Marina Feldman

diretora da Faculdade de Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

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Qual o diagnóstico que você faz da educação básica no Brasil? Quais os principais problemas, avanços e retrocessos que a educação vive?


Qualquer diagnóstico e análise de perspectivas que se faça deve contemplar a inter-relação entre a situação da educação básica e as condições sociopolíticas, econômicas e culturais do nosso país. Nas últimas décadas houve um evidente progresso no tocante à expansão da oferta do ensino fundamental, apontando para o número expressivo de 95% da população de 7 a 14 anos estar dentro da sala de aula. Tal fato não aconteceu em relação à expansão e ao aprimoramento da assistência e educação da primeira infância, atingindo principalmente as crianças desfavorecidas socialmente, apesar de a LDB 9394/96 formalmente se verificar uma extensão do sistema escolar para essa faixa etária (0-6 anos). Em relação ao ensino médio, refletem-se o descaso e o descompromisso histórico de políticas sociais/educacionais para esse segmento. O atendimento se dá em torno de 30%, 70% de nossa juventude é expulsa da escola antes de concluírem o ensino médio, ou seja, dos que ingressam no ensino fundamental apenas um terço chega ao final do médio.




Na sua opinião, qual é o principal desafio para alavancar o desenvolvimento e a qualidade da educação em nosso país?


A educação deve se tornar uma prioridade, concretamente e não apenas em discursos de autoridades governamentais. Que o princípio Educação para Todos seja viabilizado com investimentos sociais mediante recursos adequados, eqüitativos e permanentes. Garantir o acesso e a permanência de todos, já que a educação é um direito humano e social para o exercício e a vivência da cidadania. Garantir aprendizagens qualitativas aos alunos, ou seja, significativas para a vida e para a sua inserção e transformação do mundo do trabalho. Formulação de políticas educacionais integrais com a valorização, qualificação e capacitação permanente da escola pública.




Na sua avaliação, os cursos de formação de educadores no Brasil conseguem preparar o professor para a sala de aula? Se sim ou não, por quê?


Os cursos de formação de educadores devem ser revistos dentro de uma perspectiva global de reformas, qual seja mudar o sistema escolar, as instituições escolares, o modo de se pensar e fazer a educação. Nesse cenário a mudança na formação docente se torna essencial estando estritamente relacionada com a configuração do contexto político-econômico, social e cultural que aponta para a profunda revolução do universo do conhecimento, alterando de forma significativa o contexto das situações de vida e de trabalho das pessoas. O processo de formação de professores caminha junto com a produção da escola, por meio de ações compartilhadas, desde a gestão, as práticas curriculares e a necessidade e o direito à formação continuada, incluindo melhores condições de trabalho e de remuneração. Faz-se necessário estabelecer políticas públicas que garantam a participação ativa dos professores nas várias instâncias de decisão do processo educativo e que valorizem o professor como um ser que tem saberes próprios advindos da sua experiência e é capaz de contribuir significativamente para as discussões acerca do seu trabalho docente, na construção do conhecimento e da escola. A formação docente deve ser entendida como uma dimensão de reconstrução permanente da identidade pessoal e profissional dos professores. Por essa razão, os cursos devem valorizar paradigmas de formação (inicial e continuada) que desencadeiem a reflexão crítica sobre as suas práticas e teorias.



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