Milú Villela

presidente do Instituto Faça Parte

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Qual o diagnóstico que você faz da educação básica no Brasil? Quais os principais problemas, avanços e retrocessos que a educação vive?




É inegável que o Brasil, ao entrar neste novo século, pode comemorar a universalização do ensino fundamental. A efetiva prioridade dada à escolarização das crianças, a partir de 1995, foi um grande avanço. Segundo o último Censo Escolar, 97% das crianças de 7 a 14 anos estão matriculadas. O mais importante disso é que tivemos um grande aumento da matrícula das crianças mais pobres, o que demonstra que as populações antes excluídas foram incorporadas ao sistema escolar. Com isso, a demanda pelo ensino médio também aumentou.

Hoje, o Brasil tem cerca de 60 milhões de estudantes na educação básica e mais de 90% estão em escolas públicas. No entanto, não podemos nos enganar com a grandeza dos números. Ainda há muito a ser feito, principalmente quando pensamos na qualidade do ensino oferecido. Sabemos que existem muitas dificuldades e que educação é um processo – não se muda em pouco tempo.

As crianças que hoje estão na escola básica, em sua maioria, são provenientes de famílias com baixa ou nenhuma escolaridade, o que lhes dificulta o acesso ao saber escolar. A formação dos professores, sabidamente tem se revelado deficiente e muitas vezes distante das necessidades das classes populares. Apesar dos avanços obtidos com as mudanças na forma de financiamento da educação, os salários de nossos professores são muito baixos e afastam aqueles que poderiam se dedicar à nobre missão do magistério.



 





Na sua opinião, qual é o principal desafio para alavancar o desenvolvimento e a qualidade da educação em nosso país?







Penso que ainda é preciso que a sociedade brasileira e a classe política olhem para a educação básica e a vejam como um investimento importante. Analisando a situação dos países que saíram de uma situação de subdesenvolvimento, verificamos que altos investimentos foram feitos nas escolas de educação básica.

Precisamos investir mais e melhor nas escolas de todas as crianças, seja nas regiões rurais ou das periferias urbanas. Escolas com equipamentos e material pedagógico adequados para crianças e jovens. Escolas com mais tempo de permanência diária e, se possível, em período integral para que os alunos possam ter, além do currículo obrigatório, atividades culturais, artísticas, desportivas e de recreação orientada. Uma escola que, além de permitir que todos possam aprender, possibilite o exercício da cidadania e de práticas sociais de integração à comunidade. O voluntariado educativo divulgado pelo Faça Parte é um caminho em que acredito.






 





Qual é o papel do Terceiro Setor na educação hoje?







É muito recente a valorização da educação escolar pela sociedade brasileira. Parece que atualmente há um consenso sobre a importância da educação para o país conquistar melhores índices de desenvolvimento humano e de justiça social. A consciência de que os governos sozinhos não serão capazes de reverter o baixo desempenho escolar é crescente. A responsabilidade social das empresas e sua participação em parcerias para melhorar a educação é uma realidade cada vez maior na sociedade brasileira.

O Terceiro Setor vem participando de um grande número de projetos e de ações realizadas diretamente nas escolas ou em seu entorno, contribuindo com atividades complementares. O papel do Terceiro Setor é justamente ser uma força aliada da sociedade e, conseqüentemente, do Primeiro Setor. Faça Parte atua junto às escolas para consolidar a cultura do trabalho voluntário. Também acreditamos que com o voluntariado educativo, a comunidade escolar tem o poder de melhorar a qualidade da educação, transformar a escola em um ambiente de convivência solidária e preparar o educando para uma participação cidadã. No Instituto Faça Parte (www.facaparte.org.br) temos bons exemplos de parcerias entre o Primeiro Setor (com o Consed e Undime), Segundo (com as empresas parceiras) e Terceiro Setor.
  









 







Da forma como a educação está sendo administrada atualmente, como você vê a área daqui a dez anos?







É muito difícil fazer uma avaliação geral de como está sendo administrada a escola atualmente. Há muitas diferenças e se observam grandes avanços. Mas, quando pensamos na gestão da escola, principalmente quando se compara com uma escola da rede particular, percebe-se que a escola precisa adquirir mais autonomia em todos seus aspectos – humanos, financeiros e pedagógicos. Isso não é tão simples. Mas é preciso continuar com os avanços obtidos nos anos recentes. A direção da escola precisa ter autonomia para gerir seus recursos, para contratar e demitir pessoal, para adaptar seu currículo à sua realidade. Mas para isso é preciso criar mecanismos de participação e controle das famílias e da própria administração pública.

Acredito que esse é um caminho que está sendo trilhado por muitas secretarias de Educação, tanto estaduais como municipais. Sou otimista e penso que não pode haver retrocesso. Tenho certeza de que daqui a dez anos já teremos alcançado melhores resultados, isso se a sociedade continuar a colaborar e a cobrar de nossos representantes mais investimentos em educação.





 


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