Monsieur Lazahr: a coragem da verdade

Um professor disposto a ajudar seus alunos a enfrentar uma grande perda

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O que se pode esperar de um catálogo de filmes num avião? De minha parte só queria algo que amenizasse o tédio que me invade nessas horas que separam a saída da chegada; horas em que já não mais estamos noutro país, nem ainda chegamos ao nosso.  Jamais havia ouvido falar da obra de Philippe Falardeau, Monsieur Lazahr (2011), a despeito de sua indicação para o Oscar e dos prêmios internacionais que recebeu. Nem mesmo li a sinopse. Fiz a escolha tão simplesmente em função da foto em que um simpático professor primário aparecia rodeado de crianças em uma sala de aula do Québec. Ela me sugeria mais um desses filmes ingênuos e românticos, nos quais um professor dedicado encarna e reforça a nossa crença no poder redentor da escola e no mito de que a vontade pessoal é condição suficiente para o êxito profissional. Seria uma nova versão de Ao mestre com carinho?
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Nada mais enganoso! Ao contrário das fábulas hollywoodianas, em Monsieur Lazahr a escola é palco do sublime e do trágico. Nela as crianças terão de conviver com a sombra do dramático suicídio de uma professora querida e com as luzes que emanam dos olhos daqueles em quem depositamos confiança. Com pais que exigem que o professor estrangeiro se limite a instruir sua filha (sem lhe transmitir valores que orientem um modo de vida) e com mães que nele reconhecem a mão firme de alguém que se recusa a cumprir burocraticamente seu papel. Uma escola em que a interdição de tocar nos alunos, em lugar de protegê-los do assédio, os abandona sem nenhum abraço amigo na hora da dor. Uma escola que cria, com suas salas docemente decoradas, uma imagem idílica de criança. Uma imagem que queremos que seja verdadeira, a despeito de toda dor e sofrimento a que assistimos nessas mesmas crianças…


A colega de Monsieur Lazahr, na sala ao lado, é uma professora exemplar. Organiza apresentações de teatro, ensina com atividades lúdicas e se encaixa perfeitamente no ideal de uma professora amiga de seus alunos. Já ele, que mentira para a diretora da escola acerca de sua experiência docente, só é capaz de recorrer a sua memória de aluno na distante Argel para cumprir seu papel de professor. Em seu primeiro dia de aula, Lazahr desfaz a organização circular da classe para pôr seus alunos em assépticas fileiras. Exige silêncio, lhes dita um texto de Balzac e repreende um aluno de forma rude e severa para os padrões daquela liberal escola canadense. Ele é um estrangeiro no país e no mundo escolar. Mas sabe muito bem da importância de levar aquelas crianças a enfrentar a dor como parte da vida. E jamais se recusa a encarar o que crê ser sua missão junto a eles.


Descoberta sua condição de refugiado político sem experiência docente, Lazahr irá perder o emprego. Mas deixa a todos uma lição: o que o faz ser um grande educador aos olhos daquelas crianças não são suas arcaicas técnicas pedagógicas, mas a coragem que tem de lhes oferecer um encontro com alguém que não se recusa a pensar o vivido, que sabe fazer dos desatinos da existência humana uma oportunidade de crescimento. 

*José Sérgio Fonseca de Carvalho
Doutor em filosofia da educação pela Feusp e pesquisador convidado da Universidade Paris VII
jsfc@editorasegmento.com.br 

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