Mais problemas do que parece

Os jornalistas ainda são formados sob a égide do tema da política. Alguns se tornam, inclusive, “maníacos políticos” – não conseguem pensar fora de …

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Os jornalistas ainda são formados sob a égide do tema da política. Alguns se tornam, inclusive, “maníacos políticos” – não conseguem pensar fora de categorias da política. Quando são designados para fazer uma matéria sobre outro assunto, sofrem e tropeçam. No campo da educação, quando se metem, é aquele caos – repetem jargões carcomidos, lugares-comuns e às vezes mais desinformam do que informam, pois desconhecem (ou imaginam conhecer demais) a legislação, as tendências pedagógicas, a história da educação e assim por diante. Não há jornal no Brasil que se salve disso. A mão-de-obra nessa área é esforçada, mas não é especializada. Já foi melhor e, no passado, alguns de nossos bons jornais liberais tiveram páginas de educação bem úteis. Hoje, no entanto, a mão-de-obra das redações de jornais e revistas não dá conta da complexidade do tema educacional no Brasil de modo algum.

Um dos principais erros dos jornalistas que se envolvem com educação é que imaginam que podem tratar do assunto, que demanda formação filosófica e histórica, como um “tema do cotidiano” qualquer, sem muito estudo. Eles nos ligam para consultar um “filósofo da educação” sobre determinado problema educacional e, então, querem sentar e fazer a matéria como se pudessem nos ouvir e relatar o que falamos mesclando isso com o que “já sabem”. Imaginam que podem aprender em quinze minutos aquilo que levamos uma vida para entender. Não raro, nesse tipo de consulta, escuto pelo telefone o digitar deles, é que vão fazendo a matéria ao mesmo tempo em que colhem aqui e ali algumas frases. Não querem ouvir o que temos a dizer, querem apenas o aval acadêmico para teses que, em geral, estão cristalizadas nas linhas editoriais e ideológicas de seus periódicos. Assim, sempre que tenho de nutrir jornalistas para matérias assinadas por eles, minha tendência é voltar e repetir mil vezes alguns pontos, pois sei que, na hora “H”, eles vão deturpar. Não por maldade ou desonestidade, mas por serem “maníacos políticos”. Eles possuem uma dificuldade enorme de escrever algo que vai contra a intuição vinda do ideário político que adotam ou que o periódico em que trabalham adota.


Educação, jornalismo e verdade

A forma de o jornalista trabalhar nesse campo é prejudicial: recorta algumas frases, intercalando opiniões de vários filósofos ou especialistas em educação, misturando-as com conexões que nada conectam. Aí, o senso comum se cruza com a frase especializada e, ao fim, tem-se uma colcha de retalhos extremamente confusa.

Outro problema grave em relação ao modo como os jornalistas trabalham com educação, em especial quando o assunto diz respeito ao conteúdo do ensino, é a forma como tomam a noção de verdade. Para o jornalista, a verdade está em “ouvir todos os lados”.

Ele quer ser suficientemente relativista, pois acha que isso legitima seu texto (ele é fiel à linha dogmática do jornal, e isso lhe dá má consciência). Então, vai dando peso para várias opiniões. Por exemplo, quando se depara com denúncias de que está havendo ideologização no ensino, nos pergunta se não é o caso de o professor fazer como ele, jornalista, e “passar todas as versões” para o aluno. Explico, então, para ele, que no ensino isso não é possível, pois cada versão tem o seu tempo de maturação. Ensinamos de forma mais dogmática nos primeiros anos para, então, sofisticarmos as explicações no final, em anos mais adiantados, com turmas mais velhas e maduras. Ensinamos sob a égide de uma bibliografia, que tem sua posição ideológica, é claro, para só mais tarde recorrer a outras, mais amplas e sofisticadas.

Recorro a exemplos da própria infância do jornalista que está em diálogo comigo, lembrando a ele que cada coisa teve o seu lugar quando ele estava na escola. Mas não adianta. Em geral, ele volta à idéia de que o professor teria de ensinar as “várias versões”. Ele não entende que o conceito de verdade pelo qual o ensino é regido não é o conceito de verdade que o jornalismo liberal imagina o correto, e que isso não faz do ensino algo menos liberal que o jornal dele.

Educação é formação, não informação. Então, “ouvir o outro lado” ou “ouvir todos os lados” não faz sentido como regra geral. Pois o que se quer com o ensino é que o aluno opere com saberes e mude comportamentos. Não se quer, com o ensino, entupir o aluno de notícias e versões. A metalinguagem só aparece no ensino em turmas maduras, mais velhas e, em alguns casos, somente na universidade é possível tratar certos assuntos de modo não dogmático. O jornalista acha que isso é a lavagem cerebral feita por determinados educadores.

