Mestre sem diploma

Produtor e compositor Hermínio Bello de Carvalho, aos 70 anos, nos ensina a valorizar a cultura brasileira

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Alexandre Pavan



 


Poeta, compositor, produtor, cronista e agitador cultural. A atuação de Hermínio Bello de Carvalho no cenário artístico brasileiro é extensa e profunda, principalmente no que diz respeito à música popular. E se você ficou em dúvida sobre quem é ele, talvez não tenha ligado o nome à pessoa – ou melhor, à obra.



Bastaria citar os versos de
Alvorada

(parceria com Cartola e Carlos Cachaça): “Alvorada lá no morro, que beleza”; ou então o samba
Timoneiro

(com Paulinho da Viola): “Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar”; ou ainda
Chão de Esmeraldas

(com Chico Buarque): “Me sinto pisando num chão de esmeraldas/ Quando levo meu coração à Mangueira”.


Nascido no subúrbio carioca de Ramos, em 1935, Hermínio Bello de Carvalho completa 70 anos este mês, e a data está sendo festejada com o lançamento da caixa de CDs
Timoneiro

(Biscoito Fino), contendo cinco álbuns que englobam boa parte de sua produção como compositor. Com quase meio século de atividade, ele traz no currículo uma seleção primorosa de parceiros. Fora os já citados, a lista continuaria com Maurício Tapajós, Dona Ivone Lara, Baden Powell, Elton Medeiros, Martinho da Vila, entre outros, além de ter letrado músicas de Jacob do Bandolim, João Pernambuco, Heitor Villa-Lobos e Chiquinha Gonzaga.

Toda essa obra ganhou vida nas maiores vozes de nosso cancioneiro, como Elizeth Cardoso, Clara Nunes, Nana Caymmi, Maria Bethânia e Clementina de Jesus – esta descoberta e lançada por ele no show
Rosa de Ouro

, de 1965.


Aliás, revelar e valorizar a cultura brasileira tem sido a tônica do trabalho de Hermínio esses anos todos. Discípulo de Mário de Andrade, ele repete em seus projetos a máxima do poeta modernista, aquela de que “é preciso abrasileirar o brasileiro”. Nas décadas de 1970/1980, à frente da divisão musical da Fundação Nacional da Arte (Funarte) ele capitanearia os projetos Pixinguinha (de shows nacionais a preços populares), Lúcio Rangel (de incentivo à produção de livros sobre MPB), Almirante (de gravação e lançamento de discos), Airton Barbosa (edição de partituras), Radamés Gnatalli (ensino musical) e Ary Barroso (voltado para a divulgação da música brasileira no exterior).


Preocupado com a memória e a educação, Hermínio é um entusiasta da volta do ensino musical às salas de aula. O espetáculo
O Samba é Minha Nobreza

, criado e dirigido por ele em 2002, no Rio de Janeiro, oferecia sessões didáticas gratuitas para estudantes que, no palco do Cine Odeon, ouviam e aprendiam músicas que raramente teriam a oportunidade de conhecer pelo rádio ou televisão. “Não se pode chamar a juventude de alienada sem antes avaliar os fatores alienantes”, ele costuma dizer. E foi para combater tais fatores que ele ajudou a formular a Escola Portátil de Música, projeto que já começa a exibir uma nova geração de músicos cariocas.


Embora tenha diversas classificações profissionais, Hermínio Bello de Carvalho diz que gostaria mesmo é ter se tornado educador. Como não fez faculdade, não aceita o título. Mas a verdade é que qualquer escola se orgulharia em tê-lo como mestre.


 



*Jornalista e co-autor do livro
Populares e Eruditos





apavan@uol.com.br

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