Mediadores que viram o jogo

Casa da Leitura, projeto patrocinado pela Fundação Calouste Gulbenkian, de Portugal, mostra que exposição permanente ao
livro ajuda a arraigar o hábito leitor

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Vista da cidade de Lisboa, com o Rio Tejo ao fundo: assim como aqui, também em Portugal a função de mediador é considerada chave para melhorar os índices de leitura

Quando compôs a letra de
A casa

, o poeta e compositor Vinicius de Moraes (1913-1980) não poderia imaginar que, anos depois, sua música serviria para explicar a arquitetura do projeto da Casa da Leitura, mantido pela Fundação Calouste Gulbenkian (FCG), instituição de apoio às artes, à ciência e à educação com sede em Lisboa, Portugal. Fortemente apoiado pelas ações de seu sítio eletrônico (
http://www.casadaleitura.org/

), o projeto aposta em seus contornos virtuais e imagéticos. Com 1 milhão e 300 mil acessos, o sítio tem o objetivo de fomentar o letramento por meio da formação dos mediadores de leitura, isto é, pais, educadores, professores, bibliotecários e estudantes em formação que irão atuar no âmbito da educação. Compõem a equipe do projeto, além do escritor e jornalista João Paulo Cotrim, outros sete profissionais, provenientes das áreas da literatura infantil, recepção leitora e promoção de leitura.

Nesse portal de informação sobre a leitura, é feito o exame crítico de mais de 1,4 mil títulos de literatura voltados à infância e à juventude. Os títulos são disponibilizados em uma vitrine, que os subdivide  em quatro estágios de compreensão leitora: pré-leitores, leitores iniciais, medianos e autônomos. Além disso, pode-se ter acesso a orientações teóricas por meio da leitura de artigos de investigação, orientações práticas de promoção da leitura e direções sobre como criar um projeto de promoção da leitura.

O Plano Nacional de Leitura (PNL), do Ministério da Educação de Portugal, possui como objetivo central elevar os níveis de letramento do país, mesma finalidade essencial levada a cabo pela Casa da Leitura. A Calouste Gulbenkian, mesmo apoiando o PNL, tem na Casa da Leitura um projeto com uma estratégia diferente, não mantendo qualquer relação orgânica com o programa do estado.

Os laboratórios de leitura das cidades de Odivelas e Beja, patrocinados pela Fundação no espaço de atuação da Casa da Leitura, são incubadores de soluções sobre os processos cognitivos da leitura, e no que diz respeito a promoção e mediação leitora. Em grande parte, o êxito do projeto deve-se à pesquisa desenvolvida pelos laboratórios, seja por meio da geração de relatórios e ferramentas de análise, seja pelas contribuições dadas a uma pedagogia estruturante, que perpassa e marca o conhecimento dos agentes envolvidos no processo de leitura.

A Biblioteca Municipal D. Diniz, na pequena cidade de Odivelas, de 53 mil habitantes, na região periférica de Lisboa, é o lugar em que se realiza o laboratório "Dois braços para embalar uma voz para contar: atividades de leitura para bebês dos 9 meses aos 3 anos". O laboratório é dedicado à sensibilização para leitura de pré-leitores, acompanhados por um dos pais ou responsável. A pesquisa sobre a pré-compreensão leitora é empírica, ajustada à prática e apoiada por princípios teóricos defendidos pela Casa.

O laboratório de leitura de Odivelas envolveu de forma sistemática o adulto e a criança no processo de aprendizagem de leitura e estimulou a associação entre afeto, cumplicidade e leitura conjunta. Os pressupostos do estudo levaram a identificar práticas estruturantes no processo de aprendizagem leitora e os respectivos benefícios na conduta emocional e cognitiva da criança, com interferência direta no processo de aquisição de competências leitoras.
O fortalecimento dos laços de afeto com os pais e o aumento no grau de interação resultam do ambiente emocional e afetivo em que as atividades acontecem. Uma maior receptividade à aprendizagem formal foi observada em crianças que, desde cedo, entram em contato com os livros. A leitura de histórias constitui momentos privilegiados de interação entre adulto e criança, o que fomenta o surgimento de comportamentos de leitura.

