Mariane Bischof

“Comendo cenoura fala-se melhor”

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Ao longo da minha experiência como fonoaudióloga escolar tenho tido sempre novas oportunidades de refletir sobre os diversos aspectos da comunicação humana. Entre eles sobre as diferentes funções da boca: sucção, mastigação, deglutição, respiração, fala, e a relação dessas com a produção articulatória dos sons da fala. Gostaria assim de priorizar aqui a reflexão sobre um dos aspectos mais interessantes da comunicação oral, a relação fala e alimentação. 



O comunicar-se através da boca é diferente dos demais órgãos, porque não possui um sistema exclusivo de funcionamento como no caso dos olhos, que são exclusivamente responsáveis pela visão, ou dos ouvidos, responsáveis pela audição. A fala “empresta” órgãos do sistema digestivo e respiratório para a sua produção. E por isso a íntima relação de causa/efeito entre eles. 



Para articular os sons da fala é necessário, assim, que o ar vindo dos pulmões passe pela laringe, vibrando as cordas vocais lá situadas, o que resulta em produção sonora. Esse som será então articulado na boca através de movimentos de língua, lábios, bochechas e úvula, possibilitando-nos a produção de fonemas, unidades mínimas de som. O timbre único e individual de cada voz é dado pela conformidade das nossas caixas de ressonância e pela maior ou menor presença de som com elas. 



Porém a função primária do sistema digestivo é garantir a sobrevivência através da alimentação. A articulação da fala é apenas função secundária desse sistema. Os movimentos orais, tão sutis e precisos, usados para a produção da fala, se desenvolvem a partir dos movimentos executados durante a alimentação, uma vez que as estruturas orais envolvidas no alimentar-se e no falar são exatamente as mesmas. Mandíbula, maxilar, língua, lábios e
úvula

alcançam sua função máxima através do exercício diário propiciado pela ingestão de alimentos. 



É por isso também que maus hábitos relacionados a outras funções orais como sucção de dedo, chupeta, respiração oral ou mesmo alimentação muito pastosa podem alterar totalmente o equilíbrio muscular oral e por vezes ósseo, influenciando negativamente a articulação da fala. E é por esse motivo também que ressaltamos o valor de um sugar, mastigar, deglutir e respirar corretos, pois são excelentes bases para uma boa articulação (embora seja importante ressaltar que apenas tais fatores isolados não garantam uma articulação adequada).



Podemos até arriscar um paralelo entre as funções orais, suas alterações e eventuais possíveis manifestações na fala. 



Assim temos que:




Respiração oral

– pode acarretar numa articulação difícil de entender e/ou distorção de fonemas como (M), (N), (ÃO) 




Dificuldades de mastigação

– articulação difícil de entender no geral, fala sem vigor, “travada”




Dificuldades na sucção –

os fonemas (CH) e (J) podem estar distorcidos





Dificuldades na deglutição

– pode acarretar no desvio do ponto articulatório dos fonemas (S), (Z), (T), (D), (N), (L).



Tendo em vista essas possíveis variações e interferências na fala, gostaríamos de ressaltar que uma das colaborações mais fáceis que podemos oferecer às nossas crianças para estimular o bom funcionamento do sistema articulatório é, além de tentar eliminar maus hábitos como os acima mencionados, promover, através da alimentação, uma “ginástica oral”.

C

omo fazê-lo da melhor forma? Através da ingestão de alimentos que estimulem a mastigação, pois esta é a maneira mais natural e eficaz de treinamento muscular oral, quando usada corretamente. 



Observo muitos lanches de crianças e percebo que os pais, cheios de boas intenções acabam oferecendo a seus filhos algo “gostosinho” e “molinho”, para facilitar a vida “mastigatória” da criança. Exemplo disto é o pão já “cortadinho” e sem casca, a grande quantidade de salgadinhos, bolos, iogurtes, doces variados etc, que invadem as mesas do lanche. O que os adultos muitas vezes esquecem  que, desta forma, estão acostumando a musculatura oral a trabalhar de forma ineficiente e preguiçosa.



Para a boca isso implica num círculo vicioso no qual a musculatura não é mais obrigada a se esforçar e, por não fazê-lo, torna-se cada vez mais difícil mastigar alimentos de consistência mais dura. É aquela criança que não gosta de comer carne, frango (ou então mastiga os pedaços para tirar o “suquinho” e depois cospe o resto de volta no prato), não gosta de cenoura crua, pedaços grandes de comida etc. Prefere sempre purê, macarrão, sopinha, pão de forma, (se possível sem casca) doces etc, pois são mais fáceis de serem mastigados. Muitas crianças ingerem ainda muito líquido durante as refeições, numa tentativa de ajudar o bolo alimentar, pouco envolvido com saliva devido à pobre ação mastigatória, a ser deglutido. 




Na tentativa de quebrar esse círculo vicioso, fica aqui um apelo: pensem na alimentação de seus filhos como possibilidade de treinamento para a musculatura oral, tão importante para a boa articulação da fala!


 




* Mariane Bischof – Fonoaudióloga do Colégio Humboldt



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