Mal-estar generalizado

A “pane de vocação” é generalizada no continente europeu: por razões diferentes, um grande número de países vivencia dificuldades para contratar professores

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Stathis Kalligeris / Demotix
Manifestação de estudantes e professores em Atenas: salários atingidos pela crise econômica
O divórcio entre o professor e a sala de aula andava tão escancarado na França que acabou levando a Palma de Ouro do Festival de Cannes de 2008, quando o Filme Entre les murs (Entre os muros da escola), de Laurent Cantet, venceu o principal prêmio do cinema francês. A história de um professor que tentava despertar um mínimo de motivação na classe de uma escola em um bairro popular de Paris, em um contexto delicado de violências e ameaças, transportou para a telona – com uma dura verossimilhança – uma realidade que há muitos anos afasta os jovens da docência no país.


Bem retratada no filme, a chamada “crise de autoridade” é um mal que muitos recém-formados não conseguem remediar. Em início de carreira, os jovens professores são  destacados para os estabelecimentos mais difíceis dos bairros das principais cidades – Marselha, Lyon, Toulouse ou Lille, além da capital -, onde a tensão social, não raro ligada à integração deficiente da população imigrante na França, se transportou para o ambiente escolar. O resultado são histórias chocantes, e cada vez mais frequentes, nas páginas dos jornais: professor espancado na saída da sala de aula, professora que tira a própria vida por enforcamento no banheiro da instituição, ao passo que outra escolhe se imolar em pleno pátio, durante a recreação.
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Sensação de despreparo
Há dois anos, o ex-inspetor-geral da Educação Nacional Georges Fotinos e o psiquiatra José Mario Horenstein decidiram estudar a fundo a questão e entrevistaram 2,1 mil funcionários de 400 unidades escolares. Eles concluíram que 17% do corpo docente no ensino fundamental e médio sofre de “esgotamento físico, mental e emocional”, contra 11% em média nas outras profissões. Os pesquisadores ainda perceberam que 30% dos professores pensam, com frequência, em abandonar a carreira. “As diferenças entre os sexos e os estabelecimentos, seja em zona rural, urbana ou em bairros complicados, são menos determinantes do que a idade. Os jovens com menos de 30 anos são os mais desmotivados”, explica Fotinos.


Sem uma formação específica, os professores sentem-se despreparados para enfrentar classes tão heterogêneas, e têm dificuldades em lidar com culturas às vezes incompreensíveis aos seus olhos. Eles também alegam que as próprias escolas estão despreparadas para atender aos alunos, o que aumenta a sensação de angústia. “Diante de uma situação muitas vezes caótica, dezenas preferem trocar de profissão enquanto é tempo”, constata.


A Comissão Europeia percebeu que a “pane de vocação” é generalizada no continente. “Por razões diferentes, um grande número de países, seja a Bélgica, a Alemanha, a Áustria ou a Noruega, vivencia dificuldades para contratar professores”, observou Bernadette Forsthuber, coordenadora de Educação na instituição. “A falta de acompanhamento e de perspectivas de evolução da carreira é desencorajadora.”


França na berlinda
Os casos extremos resumem um mal-estar que tem, naturalmente, múltiplas causas – a começar pelos baixos salários. Os professores franceses hoje estão entre os mais mal pagos entre os países desenvolvidos, uma situação que começou a se degradar a partir de 1995, conforme a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Em comparação com outros funcionários públicos, os professores recebem em média 35% a menos. Conforme o sindicato de professores, 1995 coincide com a posse do conservador Jacques Chirac na presidência, após dois mandatos do socialista François Mitterrand. Na época, os professores franceses estavam entre os mais bem remunerados da Europa, mas a direita no poder congelou os aumentos e, com a inflação, os salários foram se degenerando, a ponto de ficarem abaixo da média da OCDE.


O contracheque magro e, por consequência, a falta de interesse crescente pela profissão são problemas que se acentuam para os professores de toda a Europa em crise. De acordo com um relatório da rede de sistemas de informação sobre os sistemas educativos da Comissão Europeia Eurydice, “os salários dos docentes foram diretamente atingidos pela crise econômica”: quase a metade dos países baixou ou congelou a remuneração dos seus professores desde 2009. As economias que mais sofrem são a Espanha, a Grécia, a Irlanda e Portugal – todos sob ajuda financeira internacional -, e também a Eslovênia e a República Tcheca.


Tentativas de mudança
Na França, para forçar o aumento dos salários e elevar a qualidade do ensino, em 2010, o governo decidiu exigir o diploma de mestrado para os professores – porém o tiro acabou saindo pela culatra. A formação teórica não foi acompanhada de um curso específico para lidar com a classe, como acontecia quando a qualificação mínima requisitada era apenas a graduação. A longo prazo, as dificuldades dos recém-formados em se relacionar com as turmas delicadas acabam provocando o abandono da profissão.


Além disso, com alto nível de estudos, muitos logo percebem que podem ganhar bem mais em outros setores. Os 2.000 euros brutos iniciais, pouco mais do que os do salário mínimo de 1.430 euros para qualquer profissão, permanecem desestimulantes. “Com um mestrado no currículo, um professor de matemática migra facilmente para o mercado financeiro ou para a indústria, onde ganha três vezes mais”, comenta Sébastien Sihr, secretário-geral do SNUipp, o principal sindicato do ensino básico. “Afinal de contas, todo o clima está desfavorável para a profissão. O salário é apenas a gota d”água que faltava.”


Este contexto ajuda a explicar por que, em 2012, 706 vagas das 4.818 abertas em concursos para professores não foram preenchidas. No ano anterior, o cenário tinha sido ainda pior, com 20,1% dos postos sem candidato. A disciplina mais atingida é justamente a matemática, seguida pelo inglês e outras línguas.


Bolsa-professor
O alerta obrigou o governo a tomar providências: no início do ano, lançou uma campanha nacional para valorizar o métier – na qual até o presidente, François Hollande, se engajou -, trouxe de volta o curso de preparação antes de lançar os professores às classes, e multiplicou por 10 o número de vagas nos concursos, para estimular a demanda. Também foi criada uma bolsa-professor, pela qual os estudantes de baixa renda dos últimos anos da graduação são incentivados a prestar concurso para professor e, em contrapartida, recebem uma bolsa de 900 euros, sob a condição de tentar a profissão por pelo menos dois anos depois de formados. O objetivo é atrair 180 mil jovens em cinco anos. Para completar, um bônus de 400 euros anuais será oferecido já a partir deste ano para todos os funcionários.


A própria crise econômica acabou fazendo o resto. Em um país onde o índice de desemprego bate recordes de 11% da população ativa – e 22,5% entre os jovens -, a segurança do funcionalismo público o torna automaticamente um refúgio. O resultado parcial das medidas de incentivo é que, em 2013, o número de inscritos nos concursos explodiu, com alta de 57% em relação a 2012. Foram 140 mil inscritos para 43,5 mil vagas abertas. As escolas parisienses registraram o aumento mais impressionante, de 92%.


A lista de aprovados ainda não foi anunciada, e os efeitos da elevação brusca do número de vagas sobre a qualidade do ensino ainda precisam de avaliação. Mas a virada na procura pode provar que o ministro da Educação, Vincent Peillon, talvez esteja certo quando repete, sem descanso, que “não há crise de vocação: há crise de valorização”.

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