A partilha de livros promove comportamentos emergentes de leitura na criança, que se tornam visíveis quando o pré-leitor demonstra entusiasmo e interesse face ao livro. Segundo o estudo, contar histórias às crianças é a melhor forma de as ajudar a tornarem-se letradas, porque assim entram em contato, ainda sem o peso da educação formal, com as principais características da língua escrita, aumentando o vocabulário, a atenção, a concentração, além de construir as suas primeiras representações sobre a estrutura de uma narrativa.

A Biblioteca Municipal de Beja, cidade de 34 mil habitantes no Baixo Alentejo, 180 km ao sul de Lisboa, é outro polo de referência que aglutina estratégias de leitura para crianças e adolescentes dos 7 aos 15 anos. Desenvolveu programas como resultado de uma atualização das linhas centrais de intervenção realizadas pelos agentes de leitura. Os programas são aperfeiçoados face às questões que surgem durante o processo, para posteriormente serem apropriados e aplicados por bibliotecas e docentes.

O programa local, batizado de "Livros Andarilhos – Leituras com Miúdos e Graúdos", forma leitores no meio escolar e garante um aprofundamento continuado em torno do livro, partilhado entre a escola, a família e a biblioteca. O alvo do projeto é encontrar respostas mais qualificadas para o envolvimento do docente, da família e da criança, além de incutir a leitura como compromisso por parte dos mediadores envolvidos.

António Prole, idealizador da Casa da Leitura, sintetiza um dos conceitos-chave do programa e sua importância no panorama nacional: "Trabalhamos com os professores com sacos de livros temáticos, fazendo-os correr pelas escolas, mas sob compromisso que é escrito. O principal é o professor empenhar-se em ler uma história tantas vezes por semana, assim como o pai compromete-se a ler ao seu filho. Beja é uma referência da leitura e da promoção da leitura em Portugal".


Experiências e conclusões


Entre os diversos projetos experimentais apoiados pela Casa da Leitura, a síntese dos trabalhos realizados nas bibliotecas de Odivelas e Beja, sob o ponto de vista do processo cognitivo, ensaiam respostas às questões sobre o aumento ou não da compreensão leitora como resultado das práticas adotadas; sobre as inferências complexas ou elementares realizadas pelas crianças; o aumento da competência leitora; se os projetos estão contribuindo para a formação de leitores mais interpretativos.

Para os pesquisadores, o contato precoce das crianças com os livros e com a leitura deve ser uma preocupação constante das bibliotecas públicas, da escola e das famílias, pois mais importante do que aprender a ler é a necessidade de promover situações de interação em torno do material impresso, proporcionada pelos adultos, no dia a dia da criança.


Relação com o Brasil


Um dos objetivos de Prole é o de aprofundar as relações da Casa da Leitura com interlocutores brasileiros e estrangeiros. Alinhado a esse propósito, o Congresso Internacional de Promoção da Leitura – Formar Leitores para Ler o Mundo, que aconteceu em janeiro deste ano em Lisboa, trouxe ao cenário português a contribuição de autores de diversos países, mas principalmente do Brasil. Esses autores, ligados à leitura e à sua promoção, participaram com seus escritos da composição de uma coletânea, distribuída aos 1.600 participantes do congresso.

Sob a perspectiva lusófona da leitura, Prole destaca que esse movimento de aproximação entre Portugal e Brasil já ocorre, e relembra o caso do jovem brasileiro Estevão Luís Bertoli, que venceu em Lisboa, aos 16 anos, o Prêmio Branquinho da Fonseca – Expresso/Gulbenkian 2007. O escritor mineiro da cidade de Uberlândia competiu com 56 pares lusitanos e venceu o concurso com a obra O dono da festa, que narra uma história protagonizada por vários elementos do corpo humano, que se juntam numa celebração.

Publicado pela Editorial Presença, de Portugal, o livro tem ilustrações do português Bernardo Carvalho e encontra-se na lista de livros no sítio da Casa da Leitura. O prêmio bienal apoiado por um jornal português e pela Fundação Gulbenkian, em Lisboa, incentiva o surgimento de jovens escritores, e oferece uma quantia em dinheiro, além da publicação da obra, para o vencedor do concurso. Inscrições para a edição 2009 do Prêmio Branquinho da Fonseca acontecem até o dia 29 de maio, nas seguintes modalidades: obras de literatura para a infância ou obras de literatura para a juventude. Informações no sítio
http://www.gulbenkian.pt/


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