Mídia na escola

Comunicação tem dificuldade de integrar cotidiano escolar

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O trabalho de um mês se transformou em uma fogueira pouco menor do que uma televisão de 14 polegadas. A fornalha foi erguida em local público. Atônitas, muitas testemunhas se indignaram. O incendiário respondeu que não iria titubear em fazer aquilo novamente, caso os erros se repetissem. Esse episódio não ocorreu na Idade Média, durante a Santa Inquisição, tampouco sob algum regime ditatorial em que livros subversivos eram destruídos, e sim no interior do Ceará, há aproximadamente quatro anos. O combustível para a fogueira em questão eram jornais estudantis, produzidos por alunos de escola pública.

O relato é de Renan William de Morais, estudante do 3º ano do ensino médio em Fortaleza (CE). Ele participa da coordenação estadual da Rede de Instituições dos Jornais Estudantis (Redije) – associação autônoma surgida de uma parceria com a ONG Comunicação e Cultura, que viabiliza a publicação de jornais alternativos. O fato narrado se deu em Iguatu (CE) e a publicação incinerada, produzida pelo projeto
Clube do Jornal

em uma escola pública, chama-se
Twister, o Jornal da Década

. Quem ateou fogo integrava a diretoria. O episódio remete a uma discussão mundial sobre a relação da escola com a mídia, e seu impacto na formação dos jovens.

O espanhol Jesus Martín-Barbero, residente na Colômbia desde 1963, tem dedicado sua obra a relacionar comunicação à educação. Entre seus livros publicados no Brasil, figuram
Os Exercícios do Ver

(Senac-SP, 184 págs., R$ 32) e
Ofício de Cartógrafo

(Loyola, 480 págs., R$ 52). A presença dos meios de comunicação de massa na sociedade tem especial impacto sobre os jovens, demonstra ele. Daí a premência (e o enorme potencial) de a escola explorar esses meios. Ensinar os alunos a entender como o mundo se expressa em telas e páginas é essencial para dar valor à identidade cultural deles, prega a obra de Martín-Barbero.

A comunicação também gera ameaça aos poderes instituídos, explica o cientista social e jornalista Fernando Rossetti, coordenador de projetos de educação e comunicação, e diretor executivo do Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (GIFE). Produzir mídia, segundo ele, é a melhor maneira de entendê-la. Embasado nas idéias de Martín-Barbero, ele argumenta que “a informação circula em um esquema de poder muito vertical”. A maioria dos jornais ainda é feita pela instituição de ensino, sem participação direta da comunidade escolar.

Além de ferramenta paradidática indispensável na atualidade, ensinar a produzir mídia pode ser, de acordo com Rossetti, uma “proposta de horizontalização do modelo de ensino”. Ao discutir comunicação com envolvimento dos alunos, ele acredita que se inicia um processo de amadurecimento de toda a comunidade. Pelo fato de interferir nas estruturas de poder, a tendência é que a conscientização pela comunicação se multiplique. “É um cavalo de tróia dentro da rede”, compara.

Foi o que aconteceu em Iguatu. O pacote com cerca de dois mil exemplares do jornal estudantil não havia chegado às mãos dos alunos, três dias após a data prevista. O embrulho, segundo Renan, era endereçado pela gráfica aos estudantes. Somente eles, portanto, poderiam abri-lo. Mas os representantes da escola o fizeram, leram e censuraram o material. Puseram fogo nos exemplares ali mesmo, em área aberta do colégio, com estudantes por perto.

Os incendiários alegaram indignação com os erros de português. Em cidades pequenas, os jornais têm muita repercussão, inclusive fora da comunidade escolar, lembra Renan. Os membros da diretoria foram taxativos: não permitiriam que “aquilo” circulasse, nem daquela vez, nem enquanto houvesse os erros. Seria ruim para a imagem da escola. Se preciso fosse, as chamas arderiam novamente, ameaçaram. Houve inconformismo dos estudantes. Um grupo do
Clube do Jornal

de Fortaleza (CE) viajou a Iguatu (CE) para fazer pressão em favor da liberdade de expressão.

Atualmente, uma parceria do clube com o jornal
O Povo

, de Fortaleza (CE), possibilita aos alunos trocar informações com jornalistas profissionais. Renan admite que, principalmente nos jornais elaborados pelo projeto
Primeiras Letras

, direcionado ao ensino fundamental, são cometidos erros de português. O
Clube do Jornal

também enfrentava problemas com a língua em seus textos. Atualmente, porém, uma professora de português faz a correção dos artigos — o que não deixa de ser um suporte ao ensino do português para os alunos envolvidos, observa Renan.

Há exemplos de como a comunicação modifica a rotina de crianças e jovens em todo o Brasil. Mais do que promover uma atividade extra, as escolas se vêem obrigadas, em alguma medida, a trazer os meios de comunicação para a sala de aula. Rossetti utiliza o termo
media literacy

(alfabetização para a mídia) para classificar essa necessidade. O sociólogo argentino Daniel Raviolo, fundador da Comunicação e Cultura, acredita que, quando a escola compreende a influência dos meios de comunicação, até mesmo sobre a subjetividade das pessoas, há muitas maneiras de atuar.

A urgência em melhorar suas ações de comunicação, inclusive dentro da própria comunidade, já é admitida. A ONG Cidade Escola Aprendiz fez recentemente pesquisa com escolas públicas paulistanas integrantes do programa
Expressões Digitais

, que trabalha a relação entre educação, comunicação e informática. As instituições foram questionadas sobre seus maiores problemas. Cerca de 90% delas apontaram a comunicação como deficiência mais grave.

