Meu vestibular

Para valorizar a leitura, colunista sugere lista de livros para todas as disciplinas

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© Manuel Alvarez/Shutterstock

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Se alguém me consultasse sobre como realizar uma revolucionária mudança no vestibular, eu daria uma sugestão radical. Em lugar de algumas leituras obrigatórias, como se costuma fazer hoje, minha proposta seria associar o conteúdo de todas as provas a uma lista de livros.

Nesse meu vestibular, os candidatos a uma vaga na universidade teriam de ler nove livros. Leitura variada para darem conta das diferentes exigências de cada disciplina.

Para a prova de matemática, como não lembrar o professor e escritor Júlio César de Mello e Souza, mais conhecido pelo pseudônimo “Malba Tahan”? O seu O homem que calculava traz incontáveis possibilidades para o raciocínio matemático.

Com relação à física, pequenas obras-primas como Viagem ao centro da Terra, de Júlio Verne, e A máquina do tempo, de H. G. Wells, suscitam perguntas sobre como definir o tempo e o espaço. De modo geral, aliás, livros de ficção científica provocam a imaginação, instrumento tão importante em qualquer pesquisa quanto a razão “pura”, como bem sabem os cientistas de todas as épocas.

Para a prova de biologia, recomendaria as fábulas de Esopo, em que pululam diferentes animais em interessantes situações de luta pela sobrevivência: a doninha que a deusa do amor transformou numa bela mulher continuava a perseguir ratos para alimentar-se; o leão e o javali entraram num duelo mortal mas decidiram se reconciliar ao verem os abutres se aproximando; a porca e a cadela discutindo sobre qual das duas é a mais fértil…

Para as questões de química, o livro A tabela periódica, do escritor e químico italiano Primo Levi, que obtém uma fusão perfeita entre as duas profissões, como podemos ver nesse trecho:

O fato de que a aloxona, destinada a embelezar os lábios das damas, derivasse de excrementos das galinhas ou das serpentes não me perturbava nem um pouco. O ofício do químico (reforçado, em meu caso, pela experiência em Auschwitz) ensina a superar, antes, a ignorar certas repugnâncias, que nada têm de necessárias nem de congênitas: a matéria é a matéria, nem nobre nem vil, infinitamente transformável, e não importa em absoluto qual seja sua origem próxima.

Ler para escrever

Além da redação de praxe, todas as provas dessa minha proposta solicitam dos candidatos que escrevam breves textos. Ler conduzindo ao escrever. Todo universitário precisa ler, reler, pensar e escrever com desenvoltura e certo rigor. Não há desculpa esfarrapada ou bem-vestida que justifique o contrário.

Para as provas de inglês e espanhol, um conto ou o capítulo de um romance nos respectivos idiomas. Autores como Jorge Luis Borges, ou Rosa Montero, ou Augusto Monterroso, em espanhol. Autores como C. S. Lewis, ou Oscar Wilde, ou Anne Rice, em inglês.

Para as provas de português e literatura, dois livros que provoquem a reflexão sobre o nosso idioma e a nossa criatividade. Duas possibilidades, entre mil, seria um conto de Lima Barreto com um outro, de Marcelino Freire, ou uma crônica de Machado de Assis com uma outra, de Fabrício Carpinejar. Momentos brasileiros, passado e presente, estilos diversos, o mesmo idioma em diferentes tempos.

Geografia e história também conversam pelos textos e em seus contextos. Uma dobradinha possível, para mencionar livros de divulgação com boa base e boa dose de pesquisa, seria Laurentino Gomes com Thales Guaracy. As biografias, autobiografias e memórias também são uma forma de dialogarmos com os mapas históricos. Uma biografia, por exemplo, sobre a cantora Elis Regina, é também um relato sobre o Brasil das décadas de 1960-1970.

E, finalmente, filosofia e sociologia, com autores transitando em nossas livrarias e bibliotecas. Sugestões que me ocorrem neste momento: Zygmunt Bauman, Alain de Botton, Domenico de Masi, Fernando Savater, e um autor nosso ainda em plena forma, Gilberto Freyre (que se dizia mais escritor do que sociólogo), clássicos como Erasmo e seu Elogio da loucura, e Thomas Morus e sua Utopia. E o pensador brasileiro Roberto Gomes, que escreveu uma pequena mas instigante Crítica da razão tupiniquim, da qual extraio essas linhas sobre a necessidade de uma filosofia legitimamente brasileira:

A condição prévia a qualquer Filosofia brasileira que não queira se ver reduzida, como tem acontecido até hoje, à mera assimilação ornamental e dependente – úteis tão só a brilharecos verbais diante de um povo adormecido – é fazer desabar as instalações sérias nas quais vivemos. Negar postiças importâncias e urgências providenciadas estranhamente e que não nos expressam, encobrindo condições que poderiam liberar em nós um pensamento de fato criador. Jamais esquecer-se nalgum sistema cômodo de pensar, em qualquer arquivo de primeiros socorros existenciais. Correr o risco de não saber coisa alguma, longe de qualquer certeza prévia.

Em suma, preparar-se para meu vestibular consistiria em, sobretudo, ler. Ler as linhas e entrelinhas. Ler aprendendo a gostar de ler. Na sala de aula, professores e alunos, conversariam sobre suas interpretações, configurando juntos um saber aberto.

No meu vestibular, a leitura deixaria de ser obrigação (contornável muitas vezes por resumos empobrecedores). A leitura seria (deve ser) caminho de descobertas pessoais.

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