Memória da dança

Pesquisa analisa o impacto da atividade no desenvolvimento da memória de crianças com Síndrome de Down e suas possibilidades para a inclusão

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José Reis
A professora Ariana e as crianças: situações para desenvolver a liberdade de ação
O que favorece mais o desenvolvimento das crianças com deficiência: a convivência exclusiva com os pares em instituições e escolas especiais ou a interação com crianças de todos os tipos, como ocorre nas escolas regulares?


Essa questão, que ressurge toda vez que o debate sobre a inclusão das crianças com deficiência na escola regular ganha o espaço público – como é o caso agora no âmbito da aprovação do Plano Nacional da Educação (PNE) – foi um dos motes da pesquisa de mestrado da professora de educação física Ariana Aparecida Nascimento dos Santos, que investigou o impacto da dança no desenvolvimento da memória de crianças com síndrome de Down.


“Sempre dancei e sempre utilizei a dança como aliada para me ajudar no desenvolvimento da memória. Decorar coreografias e associar o ritmo à construção da coreografia sempre me ajudaram no processo de memorização”, explica Ariana, ao comentar como surgiu a ideia da pesquisa. “Eu também sempre tive interesse em trabalhar com crianças com necessidades educacionais especiais.”


A partir de uma metodologia baseada na psicologia histórico-cultural de Lev Vigotsky e no trabalho do dançarino e teórico da dança Rudolf Laban, Ariana utilizou a dança para testar sua hipótese e observar o desenvolvimento das crianças. Entre os resultados do estudo, que ainda está em fase de finalização, já é possível perceber que a convivência de crianças com e sem síndrome de Down é benéfica para os dois casos, além de favorecer o desenvolvimento da memória voluntária das crianças com síndrome de Down.


Pesquisa em duas etapas
Orientado pelo professor Irineu Aliprando Tuim Viotto Filho, o mestrado está em fase de conclusão na pós-graduação em Educação da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da Universidade Estadual­ Paulista (Unesp) de Presidente Prudente e foi o desdobramento de sua pesquisa de iniciação científica, realizada há quatro anos, na gra­­dua­ção em Educação Física.


Durante a iniciação científica, Ariana trabalhou com um grupo composto exclusivamente por crianças com síndrome de Down, que frequentavam uma instituição especializada em Presidente Prudente. 


No mestrado, foi diferente: formou um grupo com quatro crianças de 7 a 11 anos, das quais duas com síndrome de Down. Ao longo do trabalho, mais três crianças sem a síndrome começaram a participar e uma menina com deficiên­cia saiu do grupo. As atividades foram realizadas no Laboratório de Atividades Ludo-Recreativas (LAR) da faculdade.


Na pós-graduação, o objetivo também se ampliou, alinhando-se com o debate sobre a inclusão de crianças com deficiência – em especial, aquelas com deficiência intelectual – na escola regular. Desse modo, a pesquisa se valeu da dança, enquanto linguagem simbólica corporal, para analisar o impacto da atividade no desenvolvimento da memória voluntária e, também, na inclusão no ambiente escolar.


Ao longo de 2013, o grupo realizou 22 encontros, incluindo uma apresentação. Os encontros foram organizados a partir de atividades de dança, música, brincadeiras rítmicas e coreografias, dirigidas pela pesquisadora, com a participação das crianças.


“Elas participaram ativamente. Havia momentos de conversa e de troca. Elas opinaram e tomaram decisões durante o processo de criação da coreografia.” Também foram usados objetos – por exemplo, ursos de pelúcia e bolas – para ajudar as crianças a decorar a música, a coreografia e a executarem os movimentos, explica Ariana.


Os resultados obtidos nas duas etapas da pesquisa foram distintos, aponta Ariana. “Na iniciação científica, percebemos que as crianças se desenvolviam, mas até um limite, pois criaram uma coreo­grafia, mas somente com os movimentos que já conheciam. Não foram além”, observa a pesquisadora. Diante do resultado, Ariana infere que a imitação do modelo proposto por ela, na condição de professora, não foi suficiente para fazer com que as crianças com Down avançassem para além daquilo que elas já conheciam.


No mestrado, a configuração foi bem diferente: “Percebemos que a convivência de crianças com e sem síndrome de Down enriquece e amplia o repertório de ambos os grupos, além de favorecer o desenvolvimento da memória voluntária das crianças com síndrome de Down. Isso se dá porque ambos os grupos têm a oportunidade de se apropriar daquilo que o outro tem a oferecer”, defende o orientador Viotto Filho.


