Mario Sergio Cortella

O mundo do trabalho não é o reino do
vale-tudo

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Por Mario Sergio Cortella*




É muito comum perguntarem a nós, educadores, como é possível formar pessoas com uma concepção ética honesta e solidária e, depois, essas mesmas pessoas terem de se deparar com o “mundo real” das empresas, da competitividade e das leis inclementes de mercado. Aliás, a afirmação é mais direta ainda, especialmente quando feita por pais e mães aflitos: “Sei que devo dar a meu filho uma formação voltada para a cooperação, mas, o mundo lá fora não é assim e, quando ele for trabalhar, vai ter de entrar em uma ‘guerra’ diária para vencer os outros e sobreviver como um vencedor”.

Outro dia, fui novamente interrogado sobre esse difícil dilema. A seguir, recupero quatro reflexões gerais que respondi, antes que nos curvemos, subservientes, à perigosa aceitação do destino supostamente inescapável.


1)
A ética é, antes de mais nada, a compreensão que cada um e cada uma de nós tem sobre as possibilidades, os limites, as restrições e as conveniências da ação humana individual e coletiva na convivência social e com a natureza. Isso significa que a ética é a “reflexão prévia” que dá sustentação à resposta pessoal e livre para as três grandes questões que devem anteceder qualquer ação: Quero? Devo? Posso? Há coisas que quero, mas não devo; outras, devo, mas não posso; outras ainda, posso, mas não quero, e assim por diante. É preciso ressaltar: a ética é uma dimensão exclusivamente humana, pois, por pressupor a capacidade de decisão, escolha, opção e julgamento, está na dependência direta da liberdade.


2)

Uma empresa é uma instituição presente em comunidades reais. Nesse sentido, o modo como se comporta publica e privadamente afeta essa inserção e, com maior vigor, a consolidação de futuro que precisa ter. Credibilidade é garantia de futuro, e uma empresa da qual se ausentem os valores da lealdade, honestidade, solidariedade e integridade pode, até, obter sucesso eventual; no entanto, tal trajetória se esboroa com o tempo. Afinal, como escreveu Ary Barroso na canção Risque: “Creia, toda quimera se esfuma/ Como a brancura da espuma/ Que se desmancha na areia”.


3)

A ética que se apóie no princípio do “fazemos qualquer negócio” é uma perspectiva deletéria, maléfica. O “jeitinho” não é sempre atitude exemplar de flexibilidade, e, muitas vezes, sinaliza mero descompromisso e atuação desregrada e utilitarista. Porém, embora nos refiramos sempre ao “jeitinho” brasileiro, ele não é exclusividade da nossa nacionalidade – está presente em qualquer lugar e circunstância nas quais se fragilize o compromisso recíproco com a transparência no convívio. Podemos, sim, aspirar e procurar em nosso país por uma sociedade mais eticamente verdadeira e moralmente sincera.


4)

Há um movimento organizado, do qual fazem parte corporações sérias e nada cínicas, em direção a uma mudança significativa nos padrões de comportamento empresarial. É ainda incipiente, sem deixar de ser importante; aumenta hoje o número de empresas que entende que a prática de uma ética que eleve, proteja e preserve as comunidades nas quais se insere, é uma postura que precisa ir para além da cosmética, da fachada, da ostentação transitória.

Como lembravam com razão os latinos da antiguidade, nemo dat quod non habet, isso é, “ninguém dá o que não tem”.



*Professor de Pós-Graduação em Educação (Currículo) da PUC/SP.


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