Baseada na experiência dos EUA, especialista considera contraproducente a polêmica do MEC sobre métodos de alfabetização

Ruim é politizar, já que cientificamente eles não são antagônicos, mas complementares

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A psicóloga, educadora e pesquisadora norte-americana Catherine Snow acompanha, há anos, as reading wars e seus desdobramentos nos Estados Unidos, Inglaterra e Austrália. Em 2017, teve a chance de conhecer parte da versão tropical dessa “guerra” entre os defensores do método fônico e os do letramento e das teorias construtivistas durante uma visita ao Brasil. Professora da Escola de Graduação em Educação da Universidade Harvard, doutora em psicologia pela McGill University, de Montreal, membro das academias americanas de Educação e de Artes e Ciências, doutora honoris causa pelas universidades de Nimega (Holanda), Oslo (Noruega) e Toledo (Espanha), Catherine participou, duas décadas atrás, da elaboração de um documento que ajudou a acalmar os ânimos desses dois lados em seu país.

Especialista em desenvolvimento de linguagem e alfabetização em crianças – com concentração na forma como as habilidades orais são adquiridas e se relacionam com os resultados da alfabetização –, ela atualmente realiza estudos sobre desenvolvimento infantil, em escolas públicas de Boston, e desenvolve ferramentas curriculares para apoiar professores na introdução de práticas de sala de aula inovadoras.

Nesta entrevista exclusiva à Educação, Catherine Snow defende a utilização do melhor de cada método, diz considerar o posicionamento de um em contraposição total ao outro uma discussão “supervalorizada” e “contraproducente”, e alerta para o perigo de “se esquecer do fundamental em termos científicos e metodológicos quando se privilegiam intenções políticas”.

O debate sobre o melhor método para a alfabetização infantil retomou força no Brasil. As novas autoridades políticas e educacionais acreditam que letramento e construtivismo são teorias políticas e ideológicas, não educacionais. Por isso, defendem uma prática baseada no método fônico. O que pensa sobre a polêmica?

Sei que esse é um tópico atual de preocupação no Brasil, mas deixe-me responder baseada no processo e na experiência nos Estados Unidos, que, evidentemente, conheço melhor. Por aqui, o conflito sobre métodos de alfabetização para ensinar a leitura é visto hoje, ao menos nos ambientes educacionais mais respeitados, como algo supervalorizado de forma contraproducente. É muito lamentável ver questões educacionais que precisam ser resolvidas com estudos, pesquisas e avaliações sérias e detalhadas de resultados associadas, direta ou indiretamente, a posições políticas. A fonética, ou método fônico, não é um método “de direita”, nem tampouco a atenção ao significado de textos e oportunidades para desenvolver habilidades linguísticas constitui uma abordagem “de esquerda”. O que as crianças precisam, a rigor, é de uma série de oportunidades para aprender a serem bons leitores, com compreensão efetiva dos textos. E o processo para a construção dessas oportunidades certamente inclui linguagem rica, envolvimento com o texto, acesso à instrução e prática com o princípio alfabético. Nenhum desses itens é mais ou importante que o outro.

Quando a disputa se torna política, as pessoas se alinham de um lado, por paixão, e deixam de perceber e de apreciar o que há de valor científico ou metodológico na posição do outro. E aí a questão técnica e o reconhecimento das verdadeiras necessidades das crianças são abandonados ou ficam desequilibrados.

 E como sair desse debate com saldo técnico positivo para o sistema educacional e, claro, os alunos?

A disputa poderá ter final positivo – e tomara que isso ocorra no Brasil – se levar à compreensão mútua. Tecnicamente, qual das duas formas é ideal para educar as crianças de forma eficaz? Ou é melhor combinar as forças claramente existentes em ambos os métodos? Como observei antes, a aquisição de alfabetização é complexa e as crianças precisam de uma série de oportunidades para aprender. É fundamentada na linguagem – portanto, em oportunidades de desenvolvimento de habilidades de linguagem oral. Ouvir e aprender a contar história, adquirir vocabulário, ler em voz alta e discutir textos são atividades e caminhos cruciais no ambiente de um sistema de alfabetização.

polêmica MEC alfabetização

Fonética não é método ‘de direita’; significado de texto não é abordagem ‘de esquerda’: não seria melhor combinar as forças existentes nos dois métodos?” (foto: Divulgação / HGSE)

E também utilizar, em larga escala, elementos do método fônico?

