Maria Lúcia Teixeira da Silva

O educador cria condição para o crescimento do homem

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Tenho uma admiração especial por Ítalo Calvino, sempre que penso em escrever algo que traduza um sentimento do universo humano, ele se antecipa na minha memória e seus personagens, sussurrando em meu ouvido, contam novamente as sagas fantásticas de sua criação. Hoje quem me visita é Agilulfo, o inestimável cavaleiro que se sustenta em sua impecável armadura branca, mas que de fato não existe, e seu escudeiro Gurdulu, que por só existir se deforma e por não ter a forma não se define.

Nessa incrível história somos obrigados a reconhecer que tudo o que parece não é, e o que é, desaparece no meio de tantas intenções veladas e heroísmos solitários.



Por que peço auxílio ao meu escritor predileto? Estou convencida de que na saga do
Cavaleiro Inexistente

, de Ítalo Calvino (Companhia das Letras, R$ 26), podemos reconhecer alguns equívocos da natureza humana que obscurecem a visão dos caminhos que escolhemos para lidar com a educação. Vale lembrar que nosso herói sem corpo se mantém às custas de sua enorme força de vontade e de sua crença em seu título de cavaleiro, e que Gurdulu, com sua inocente inconsciência, está sempre perdido e desfocado sem se dar conta do fato. Mas o que tudo isso tem a ver com nossa realidade?



Na base de toda sociedade está a pessoa que dá vida e corpo a essa sociedade. Uma “armadura” que enrijece e não inclui em seus fundamentos a realidade da pessoa se torna uma idealização vazia, etérea. Uma emoção puramente intuitiva se perde na indefinição e pela falta de limites não atua sua função. Focar o indivíduo enraizado em sua realidade é o primeiro passo para aceitar as nossas verdadeiras possibilidades.


 


Considero educador todos aqueles que têm como objetivo dar condição de crescimento para o ser humano, através da construção de um conhecimento, da formação da pessoa e da lapidação de valores. Aqui me situo, como alguém que trabalha para desenvolver um corpo que traduza em sua estrutura as condições necessárias para lidar com a realidade. Um corpo articulado e emocionalmente saudável para receber e atuar nessa realidade.



Venho de uma escola humanista que considera que o desenvolvimento social não vai além da evolução das pessoas, isto é, que o limite funcional das sociedades está diretamente relacionado ao desenvolvimento emocional das pessoas que compõem essa sociedade.



Essa assertiva abre um espaço de integração entre o desenvolvimento dos indivíduos (aqui a educação é a base) e a evolução da sociedade, considerando a expressão dos indivíduos.


Reconhecemos os sinais da fragilidade emocional que põem em risco a brilhante armadura de nosso Agilulfo, e dão indícios que é Gurdulu quem está no comando. Nessa saga, nossa atenção se volta aos equívocos de percepção, substituindo conhecimento por teorias, criando uma forte cisão entre o corpo e a fala da sociedade.


 


Quero contar um pouco da história de um projeto de desenvolvimento para jovens adolescentes da zona rural de Campinas, um projeto com o qual me envolvi para ajudar na inserção social desse grupo. Esse trabalho veio de encontro a um desejo de atuar no corpo da comunidade. Esses jovens moradores de um bairro rural da cidade de Campinas tinham como opção de educação a escola estadual e a comunidade católica que atuavam no sentido de agregar e
catequizar

estes jovens.



 O objetivo do projeto era construir uma ponte entre as estruturas de educação disponíveis à aos jovens e a realidade cotidiana deles. Excluídos da sedução urbana, rejeitando e desvalorizando a sua realidade rural.



Organizamos uma sociedade comunitária para criar um núcleo de identidade para começar a existir formalmente e efetivamente em nossa intenção, a Sociedade Comunitária Rural de Carlos Gomes, a COCAR. Acreditamos que qualquer processo de desenvolvimento e revitalização de bairros ou regiões só se estabelece através de um trabalho específico sobre as pessoas que realizarão na prática o processo de transformação.



A princípio os que poderiam ser beneficiados e aliados foram reativos e ameaçadores.


A escola nos recebeu com desconfiança e a comunidade católica com medo de que um novo olhar lhes mostrasse algo que não era conveniente ver.



Com o excesso de valorização dos centros urbanos, o jovem morador da zona rural é pressionado socialmente a buscar qualificações e reconhecimentos muito distantes de sua realidade. Sem um projeto específico de educação que o capacite a reconhecer e utilizar os seus próprios recursos é equiparado ao jovem morador da periferia de centros urbanos. Assim classificado se compõem com os milhares de outros jovens que são alvo de uma educação precária e ineficiente.



A escola local então, se estabeleceu como uma escola de periferia que atende jovens carentes, ora autoritária ora beneficente, sem perceber que além dos muros tem espaços, e recursos que de fato os ajudaria a transformar essa mesma realidade.



Formatar um jovem morador dessa região de modo a extraí-lo de sua realidade, delata a educação alienada e descomprometida com seu futuro e seu desenvolvimento. Naturalmente desrespeitando-os, incapacitando-os por orientá-los por caminhos inacessíveis, fazendo-os acreditar que são excluídos e marginais.


“Não vai dar certo ….,


 Não tem nada para mim …. e EU não acredito… ” são as frases que mais ouvi, tanto dos jovens como daqueles que deveriam estimulá-los.


¨O que eu vou ganhar a mais, se me empenhar na mudança….”



A maioria dos professores que atuam nessa região também não reconhecem valor em seu trabalho e em seus jovens, estabelecendo um pacto de tolerância mútua.



Essa situação leva a deterioração das condições de aproveitamento de uma educação aplicada, contribuindo para a formação de um verdadeiro bolsão de marginalidade e pobreza em plena fartura de áreas cultiváveis e abundante natureza. A fala impotente e a atitude de desesperança de professores, condena jovens a perda de perspectiva em suas vidas.



A cegueira estrutural das instituições para lidar com essa população também confirma a sua falta de importância quando os ignora em seu programa de desenvolvimento cultural, ou oferecendo o pior ou ainda não cumprindo os programas prometidos atuando de forma velada o seu desprezo.



O hábito de tapear a miséria com doações e condescendência, mantém esses jovens reféns de “pacotes do bem”, sem entrar em contato com o potencial de recursos que dispõe por direito, são usados para justificar verbas de responsabilidade social de universidade, ou para servir de cobaia à alunos de graduação em cumprimento de carga horária, ou ainda servir de plataforma eleitoreira. Situações que longe de educar agravam suas condições mantendo-os cada vez mais ignorantes de seu potencial e sem saída.



O medo é uma emoção que estreita o universo e as disputa de poder cega o competidor.


O medo dos adultos, o hábito de disputar território e desvirtuar as verdades condena centenas de jovens a reproduzir a impotência desses adultos sem ter a chance de tomar contato com sua reais possibilidades.



Nosso projeto chamou atenção para essa triste realidade, mas pouco pudemos fazer pois nossa missão como na incrível saga de nosso herói, seria desarmar a armadura como Agilulfo se despedaçou ao reconhecer seu equívoco, e ofereceu ao pupilo de carne e osso para que a conduzisse e humanizasse.



O final da história não é feliz mas questiona retóricas e estatísticas, teses e programas, confirmando que nossa imaturidade emocional desfoca nossos problemas estruturais, e que


faltam pessoas de verdade para ajudar a nos mover em nossa realidade.


 





*Maria Lúcia Teixeira da Silva é biomédica, mestre e doutora pela USP





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