Medo faz escola

Explosão da violência urbana afasta jovens das ruas, cria geração enclausurada e obriga instituições de ensino a investir tanto em segurança quanto em ações de cidadania

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Carolina Costa

Muros de 11 metros de altura com cerca elétrica separam os 500 alunos da Escola Internacional de Alphaville, em Barueri (SP), de qualquer visitante não-autorizado. Para entrar no prédio, é preciso passar por guaritas, detector de metais, catracas e câmeras. Estudantes têm um cartão magnético com foto, nome completo e série, obrigatório para acesso às salas de aula. Pais de alunos também recebem identificação, com placa do carro e nome do filho. Oito seguranças de terno e gravata usam rádio de longo alcance para vigiar entrada e saída. Uma pequena viatura faz uma ronda nas imediações da escola e comunica a uma das duas guaritas sobre qualquer incidente. A instituição tem ainda seis câmeras e 14 inspetores, que monitoram as áreas mais movimentadas, além dos coordenadores pedagógicos e professores, que conhecem cada aluno pelo nome.



Todo esse aparato de segurança se justifica: na Escola Internacional de Alphaville estudam filhos de empresários, de executivos de multinacionais, de celebridades e de intelectuais. São jovens ricos, moradores de condomínios de Alphaville e região, muitos deles habituados a andar com guarda-costas e sair de casa em carros blindados. “Em quatro anos, nunca tivemos nenhum incidente”, orgulha-se o psicopedagogo Marco Antonio Tiago, coordenador pedagógico de ensino fundamental e médio da Escola Internacional de Alphaville. Mesmo

com toda essa segurança, Tiago faz questão de ressaltar que não se trata de um presídio. “Cuidamos da segurança e do bem-estar dos alunos.”



Tanto zelo, que poderia ser considerado um exagero até pouco tempo atrás, atualmente faz parte da rotina de centenas de outras escolas particulares, espalhadas por todo o país. As raízes desse confinamento, no entanto, não são tão recentes. Jovens que hoje têm entre 15 e 17 anos nasceram sob o estigma do medo: a explosão dos condomínios, a banalização da corrupção, a indústria do tráfico de drogas, a febre dos blindados, o pavor dos seqüestros-relâmpago.



Os atuais adolescentes ainda eram bebês quando um presidente foi deposto por outros jovens, de cara pintada, mas já estavam bem crescidos para entender chacinas e massacres que seguiram pautando a última década brasileira. Viram morros se transformarem em fortalezas e acompanharam o crescimento das facções criminosas que agem nos presídios.



O resultado de tanta violência pode ser aferido no crescimento da indústria do medo. “Em 2001, ano em que a economia cresceu 1,5%, o setor de segurança privada avançou 26,8%, faturando R$ 6 bilhões e empregando perto de 340 mil pessoas. No Rio, a expansão foi de 56% e, em São Paulo, de 52%”, escreveu o jornalista Elio Gaspari em sua coluna na
Folha de S.Paulo

, no dia 21 de maio de 2003.



Essa geração enclausurada pode ser qualificada numa pesquisa que o Sistema Anglo de Ensino encomendou do Instituto Pró-Pesquisa. Para descobrir o que pensam esses adolescentes entre 15 e 17 anos, foram ouvidos cerca de 50 mil alunos de 300 escolas da rede, em 11 Estados. Os resultados trazem números surpreendentes e mostram como esses jovens das classes A e B estão preocupados com a violência.



Um dos dados mais alarmantes diz respeito à criminalidade. Segundo a pesquisa do Anglo, 34% dos jovens acham que a solução para acabar com a violência é a pena de morte. Outros 9% são a favor da prisão perpétua, enquanto 26% desejam apenas que condenem os criminosos a trabalhos forçados. Além de denunciarem o medo que acomete essa geração, esses números mostram que, para os jovens ouvidos, a solução para a violência é ainda mais violência.



“Esses jovens são produtos de seu contexto. Vivem isolados em condomínios ou apartamentos, muitos não conhecem nem o vizinho. Apesar da internet, as relações hoje são mais impessoais”, coloca Elizabeth Polity, terapeuta familiar e diretora do Colégio Winnicott, em São Paulo (SP). Em seu colégio, incrustado nos Jardins, bairro nobre paulistano, ela trabalha com crianças e adolescentes das classes A e B, filhos de personalidades da sociedade, banqueiros e empresários, mas é categórica ao afirmar que “da escola para dentro, não entram guarda-costas”. “Nosso imóvel fica na frente do prédio da Mercedes-Benz, numa rua cheia de seguranças armados, mas dentro da escola eles não entram. Até temos muro no colégio, mas ele foi feito mais em função da bola de futebol, que caía na rua”, coloca.



Elizabeth explica que ouve muitos pais comentarem que os filhos adolescentes não saem do quarto. “Eles se isolam nesse microuniverso equipado com computador, som, televisão, celular”, aponta. Mas lembra que poucos educadores se perguntam como os pais se relacionam com os filhos e com seus próprios pais. “As configurações familiares estão muito diferentes, hoje, e o isolamento é muito grande”, conclui a terapeuta.



