Modelo ainda incompleto

Olhar para outros fatores ajudará na alfabetização

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© iStockphoto

 

Ainda que o modelo do Pacto tenha diversos pontos positivos, capazes de fato de melhorar a alfabetização das crianças, ainda está longe de ser uma panaceia. Entre os problemas que impedem avanços definitivos estão a falta de infraestrutura física nas escolas brasileiras – 65% delas não têm biblioteca, por exemplo -, a gestão ineficiente e a falta de integração entre os funcionários. Mas há ainda crenças e visões que são obstáculos, como a cultura escolar que desvaloriza a brincadeira e a infância.

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“Há uma ruptura entre a educação infantil, que trabalha com a ludicidade, e o fundamental. Temos de acabar com essa quebra para avançar”, avalia Manuelina Martins, vice-presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime). “Infelizmente a ideia de que no infantil a criança pode brincar, mas depois acabou a brincadeira, permanece forte.”

A visão de que escola é um lugar exclusivo de “estudos”, onde não deve haver espaço para brincadeira, está presente não apenas entre os professores, mas na sociedade de forma geral. As famílias acreditam que os filhos não devem brincar no colégio e precisam ter tarefas para casa desde cedo – e cobram a escola se isso não acontece, diz Manuelina, que tem grande experiência como alfabetizadora.

“A ludicidade tem de permanecer no ciclo de alfabetização, porque criança tem de ser criança”, afirmou. Esse é um trabalho de convencimento que deve ser feito dentro e fora da instituição de ensino. A brincadeira é essencial na alfabetização, entre outros fatores, por desenvolver a capacidade simbólica das crianças – afinal, a escrita é um sistema simbólico.

O fim da brincadeira atrapalha ainda mais quando há o ingresso de forma prematura no primeiro ano, ressalta a dirigente. A idade considerada correta para o ingresso é 6 anos completos, mas em muitos estados as matrículas acontecem a partir dos 5 – há pais que recorrem à Justiça para “adiantar” seus filhos.

O respeito ao tempo e à cultura infantil como forma de garantir uma alfabetização bem-feita também é defendido pela neurocientista e alfabetizadora Elvira Souza Lima. “Em termos biológicos, o cérebro vem preparado para a linguagem oral – há áreas específicas para isso -, mas a língua escrita é cultural. Não é porque a criança fala bem que vai saber escrever; para o cérebro é um desafio muito diferente. Como ele tem plasticidade, acaba adaptando outras áreas: são 17 áreas para realizar a tarefa da leitura e 21 para a escrita”, explicou.

Embora quanto mais nova a pessoa, mais plasticidade o cérebro tenha, algumas áreas ainda não estão maduras, por isso, só se deveria começar a ensinar de fato a escrever as letras a crianças de 7 anos, defende.

Mas há muito trabalho a fazer antes. Além de esperar o tempo certo, aprender bem a escrita, uma tecnologia inventada pelos homens há milênios, exige uma atenção a diversos fatores fora da sala de aula propriamente dita, atividades que não foram contempladas no modelo do Pnaic. É preciso desenvolver a memória, a coordenação motora, a estrutura da sintaxe, a capacidade de simbolizar.

Segundo Elvira, oferecer trabalhos envolvendo música, desenho e movimentos corporais, como esportes, é essencial para que o cérebro dos pequenos se prepare para a alfabetização. “É preciso ajudar na reorganização do cérebro para aprender esse sistema inventado.” Por isso, se for feito um currículo que não inclua dança, música, desenho e brincadeira, já de partida a alfabetização será mais difícil, porque estará pulando uma etapa, afirma a pesquisadora.

“Uma vez fui chamada a um município onde as crianças estavam com dificuldade em se alfabetizar. Passamos a oferecer duas horas de movimento. Eram atividades de capoeira e circo, porque foi o que se mostrou relevante para as crianças daquela comunidade. Só depois da atividade física, as fazíamos sentar para escrever. O resultado foi espantoso de tão satisfatório”, relata Elvira.

Sonho possível

De acordo com Elvira, se o trabalho anterior for bem feito, em apenas um ano letivo as crianças aprendem a ler e escrever com a estrutura básica de sujeito, verbo e complemento. Portanto, a ampliação da oferta da pré-escola, que deveria ser universalizada a partir de 2016, pode trazer mais uma forma de fortalecer o processo de alfabetização – isso, claro, se houver uma pré-escola que respeite a infância.

Com um processo de letramento coerente se iniciando mais cedo, aos 8 anos as crianças são capazes de usar conectivos como “mas” e “que”, verbos no futuro e passado, além de conseguirem aplicar os princípios da pontuação. A partir daí, conseguem avançar na escolaridade e leituras da vida.

 

© Gustavo Morita
Para serem alfabetizadas, as crianças também precisam desenvolver a memória, a coordenação motora, a estrutura da sintaxe, a capacidade de simbolizar

 

Embora o contexto social e familiar possa favorecer o aprendizado, ele se dá mesmo em condições adversas. “Já trabalhei com crianças indígenas, filhos de presos, comunidades de imigrantes e garanto que todos se alfabetizaram. Crianças aprenderam a ler e escrever até em campos de concentração”, afirmou Elvira.

A principal contribuição das famílias deve ser promover uma boa alimentação e um sono de qualidade, mas até mesmo na alimentação a escola deve ajudar. “É preciso dormir cedo para que o cérebro forme memórias. Isso ajuda na concentração e cognição”, disse Elvira.

Experiências espalhadas pelo Brasil mostram que as crianças têm capacidade de aprender de forma satisfatória, mas isso acontece, sobretudo, se elas tiverem a possibilidade de passar pelo processo da alfabetização e letramento com mais respeito a suas culturas e particularidades. “E precisamos fazer tudo com mais amor, mais dedicação, mais empenho. Enfim, precisamos de mais humanidade nas relações interpessoais”, afirmou Hércules Corrêa, pesquisador do Ceale.

Ao invés de uma fórmula única para garantir aos estudantes o direito de serem incluídos no mundo da língua escrita, é preciso uma conjunção de diversos fatores, como vontade nas diversas esferas, meios adequados nas escolas, profissionais bem preparados e um processo contínuo de avaliação e aperfeiçoamento. As políticas públicas precisam de continuidade e fortalecimento, para que os professores, alunos e sociedade se engajem.

Ainda que imperfeito, o pacto é visto pela maioria dos educadores como um grande avanço. Alguns dos envolvidos receiam que as contingências econômicas do momento, que estão atingindo o Pnaic, acabem comprometendo as atividades neste ano. Além do cancelamento da ANA, a formação de professores, que em 2013 e 2014 se iniciou no primeiro semestre, desta vez começou apenas em agosto. O temor é que um bom programa acabe desmantelado antes mesmo de mostrar os primeiros resultados e a alfabetização das crianças continue uma promessa não cumprida.

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