Até pelo gasto que o material Montessori exige”, diz. Segundo Alessandra Arce, a teoria construtivista tornou-se então hegemônica.



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