Memorização e treinamento

Automatizar procedimentos não é sinônimo de criatividade embotada

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Meu irmão, que nunca teve grande paixão pelos estudos, havia tirado uma nota baixa em matemática. Em resposta reativa, meu pai mandou-o estudar a tabuada com o senhor Pinhão, que curiosamente era eletricista e não professor. Mas seu método de ensino era conhecido no bairro por sua suposta eficácia. Nunca entendi por que meu pai estendeu também a mim, que tinha um bom desempenho nessa disciplina, as aulas de tabuada do senhor Pinhão. Mas rapidamente entendi as razões do sucesso do Método Pinhão de Matemática.

Sentávamos numa mesa rústica na sala de sua modesta casa. À porta ficava seu cachorro, um pastor alemão. O senhor Pinhão, calvo e rechonchudo, nos trazia papel, lápis e ditava a tabuada. Depois nos deixava com a ordem de decorá-la, avisando que só sairíamos de lá quando provássemos saber de cor a lição. No primeiro dia, ao vê-lo sair, meu irmão fez um gesto rápido para saltar da cadeira. Imediatamente o cão rosnou e mostrou dentes pontiagudos capazes de dissuadir qualquer resistência à disciplina imposta pelo senhor Pinhão. Ao voltar, ele ‘tomou’ a tabuada – como costumávamos falar – e satisfeito com o resultado, despediu-se. Algumas lições bastaram para que meu irmão memorizasse a tabuada e automatizasse alguns procedimentos que lhe garantiram a aprovação. 
 
Hoje o senhor Pinhão seria convocado pelo Conselho Tutelar e seus métodos seriam unanimemente condenados. Não tenciono defender o recurso a cães de guarda como agentes disciplinadores; nem em sua versão literal, nem na contemporânea (como as câmeras a vigiar professores e alunos). Mas creio que o desprezo que certas correntes pedagógicas passaram a nutrir pela memorização (de tabuadas, de lista de verbos irregulares etc.) e pela automatização de certos procedimentos de uma disciplina escolar é um equívoco. A memorização de informações passou a ser desprezada como algo sem importância e o treinamento em certas habilidades relativamente mecânicas como algo sem sentido. É como se, ao ensinarmos a decorar a tabuada, impedíssemos o aluno de raciocinar; ao treinarmos certos procedimentos de forma padronizada, o impedíssemos de criar algo novo. Nada mais falso.

Um aluno que sabe a tabuada de cor pode ter sua mente livre para pensar a solução de um problema, justamente porque a sabe de cor e com ela não se preocupa. Analogamente, treinar e automatizar certos procedimentos não tolhe a criatividade; é quase sempre condição sine qua non para seu aparecimento. A interpretação criativa de um pianista é precedida por um treino e uma disciplina extenuantes; as centenas de exercícios estereotipados com bola não tolhem, mas propiciam a criatividade do craque de futebol. Memorizar novas palavras, recorrer a exercícios gramaticais, decorar regras de ortografia e acentuação não impedem um aluno de se expressar criativamente; criam mais condições para que isto se realize.

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