Outro caso complicado é explicar ao jornalista a distância entre as pedagogias que ele ouve dizer que existem, ou que circulam na literatura de programas de pós-graduação, e a realidade cotidiana dos professores. Ele imagina que as pedagogias que ele vê como títulos de livros são as pedagogias utilizadas pelos professores e, então, atrela tais coisas a “sucesso e fracasso escolar” em determinados períodos, e assim faz sua matéria. Também aqui o mundo da política comanda seu raciocínio.

Por exemplo, se algum parlamentar está em um partido de esquerda, muitas de suas ações vão no sentido de responsabilizar o Estado por políticas sociais, e não a iniciativa privada; e então, o jornalista, acostumado a tal filiação entre ações e idéias, acredita que o professor também funciona assim. Desse modo, se o professor está em serviço sob as regras de uma Secretaria da Educação que quer favorecer, por exemplo, o construtivismo, o jornalista acredita que os atos do professor, em sala de aula, estão reproduzindo a cartilha do construtivismo. Faço um esforço enorme para explicar para determinados jornalistas que essa filiação entre pedagogia e prática de sala de aula não é do tipo da filiação entre a doutrina partidária e a ação do militante partidário.


Singularidades

Os dogmas do jornalista também incomodam. Ele se aferra acriticamente a algumas coisas estabelecidas pelos noticiários da própria imprensa, e depois não consegue mais nem mesmo ler estatísticas diferentes, pois tudo que contraria o que eles próprios, da imprensa, já divulgaram parece impossível de ser verdadeiro. Por exemplo, há jornalistas que teimam em afirmar que certas universidades públicas possuem alunos ricos, e mesmo quando mostramos as estatísticas que asseguram que caso as universidades públicas não fossem gratuitas muita gente deixaria de estudar, eles não se rendem.

Outros, ainda, não conseguem historiar um fato. Uma greve de professores ou estudantes, por exemplo; eles a tomam como se fosse uma greve de trabalhadores fabris, sem levar em conta que o professor é um trabalhador bem diferente dos outros. Não percorrem os motivos da greve e não investigam a vida real dos grevistas, ficam apenas na questão salarial nominal, como se o salário do professor resolvesse tudo – não percebem que a profissão de professor o faz gastar muito mais do que outros profissionais para poder trabalhar. Não entendem que, quando um professor diz que o dinheiro dele não dá para viver, está usando a palavra “viver” em sentido amplo: muito do que ele gasta é em função de melhorar a aula do aluno, o próprio trabalho, como a compra e manutenção de computador com internet, livros e jornais, ida ao cinema etc.

Um outro detalhe que infelicita a imprensa brasileira que trabalha com a educação é seu elitismo. Os jornais tratam “educação superior” como a educação tout court. Gastam páginas e páginas em uma greve universitária ou em uma invasão de reitoria, mas não dão atenção ao que ocorre com violência em escolas contra o professor, ou com o problema de os governadores colocarem alunos em “escolas de lata” ou, ainda, de determinados governadores escolherem secretários de Educação pouco célebres exatamente para poderem, eles próprios, mandar e desmandar nessas secretarias, nem sempre em benefício, é claro, da educação.

Os jornais desconhecem a estrutura de funcionamento do MEC, não sabem o que faz o ministro da Educação e não têm idéia de como que as secretarias da Educação podem ou não atuar em relação às escolas. Além disso, não conhecem estruturas educacionais de outros países e, então, não possuem termos de comparação. Quando os jornais chamam intelec­tuais para a construção de um dossiê sobre educação, não raro pegam ex-ministros ou políticos, desprezando completamente os experts no assunto, e então reiteram aquilo que os próprios jornalistas já sabem.

Também faltam idéias aos jornais. Eles não se preocupam em fazer sugestões. São carentes de idéias. Por exemplo, qual a razão de nunca termos feito um movimento, pela imprensa, do “adote uma escola”? Os empresários vivem dizendo que o problema do Brasil é de educação. Então, que eles ajudem. Mas ajudem não com aquela doutrina ridícula que os faz querer ensinar diretores de escolas a administrar o ensino. Eles que ajudem colocando a mão no bolso. Qual a razão de não termos, aqui, a regra de ver cada banco que cobra juros altos adotar uma escola pública, garantindo o seu funcionamento por meio de apoio financeiro claro? Isso não poderia ser uma idéia dada pela imprensa brasileira, e cobrada pelos jornalistas?

Já passou da hora de os jornais reeducarem seus jornalistas para entender o mundo da educação. E isso não pode ser feito em programas de pós-graduação em educação, que estão despreparados para tal. Isso deveria ser feito nas próprias redações, por meio de cursos de treinamento com especialistas da área educacional.



Paulo Ghiraldelli Jr. é doutor e mestre em Filosofia pela USP. Doutor e mestre em Filosofia da Educação pela PUC-SP.


Livre-docente e titular pela Unesp. Pós-doutor em Medicina Social pela Uerj. Editor da Contemporary Pragmatism (New York). Diretor do Centro de Estudos em Filosofia Americana –



www.pragmatismo.org

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