Mergulhado em números

Pi traz um jovem matemático obcecado pela descoberta de padrões numéricos para a natureza

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Sérgio Rizzo*


De todas as áreas do conhecimento contempladas nos ensinos fundamental e médio, a matemática talvez seja a que menos tenha presença no cinema. Ainda assim, há uma diversificada oferta de filmes sobre o tema. Enquanto
O Preço do Desafio

(1987) conta a história verídica de um professor de Los Angeles que convence seus alunos sobre a importância da matéria,
Afogando em Números

(1987) propõe um jogo complexo governado também por conceitos da psicanálise.
Uma Mente Brilhante

(2001), por sua vez, torna popular, de acordo com o habitual “distorcionismo” hollywoodiano, a trajetória do matemático americano John F. Nash Jr., que recebeu o Prêmio Nobel de Economia em 1994.




O repertório que combina números e imagens ganha reforço considerável com
Pi

, o primeiro longa-metragem do cineasta americano Darren Aronofsky. Em seguida, ele dirigiu o controvertido
Réquiem para um Sonho

(2000) (
leia em Educação n
o

65, de setembro de 2002

). Aqui, o protagonista é Maximillian Cohen (Sean Gullette), jovem doutor em matemática pela Universidade de Columbia, que vive recluso em seu pequeno apartamento em Nova York. Sai dali apenas para perambular pela cidade e para visitar um ex-professor (Mark Margolis), com quem conversa (sobre matemática, invariavelmente) e disputa partidas de Go, jogo chinês. Na maior parte do tempo, dia e noite, Max trabalha diante de terminais de computador e de um letreiro eletrônico com as cotações da Bolsa de Valores de Nova York.




Sua obsessão: encontrar um padrão numérico no movimento do mercado de ações – sistema “não-linear, dinâmico, caótico”. Suas três convicções: a matemática é a linguagem da natureza; tudo à nossa volta pode ser representado e compreendido por meio de números; se esses números são colocados em um gráfico, surgem padrões. Logo, haveria padrões por toda a natureza. A busca da explicação numérica para a própria vida leva Max a desconfiar que a resposta se encontra no antigo objeto de estudo de seu ex-professor: Pi (p), a 16
a

letra do alfabeto grego, que designa a razão constante entre o comprimento de uma circunferência e seu diâmetro e que carrega a “beleza” do círculo perfeito.




Para simplificar cálculos, costuma-se corresponder p a 3,1416. Seu valor exato, no entanto, continua um mistério. Em 1997, chegou-se a mais de 51 bilhões de dígitos – e apenas depois de 500 milhões é que surge, pela primeira vez, a seqüência 123456789. O fascínio, portanto, é que seus números não têm padrão; em matemática, porém, equivale a dizer que eles têm todos os padrões. O enigmático filme de Aronofsky acrescenta, a essa referência principal, conceitos variados como os da Teoria do Caos e da Cabala. E atira seu protagonista em uma espiral de suspense de ordem paranóica (lembre-se que a paranóia, em resumo, consiste em crer na existência de uma ordem oculta por trás do visível) e conspiratória. Não temos como saber se Max é um louco, um gênio ou ambas as coisas enquanto tentamos acompanhar suas reflexões – provocantes, no mínimo – sobre a engrenagem secreta do mundo.





*Jornalista, professor e crítico da revista
Set

e da
Folha de S.Paulo




srizzojr@uol.com.br






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