Mesmice

Questões sobre o desajuste entre discurso e prática

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Durante mais de uma hora, ouvi o Perrenoud falar sobre um tema recorrente, numa palestra que dava pelo nome de "
Os alunos são diferentes – Por que tratá-los como se fossem semelhantes?".

Apesar de alguns diálogos furtivos, nas filas de trás, a plateia estava atenta. E eu evocava congressos e seminários de 20 ou 30 anos atrás, em que eu escutava discursos semelhantes dirigidos a plateias igualmente atentas…

Nos livros que leio, nas palestras que escuto, é quase consensual a crítica do modelo epistemológico que predomina nas escolas, desde há séculos. A crença na transmissão linear de saberes sobrevive na agonia do modelo de escola que ainda temos. Se o modelo epistemológico faliu, resta saber por que razão se mantém, ainda que moribundo, o modelo organizacional que o suporta. Se há muitos modos de fazer escola, quantos já foram experimentados?  Se os alunos são diferentes, por que os tratam como se fossem semelhantes?

Já Bachelard dissera que o ato de conhecer se dá contra um conhecimento anterior e que é impossível anular, de um só golpe, todos os conhecimentos habituais:
detectaremos causas da inércia às quais daremos o nome de obstáculos epistemológicos.

O discurso continua a contrariar a prática do discurso – para um pensamento único, um modelo único. A mesmice das teorias é da mesma natureza da mesmice das práticas. Cultiva-se a mesmice em aulas de saliva e power point. A síndrome do pensamento único não questiona a "normose" que tende a perenizar rituais sem sentido.

Pois é, Bachelard… Abundam as teses que elegeram por objeto de estudo os obstáculos à mudança. O que mudou? Os doutorados de há trinta anos lecionam como os doutorados de agora. Obstáculos epistemológicos impedem-nos de agir em coerência com as conclusões das suas teses. Dissertam sobre diversidade perante turmas que supõem ser "homogêneas"; supõem ensinar métodos ativos a alunos inativos; creem fazer "educação inclusiva", quando ensinam a todos como se de um só se tratasse. Quedo-me perplexo perante teóricos que dissertam sobre mediação sem jamais a praticarem. Fico confuso perante "construtivistas" cujas práticas são a negação do construtivismo.

Creio que começo a entender o êxito comercial dos livros de autoajuda pedagógica… Após alguns anos de experimentalismo reformista e de tentativas de psicologização das escolas, temos ali mais do mesmo. Gilles Ferry busca explicar esse drama, contextualizando-o no campo da formação de professores:
Existe "uma analogia estrutural entre o vínculo da formação e o vínculo da prática profissional para a qual conduz esta formação, uma isomorfia. Resulta desta isomorfia que (qualquer que seja) o modelo pedagógico adotado pelos formadores tende a impor-se como modelo de referência dos ‘formados’. Os efeitos de estruturação e de impregnação produzidos pelo dispositivo de formação correm o risco de serem mais fortes do que o discurso sustentado".

Não é necessário inventar novos conceitos, ou rebatizar conceitos antigos. Basta de redundâncias teóricas e de cursos de transmissão de conteúdos, que se revelam inúteis nas práticas – necessário e urgente é reinventar as práticas. Pouco antes de falecer, o Ademar escreveu no seu blog:
Andamos nisto há muitos anos. Enquanto não formos capazes de mudar radicalmente de modelo, entreter-nos-emos a tentar remendar os buracos. E, enquanto fingimos que sabemos usar a agulha, folgam as costas e ajeita-se a retórica para os próximos embates.




J
osé Pacheco


Educador e escritor, ex-diretor


da Escola da Ponte, em


Vila das Aves (Portugal)




josepacheco@editorasegmento.com.br

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