Outros dados da pesquisa do Anglo ajudam a compor esse panorama da geração enclausurada: 41% afirmaram que as doenças que mais os preocupam são as mentais e psicológicas, uma conseqüência do estresse e da pressão por que passam nessa faixa etária. Mas antes que se tache essa juventude de individualista ou alienada, outro ponto interessante foi levantado: apesar de 56,9% terem declarado não se envolver em nenhum trabalho voluntário, 28% disseram que não participam de trabalhos voluntários, mas gostariam de participar, e 12% já o fazem.



“O jovem precisa experimentar outras vivências, não pode viver num mundo hermético”, aponta Marco Antonio Tiago, da Escola Internacional de Alphaville. É justamente pensando nisso que a escola promove atividades externas e desenvolve, interdisciplinarmente, o tema da violência. “Trabalhamos o assunto em várias aulas, como cultura internacional, filosofia e redação, além de geografia e história. Também promovemos palestras sobre esse e outros temas transversais como saúde pública, solidariedade e uso correto da água”, acrescenta Tiago. “E também saímos com os alunos para atividades fora da escola, mas fazemos isso com toda a segurança.”



Lentamente, as escolas começam a se preocupar em investir em cidadania e ações sociais como forma de diminuir o medo e o confinamento dos alunos. Trabalhos comunitários e atividades extraclasse começam a ser vistos pelos educadores como formas de atenuar o abismo social que separa esses jovens bem-nascidos dos bolsões de pobreza. Habituadas a aprofundar essa discussão geralmente do ponto de vista macroeconômico, as escolas de elite começam a adotar uma postura mais prática de promover estratégias para o aluno lidar com as ruas.



Essa preocupação está presente no Colégio I. L. Peretz, na Vila Mariana, bairro paulistano de classe média. Um dos projetos sociais é o intercâmbio com a escola municipal Campos Salles, que fica em Heliópolis, bairro pobre da cidade. Voluntários do Peretz passam uma tarde lá ensinando informática. O Colégio Nossa Senhora das Graças – também de um bairro rico, o Itaim – leva aproximadamente 25 alunos a duas instituições carentes na periferia para trabalhos voluntários.



Outro bom exemplo é o do Colégio Dante Alighieri, também de São Paulo (SP), situado ao lado do Parque Siqueira Campos. Conhecido popularmente como Trianon, o parque tornou-se um famoso ponto de prostituição masculina, o que incomodava pais e professores do Dante. “Havia presença constante de elementos estranhos, alcoólatras e pequenos traficantes perto do colégio. Foi principalmente isso que motivou uma ação”, conta Guglielmo Raul Falzoni, presidente do colégio.



Num trabalho conjunto entre a comunidade, as polícias civil e militar, a Guarda Metropolitana e o Conselho de Segurança Comunitária (Conseg), o colégio conseguiu mudar o perfil da região. Foram doadas cinco bicicletas para a Guarda Metropolitana, rádio-transmissores e um computador. No parque, uma sala foi equipada para servir de vestiário e base para os policiais. A segurança particular do Dante também realiza um trabalho em conjunto com as autoridades para manter a tranqüilidade nos arredores. A iluminação melhorou.



Os efeitos foram imediatos. “Algumas séries, como a quarta e a quinta, têm aulas dentro do parque”, comemora Falzoni. Ele ressalta, ainda, que os alunos estão gradualmente voltando a transitar pelo parque. O Trianon possui um arvoredo natural e denso, rico em espécies nativas como sapucaia, jacarandá e seringueira. Há um espelho d’água com marrecos, além de
playgrounds

e bancos. A vegetação do lugar é um pedaço original da Mata Atlântica, a floresta mais devastada do Brasil.



O Dante já possui uma cultura de ações sociais e trabalhos comunitários. Com os móveis da antiga biblioteca, que foi reformada, os alunos montaram dez bibliotecas em bairros pobres da capital, como Santo Amaro e Capão Redondo. Para conseguir os livros, foi organizada uma campanha interna. A ONG Colméia, da zona leste da cidade, recebeu doações de computadores e, também no esquema voluntário de professores e alunos, foram ministrados cursos profissionalizantes para jovens carentes.



Em um imóvel cedido pelo hospital Sírio Libanês, o Dante montou uma sala de informática para pessoas da região sem acesso a computadores. No mesmo local, há um trabalho de alfabetização de adultos. Há várias outras campanhas realizadas pelos estudantes, como a de voluntários para trabalhar na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de São Paulo (Apae-SP); as campanhas do agasalho, de sapatos e de alimentos; além de uma coleta seletiva de lixo, cujo lucro é destinado aos funcionários do colégio.



Essas e outras ações mostram como a escola tem se sensibilizado para a cidadania. Os dados da pesquisa do Anglo, por exemplo, ao mesmo tempo em que denunciam uma geração enclausurada e cheia de medo, apontam que 64% desses jovens são otimistas em relação ao próprio futuro e aos rumos do país. Cedo ou tarde, esses jovens terão de escolher entre continuar atrás de muros e grades ou enfrentar a realidade das ruas.


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