Malvada e ameaçadora

A burocracia é uma forma de tentar colocar a vida nos trilhos, e a vida só é vida se for trilhada de acordo com o caminhar de cada caminhante

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Brincar com palavras é melhor do que brigar com a realidade. Brincando, ultrapassamos a burocracia. Deveríamos aprender a brincar mais e melhor. Paulo Freire, quando secretário de Educação na cidade de São Paulo, referia-se à burocracia como uma coisa “malvada e ameaçadora” (cf. entrevista publicada no nº 30 da revista Nova Escola, de maio de 1989). Precisamos salvar a escola da burocracia. Mesmo que, para isso, tenhamos de preencher todos os formulários e entregar todos os relatórios antes dos prazos!

A biblioteca deveria ser a brinquedoteca de todos nós, crianças, jovens e adultos. O jogo da leitura joga luzes sobre si mesmo e sobre os seus participantes. Quando co­me­çamos a ler (e estudar) com pra­zer, tiramos nota 10. E o melhor é que ninguém vai ter de tirar essa nota de ninguém…

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Em lugar de perder-se no anonimato, o poeta Fernando Pessoa preferiu o pseudononimato ou, se preferirmos, o heterononimato. Pes­soa brincou com a possibilidade de ser mais de uma pessoa. Foi Ricardo Reis e foi também o irmão deste, o ensaísta Frederico Reis; foi Alberto Caeiro e o discípulo deste, Álvaro de Campos; foi o filósofo e sociólogo Antonio Mora, também admirador do mestre Caeiro; foi um tradutor francês, Claude Pasteur; foi o inquieto Bernardo Soares; foi o poeta Vicente Guedes; foi o astrólogo Rafael Baldaya (fazendo o mapa astral de Lord Byron, Shakespeare, Chopin e Oscar Wil­de, entre outros); foi até mesmo um poeta brasileiro, Eduar-
do Lança, e um professor de inglês, o prof. Trochee (que não se traduz por “trouxa”, mas por “troqueu”, termo da teoria poética).

Pessoa multiplicou as certidões de nascimento e os passaportes. Reencarnou-se em vida várias vezes. Sabia, e teorizou a respeito num texto seu publicado numa revista dedicada à Contabilidade, que a burocracia (inevitável, talvez…), por mais inteligente que seja, encontra-se longe da vida:

Os organizadores chamados “de gabinete” pecam, sem exceção, pela delineação de organismos estudados e escritos até ao último detalhe. Quanto mais inteligentes são, pior sai a obra praticamente, por isso mesmo que sai melhor intelectualmente, e portanto só intelectual. Não contam com o que a realidade é de flutuante e de incerta. Aplicam à elaboração do que pensam que há de ser uma realidade o processo pelo qual legitimamente se confeccionam os sistemas filosóficos, os poemas épicos e os romances policiais.

A burocracia é um roteiro inventado para um filme que ninguém vai gostar de ver. É uma forma de tentar colocar a vida nos trilhos, e a vida só é vida se for trilhada de acordo com o caminhar de cada caminhante. A realidade (como a realidade da escola) é flutuante, incerta, variada, surpreendente. O burocrata (é o que Pessoa denunciava naquele texto) atua como um filósofo (frustrado), como um poeta (fracassado), como um romancista (sem imaginação).

Professores desencanados
A burocracia despreza o professor desencanado, o professor que tem dificuldades para organizar a realidade como se realidade pudesse ser organizada aos moldes da falsa ficção. Esse professor que saiu dos canos e das casinhas vive à vontade nas entrelinhas. Mais do que formulador exato, é leitor flexível do texto que a vida mesma vai escrevendo.

E porque a vida é um texto flu­tuante, incerto, cambiante, mu­tável, o professor, a exemplo de Pessoa como escritor, terá de transformar-se em mil leitores diversos. Será leitor afeito a diferentes gêneros, estilos e propósitos. Leitor generoso, capaz de interpretar significados e sentidos. Cada aluno é, mais do que um nome na lista de chamada, personagem com biografia inédita. O professor desencanado (adepto de uma educação romântica, para lembrarmos a figura e o ideário de Rubem Alves) se adapta, isto é, torna-se apto.

O paradoxo é que o professor mais inteligente organiza e idealiza a escola, o material didático e os alunos. Idealiza-se a si mesmo. Acredita que pode transformar o mundo ao transformar a escola, mas só consegue novos indícios de que a realidade discorda de suas planilhas… e fantasias.

Os professores desencanados entendem que as diretrizes e parâmetros são uma bela história, e lembram-se com frequência de uma frase atribuída a Leonardo da Vinci: “se eu não posso o que eu quero devo querer o que eu posso”.

Mais realistas, as listas de prioridades dos professores desencanados começam com uma advertência irônica: “Se você ainda não obteve a unanimidade, tente a anonimidade”.

Por mais ameaçadora e malvada que seja a burocracia, é possível sobreviver às suas garras. Os indicadores nisso têm de bom: indicam suas limitações. A qualidade não se mede, e muita coisa boa, muitos resultados favoráveis ficam invisíveis na divulgação dos “idebs” de gabinete.

O que não significa propor uma brincadeira barulhenta e abafar a voz da advertência. Até onde conseguem ir, os indicadores mostram que, tal como se vem praticando no Brasil, a educação caducou e entrou pelo cano. Chegou a hora, portanto, de mudar as ênfases. Por que não damos uma chance e adotamos algumas condutas dos professores desencanados?

* Gabriel Perissé é professor e pesquisador da Pós-graduação em Educação da Universidade Católica de Santos – www.perisse.com.br

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