Certamente. O processo de alfabetização também envolve o aprendizado de um sistema arbitrário para relacionar os sons às formas escritas. Esse sistema pode ser relativamente simples, como imagino que seja o português no Brasil, ou extremamente confuso, caso do inglês. Mas, em ambos os casos, muito poucas crianças são capazes de descobri-lo e mapeá-lo por conta própria, sem a ajuda programada do educador. Então, as crianças com pouca idade se beneficiam muito com explicações de como letras ou pares de letras representam sons. E, de forma geral, precisarão de um volume razoável de treinamento e prática para realizarem essas conexões de forma automática.

Destacaria quais pontos positivos dos dois caminhos?

O ensino claro, explícito, das relações entre letra e som, no método fônico, ajuda as crianças a ter ideia de como o alfabeto funciona – e isso é um grande desafio enfrentado pelos alunos não só no Brasil, mas em todo o mundo, sobretudo os das primeiras séries. Mas a linguagem rica e as experiências de alfabetização envolvem as crianças de forma mais efetiva no aprendizado, a partir do interesse e do desejo pela leitura do conteúdo. Se eles conhecerem mais palavras e mais conceitos, e se tiverem mais conhecimento prévio, a absorção e a compreensão do que lerão e do conteúdo a que serão submetidos nas séries posteriores serão evidentemente mais fáceis e produtivas.

E os negativos?

Em tese, abordagens fônicas puras trazem a possibilidade de fazer as crianças, ou ao menos parte delas, pensar que ler é apenas pronunciar as palavras corretamente. E as não fonéticas o suficiente, de deixá-las incapazes ou com dificuldade de ler textos simples.

Como essa disputa foi resolvida em seu país?

Em 1998, presidi um comitê, na Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, que produziu um relatório chamado Prevenção de Dificuldades de Leitura. Nele, defendemos que as crianças precisam de alguns pilares de oportunidades básicas para aprender na alfabetização. Neste caso, nos concentramos em nos tornarmos alfabetizados em inglês, o que, para mim, parece um pouco mais complexo do que em português devido à profundidade da ortografia inglesa.

Os pilares: 1) habilidades linguísticas ricas e base de conhecimento de conteúdo; 2) afeto positivo associado à alfabetização e motivação para aprender a ler; 3) oportunidades para aprender, ou ser ensinado, e dominar, para praticar, o princípio alfabético; e 4) oportunidades de acesso à intervenção assim que surgirem dificuldades na aprendizagem.

E isso tudo significa…

Significa que a atenção metodológica ao princípio alfabético – ensinar as letras, mostrar às crianças que as palavras são compostas por uma sequência de sons, revelar como os sons são representados pelas letras ou por pares delas – é útil para a maioria e crucial para muitas delas. Mas está longe de ser a única habilidade que as crianças precisam adquirir. Ensinar e praticar apenas o princípio alfabético prejudica ainda mais crianças que chegam à escola com conhecimento do mundo e vocabulário limitados. Para que as crianças aprendam efetivamente, é preciso atender tanto o código como o conteúdo.

Isso bastou para resolver, no ambiente político e educacional americano, conflitos como os travados hoje no Brasil?

As divergências extremas diminuíram. Mas os professores, mesmo atualmente, ainda estão mal equipados para ensinar o princípio alfabético. Essa é uma das razões pelas quais os bons currículos de alfabetização inicial são tão importantes: apoiar os profes­sores despreparados. Como o inglês tem tantas regras complicadas de ortografia, levamos cerca de três anos, no mínimo, para ensinar todos os padrões. Posso estar enganada, mas em português, creio, a parte da instrução focada no código provavelmente poderia ser realizada em um tempo menor.

Treinamentos de coordenação, redação de cartas e outros exercícios regulares são bons ou ineficazes no processo de alfabetização?

Isso tem pouca importância como exigência, obrigação, prontidão. O importante é assegurar às crianças exposição regular à mídia impressa e muitas oportunidades de escrever, comentar, legendar fotos, criar listas de compras, enfim, desenvolver atividades relacionadas ao aprendizado usando a ortografia inventada por eles, mesmo antes de uma situação formal de alfabetização. Educadores de alfabetização precisam adotar hábitos como ler em voz alta para os alunos, discutir livros, escrever de forma colaborativa, estabelecer relações com o ambiente, verificar se eles podem escrever seus nomes e como essas letras dos nomes representam os sons. Para melhorar o vocabulário das crianças, é extremamente produtivo conversar largamente com eles sobre temas interessantes e desafiadores, lendo e discutindo livros em voz alta e, quando possível, rea­lizando jornadas e viagens de campo e falando sobre as experiências.

Para entender ainda mais o caso, leia a matéria que conta com a opinião da professora Magda Soares e outros especialistas: Posições ideológicas do MEC reacendem debate sobre alfabetização

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