Desde 1994, experiências na área mudaram a realidade de centenas de escolas do Ceará. Os projetos
Primeiras Letras

e
Clube do Jornal

, organizados pela Comunicação e Cultura em parceria com o governo estadual, são desenvolvidos em escolas públicas. Por meio dessas ações, os próprios alunos fazem seus jornais. A prática torna possível enxergar a mídia de outra maneira e ajuda a enfrentar os problemas coletivos.

A aliança entre comunicação e educação é defendida pela professora Maria Aparecida Baccega, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), como o “caminho para se trabalhar a nova variedade histórica”. A professora Cristina Costa, também da ECA-USP, explica o processo no recém-lançado
Educação, Imagem e Mídias

(Cortez, 200 págs., R$ 28) a partir da premissa de um “ecossistema comunicativo”, como proposto por Martín-Barbero.

“A escrita revolucionou os processos de conhecimento, introduzindo novas práticas de refletir, de expressar idéias e de fazer circular informações”, afirma Cristina. “Tudo isso fez dessa tecnologia um importante recurso de inserção social e de acesso à cultura.” Coube à informática, no entanto, impulsionar novos processos de produção de imagens em todas as áreas. “É nesse cenário que a educação tem que rever seu paradigma letrado e adentrar o campo das imagens e das linguagens tecnológicas”, prossegue Cristina. Não apenas para acompanhar a evolução, mas para ajudar a quebrar a barreira que separa a cultura “eurocentrada, iluminista e burguesa, baseada na escrita como forma de produção e controle do conhecimento” de outra, “globalizada, massiva, baseada em múltiplas linguagens e tecnologias de comunicação, dentre as quais se afirmam de forma hegemônica os meios audiovisuais”.

A superação dessa barreira cultural não é fácil, diz Cristina. Depende de experimentação, em um processo cheio de reveses, porém “firme e definitivo”. “Por não depender seu uso de um complexo código de acesso, como o do livro, a televisão expõe as crianças, desde que abrem os olhos, ao mundo antes velado dos adultos”, define Martín-Barbero em
Os Exercícios do Ver

, escrito em parceria com o psicólogo e professor colombiano Germán Rey.

Para Maria Aparecida, a televisão precisa deixar de ser encarada com “pretensa intelectualidade”, como se fosse “perniciosa”. Isso mascara, na sua avaliação, a falta de um trabalho consciente. Ações de formação de educadores para o uso da televisão são realizadas pelo Centro Brasileiro de Mídia para Crianças e Adolescentes (Midiativa). Adriana Fernandes, coordenadora de projetos da ONG, cita que 98% dos lares brasileiros têm televisão e apenas 95%, geladeira. Mesmo assim, lamenta, muitos educadores ainda resistem ao tema por preconceito e não vêem a televisão como forma culta de comunicação.

A falta de formação adequada das novas gerações de professores é um empecilho grave, avalia Maria Aparecida, para quem as mudanças na dimensão social da escola exigem equipes multidisciplinares. “Se o estado não quer que continue essa indigência crítica, e aí eu tenho dúvida se não quer mesmo, evidentemente ele tem que socorrer os professores. Educar sempre foi um problema para as classes dominantes.” Rossetti responsabiliza também as macropolíticas educacionais e o desmonte de projetos devido à troca de administrações pelo estágio atual dos professores.




Ação e reação



“A comunicação é a dimensão crucial da cultura contemporânea”, afirma o sociólogo argentino Daniel Raviolo. Radicado no Brasil desde 1987, ele é coordenador-geral da ONG Comunicação e Cultura, cujo trabalho foi reconhecido, em 2004, como de utilidade pública federal pelo Ministério da Justiça. O projeto
Clube do Jornal

está em 125 escolas da rede de ensino médio do Ceará. O
Primeiras Letras

foi implantado em 809 escolas cearenses e 19 pernambucanas. “Tenho paixão pela comunicação alternativa”, diz.




As instâncias políticas se sentem ameaçadas pelos jornais escolares?


O
Clube do Jornal

às vezes enfrenta resistências por parte dos núcleos gestores das escolas, que estão pouco habituadas à liberdade de expressão dos alunos. Falar que o banheiro da escola vive sujo pode dar um bafafá… O
Primeiras Letras

é mais pacífico nesse sentido, mas já houve casos de prefeitos que reagiram iradamente contra escolas que se permitiram publicar informações que contrariavam seus interesses. No contexto político em que vivemos, em muitos aspectos a cidadania é ainda precária. Consideramos inevitáveis essas reações. Nosso trabalho aponta também para uma mudança cultural que nos afaste do autoritarismo. E isso não se consegue da noite para o dia.




De que maneira se dá a compreensão das crianças no

Primeira Letras
?


Em educação, tudo é processo. Para uma criança das séries inicias, a participação é uma forma de desmistificar a comunicação como um processo do qual seria apenas objeto. “Eu faço jornal!”, ele se diz. Já no ensino médio, com o
Clube do Jornal

, a experiência é plena em termos de vivência das contradições e do próprio poder da comunicação. Porque a produção do jornal, de A a Z, está totalmente nas mãos do grupo juvenil.




Como é feita a capacitação dos professores pela ONG?


O
Primeiras Letras

capacita apenas um professor por escola, o coordenador pedagógico, para que ele ajude seus colegas a integrar a produção do jornal ao cotidiano da sala de aula. Por meio de métodos mais abrangentes, como concursos, jornal mural e folhas educativas, estimulamos o conjunto dos professores a integrar a visão da comunicação ao trabalho que já realizam. Algo assim como “relate para a comunidade o que você está fazendo”, mas utilizando gêneros textuais jornalísticos. Já no
Clube do Jornal

, capacitamos exclusivamente os jovens, em oficinas temáticas e de jornalismo na escola, e em encontros de intercâmbio de experiências.




Reportagem: Faoze Chibli



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