Luzes, ruínas e explosões

Identidades e destinos de três olhares vigentes sobre a educação nacional

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Há modos e modos de ajuizar o estado de coisas na educação nacional. E, aqui, não há prevalência, nem isenção de quaisquer pontos de vista. Ao contrário, trata-se de forças ético-políticas distintas, em litígio. Ei-las, uma a uma: o adesismo, o escapismo e o inconformismo.

A primeira força é aquela que aposta no desenvolvimento educacional da nação como mimetismo de realidades socioculturais alhures, sempre mais arrojadas, eficientes e, portanto, modelares. Daí que o adesista se compraz ao comparar dados estatísticos padronizados, sem se indagar se eles mais desfiguram do que descortinam os problemas concretos do país. Mesmo ignorando por completo os meandros do ato educativo, ele tem o firme propósito de arrancar das trevas a horda de profissionais “ignorantes” que conduzem a “obsoleta” educação nacional. Mensageiro das forças econômicas dominantes, ele prega a inovação e a pressa para as “reformas” do mundo educacional, quando, na verdade, pretende deixá-lo como está. Sua diligência é a medida exata de sua confiança num progresso de fachada. Arrogante, vale-se do descrédito como estratégia de abatimento do interlocutor, ou, antes, como um modo despótico de tentar governá-lo. Conseguirá?

A segunda força, bastante em voga, é prima distante da primeira; ou melhor, uma versão descerebrada sua. Adulam-se os profissionais com palavras-de-ordem abstracionistas, agora não mais amparadas “cientificamente”, assim como as prefere o adesista. Avesso ao confronto, o escapista se vale da sedução como estratégia de entorpecimento do interlocutor, investindo pesadamente na redenção individual em meio a um mundo público em destroços, que ele próprio ajudou a multiplicar. Para ele, a tarefa magna da existência é a subtração de um bem-estar fleumático ante um contexto social em guerra. O resultado: a disseminação da apatia coletiva, consubstanciada em impostura educativa. Vencerá? 

A última força, desafortunada por excelência, nutre-se de utopias errantes. O inconformista recusa-se a entrar no jogo farsesco do progresso ou da redenção da Humanidade, já que toma a vida como expansão súbita e os homens como enigma. Para ele, a engrenagem do mundo é movida a idéias intempestivas, não a números capciosos. Por isso, sonha com realidades inéditas e disformes, à espera de quem tenha coragem suficiente para moldá-las com as próprias mãos. Sua estratégia, quando em posse da voz, é tão-somente a severidade crítica, pelo que é acusado de radical, destemperado, inconseqüente às vezes. Provocador incorrigível, debate-se sem trégua contra a penúria deste mundo, mas nada almeja além da prerrogativa do livre pensar. Companhia intelectual é tudo que oferece a seu interlocutor. Quer apenas observar o fluxo contínuo dos acontecimentos e neles garimpar algum sentido, mesmo que absurdo, para o tempo presente. Um resquício, talvez, daquela vida com que sonhara. Sobreviverá?   



Julio Groppa Aquino é professor da Faculdade de Educação da USP

E-mail:



julio.groppa@editorasegmento.com.br


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