Mensurar o quê?

Projetos padecem de falta de instrumentos que meçam sua efetividade

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Os sistemas brasileiros de educação introduziram uma série de instrumentos de avaliação nos últimos anos. Mais ou menos refinados e precisos, trouxeram, de toda maneira, uma visão mais precisa sobre o atual estágio de sistemas, escolas e alunos brasileiros. Em meio a essa quase febre avaliativa, como mensurar o impacto das ações levadas a cabo pelas ONGs?
Luciano Junqueira, da PUC-SP, crê que não há como o Estado mensurar o resultado das políticas e ações que implanta com o auxílio de órgãos do terceiro setor. “O Estado não consegue criar uma lógica de controle. Hoje se fala muito em medir, tanto pelo setor público quanto pelo setor privado. Isso é uma mistificação. Algumas ações você mede quantitativamente, mas vá tentar medir a qualidade.” Ou seja, é possível saber o número de pessoas atendidas em programas que envolvem o terceiro setor, mas aferir o efeito real desses programas é uma outra coisa.

Na opinião do presidente do Instituto de Administração para o Terceiro Setor (Iats), Luiz Carlos Merege, é difícil avaliar. “Como você vai medir o impacto de um conhecimento sobre uma pessoa? O que se usa são indicadores de qualidade. Em vez de se falar quantos alunos avançaram ou se formaram, há a necessidade de ter um acompanhamento desses alunos após a formação. Se eles conseguiram aplicar o que aprenderam, se estão evoluindo.”


Questão de perspectiva


Quando se avalia a educação, existe um grande embate entre questões que podem ser relativizadas e outras em que se pode chegar a veredictos mais diretos e absolutos. Quando um aluno, por exemplo, consegue realizar determinadas tarefas propostas, arrumar um emprego, ter um aumento de salário, prosseguir seus estudos, ou passar mais tempo na escola, trata-se de variáveis mais fáceis de identificar. Quando se trata de aferir o que ele aprendeu e a que se deve o fato de ele ter tido uma evolução mais ou menos satisfatória, é mais difícil identificar relações de causa e efeito.

Da mesma forma, a lógica que preside algumas avaliações não advém de uma cultura escolar, e sim de valores e questões externas à escola, como a geração de riquezas, a valorização de uma marca (no caso das ONGs ligadas ao universo corporativo), ou mesmo à geração de recursos ou empregos em uma determinada comunidade.

Ainda assim, pouca gente costuma levar a avaliação em conta na hora de implantar um projeto. Segundo Elie Ghanem, da Faculdade de Educação da USP, muitos organismos gostariam de fazer avaliação, mas não estão dispostos a financiar, pois veem isso como um custo que não conseguem contabilizar como um valor de gestão para o projeto. Muito dessa percepção, avalia o pesquisador, vem de um histórico assistencialista de organizações nascidas antes da década de 1980.
“Muitas organizações religiosas e filantrópicas são herdeiras de serviços de caridade. Em São Paulo, por exemplo, isso aparece na década de 70, quando crianças de rua, muitas vezes inseridas na marginalidade, foram tiradas de seus locais de circulação para que ficassem em centros de convivência e de atividades.”

Modelo brasileiro é híbrido

O modo de atuação e constituição das ONGs no Brasil foi influenciado por modelos importados de outros países, mesmo porque muitas entidades têm atuação global, como as de direitos humanos e de meio ambiente.

Nos Estados Unidos, muito do dinheiro que circula no terceiro setor vem da iniciativa privada, por meio de fundações ou de indivíduos detentores de fortunas gigantescas. Na Europa, os governos e agências são os grandes financiadores de projetos sociais, inclusive para ações em países em desenvolvimento.

“Nos Estados Unidos sempre existiram movimentos de defesa de direitos políticos encabeçados pelas ONGs; na Europa, há muitas ONGs voltadas para a sustentabilidade e para a preservação”, resume Luiz Carlos Merege, presidente do Instituto de Administração para o Terceiro Setor (Iats). As grandes ONGs, independentemente da nacionalidade, têm considerável poder de pressão nas esferas política e econômica.

“O modelo praticado no Canadá e na Europa é, de maneira geral, baseado em associações comunitárias e cooperativas nas quais as pessoas se reúnem em torno de um tema. Já o modelo norte-americano está vinculado às ideias de responsabilidade social de empresas ou de pessoas”, resume Ana Lúcia Santana, da Universidade Federal do Paraná. “O Brasil é um laboratório desses dois modelos.”

“O investimento da iniciativa privada no Brasil ainda é muito baixo, passa muito mais por um discurso do que por uma realidade”, aponta Luciano Junqueira, professor da PUC-SP. “Pelos valores que envolvem os projetos, a iniciativa privada não vai bancar. O Estado é o principal financiador. A iniciativa privada funciona como parceira para agilizar o atendimento.”
Sérgio Haddad, presidente da Ação Educativa, explica que, quando se fala em ONGs, trata-se de um campo muito diverso, que representa muitos segmentos da sociedade e interesses decorrentes desses lugares sociais ocupados pelas organizações. “Fundações e organizações empresariais acabam promovendo interesses privados dessas empresas. O objetivo é ter o nome da empresa vinculado ao projeto, o que gera uma melhor imagem da empresa, e aumento nas vendas e no lucro.”

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