“A diferença é que no laboratório eles conseguiram criar movimentos, elaborar coreografias a partir de movimentos novos, o repertório se ampliou comparado com as crianças da primeira fase da pesquisa. Acreditamos que esta é uma evidência de que quanto mais contato com objetos culturais, mais oportunidades de desenvolvimento a pessoa tem”, complementa o docente.


Para Ariana, o fato de criança com Down ter sido a primeira do grupo a memorizar toda a coreografia, servindo de modelo para as demais, é uma evidência forte de que a interação entre crianças com e sem deficiência pode ser mais rica para ambos os grupos. “Partimos do pressuposto de que a criança com Down pode e deve aprender com as outras crianças. É a melhor forma de desenvolvê-las.”


Este fato, no contexto da pesquisa, continua a pesquisadora, ilustra a tese de Vigotsky de que o desenvolvimento da memória, da atenção e da percepção se dá por meio de atividades práticas mediadas por outras pessoas e do contato com objetos culturais. “É isso que faz uma pessoa ir além daquilo que ela já sabe.”


A aprendizagem em questão
O professor Viotto Filho remete esses resultados a uma reflexão sobre o impacto da convivência e da escolarização de crianças com síndrome de Down que permanecem exclusivamente numa instituição sobre seu desenvolvimento.


As instituições, aponta ele, certamente ajudam, porém, ao mesmo tempo, incorrem em limitações. “Essas crianças acabam tendo pouca oportunidade de convivência com crianças sem a síndrome. Dessa maneira, seu repertório tende a permanecer constante, não se amplia tanto.”


À luz de Vigotsky, cujas teorias norteiam a pesquisa e as reflexões teóricas, o professor da Unesp enfatiza a importância da ação e do contato com objetos culturais em determinados contextos para a aprendizagem. “As crianças não aprendem somente a partir da fala. É a fala acompanhada da ação, acompanhada de determinado objeto”, reitera.


Nesse sentido, à medida que as crianças têm contato com objetos culturais em contextos como “brincar com a bola”, “brincar com um ursinho”, “dançar com um ursinho”, participando de uma história, de uma coreografia, possibilita-se o desenvolvimento – num processo mediado por um sujeito com mais experiência e conhecimento.


A memória voluntária desempenha um papel central na aprendizagem e no desenvolvimento da criatividade, segundo Vigotsky. Para ele, a criatividade perpassa uma mudança qualitativa que ocorre na memória e que depende da lembrança e da recordação voluntária. Por isso, é importante o estabelecimento de relações sociais e com objetos significativos, que possibilitem às crianças com deficiência irem além da repetição mecânica.


“Estamos, então, falando de inclusão num sentido diferente daquele que ainda é comum, da adaptação da criança Down para um comportamento padronizado. Buscamos compreender e desenvolver o potencial de cada uma”, afirma.


A intenção é, portanto, superar a visão que enfatiza o trabalho individual e ambulatorial com as crianças com deficiência. “Queremos ir além das perspectivas que enfocam o treinamento das crianças com deficiência – e de qualquer criança, na verdade. Não queremos treinar as crianças, queremos criar situações para que elas tenham autonomia, liberdade de ação. O projeto tem mostrado que isso é possível”, explica.


Daí a necessidade de colocar em contato, num mesmo ambiente ou contexto de aprendizagem, crianças com e sem deficiência. Daí a necessidade de valorizar um professor bem preparado para criar atividades pedagógicas que lancem as crianças naquilo que Vigotsky chama de zona de desenvolvimento potencial, explica Viotto Filho. “As crianças são capazes de fazer determinadas coisas hoje e poderão fazer outras, com o auxílio de outras crianças. É nesse campo que estamos trabalhando.”








Ocorrência genética


A síndrome de Down é uma ocorrência genética que se dá durante o desenvolvimento do embrião: são formados 47 cromossomos, ao invés de 46. O material genético extra se localiza no par de cromossomos 21, dando origem à chamada Trissomia do 21 – ou seja, ao invés de dois, são três cromossomos. Seus efeitos variam muito de uma pessoa para outra, mas, dentre eles, está o comprometimento do desenvolvimento intelectual, associado à dificuldade de abstração e memorização. A hipotonia muscular e a aparência física (olhos amendoados, dedos curtos etc.) também caracterizam as pessoas com síndrome de Down.

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