A luz de Luiz

Colunista ressalta a importância de Luiz Gama, poeta, advogado e militante abolicionista

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Pixaby

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Foi em uma entrevista de rádio, que ouvia displicentemente enquanto me dirigia ao trabalho, que pela primeira vez tive contato com a vida e a obra do poeta, advogado e militante abolicionista Luiz Gama. Uma professora e pesquisadora da Unifesp relatava de forma apaixonada a saga de Gama, nascido livre e vendido como escravo pelo próprio pai aos dez anos de idade. Por suas palavras soube que ele havia fugido do cativeiro e aprendido a ler e escrever aos 17 anos; que lograra libertar mais de 500 escravos, defendendo seus direitos; que fizera da luta pela abolição a causa de sua existência.

Ao chegar à universidade, abandonei as tarefas programadas para procurar mais informações sobre essa vida cuja grandeza eu ignorava, a despeito de tantos anos de escolarização. Li comovido seus poemas, me espantei com a coragem de seus discursos e chorei ao ler o relato de seu cortejo fúnebre. Vasculhava minhas lembranças das aulas de história e literatura sem qualquer sinal de sua presença. Em que estante o esconderam, Luiz? Lembrava, é verdade, da narrativa que meus professores fizeram um dia de homens viris, com suas botas e chapéus, enlouquecidos na caça por pedras preciosas, por índios e tudo mais que pudessem extrair desta terra para sua riqueza pessoal. Sabia que viraram estradas e avenidas, mas nem eu nem meus colegas – creio – jamais neles vislumbramos qualquer grandeza, nem deles retiramos qualquer sabedoria.

E qual não foi minha surpresa quando Moana me relatou que, entre os personagens negros que seu professor de artes sugeriu que ela e seus colegas estudassem, se encontrava precisamente Luiz Gama. Nos dedicamos – eu, ela e Diana – a reler seus poemas, a achar fotos de sua mãe, guerreira da Revolta dos Malês, e a compor um quadro sobre sua vida. Em sua redação simples, pessoal e singela, Moana destacava a importância de sabermos quem foi esse homem e por quais causas lutou. E, ao assim fazer, reiterava em mim uma crença fundamental acerca do papel das narrativas biográficas – tão desprezadas por certos intelectuais – na vida e na cultura escolar.

Narrar uma vida àqueles que acabam de chegar ao mundo – e que nele precisam achar seu lugar – é bem mais do que lhes fornecer um conjunto de informações. Ao relatar os dramas e conquistas de uma existência singular, mostramos a nossos alunos a diversidade de princípios que pode mover os humanos e orientar suas vidas. É nos atos e nas palavras de homens e mulheres que nos precederam – e não nas supostas estruturas e “leis” históricas – que jaz toda a grandeza e a vileza de que somos capazes.

Foi essa convicção que levou Hannah Arendt a afirmar que mesmo nos tempos mais sombrios temos o direito de esperar alguma iluminação. E tal iluminação bem pode provir menos de teorias e conceitos e mais da luz incerta, bruxuleante e frequentemente fraca que alguns homens e mulheres, nas suas vidas e obras, farão brilhar em quase todas as circunstâncias e irradiarão pelo tempo que lhes for dado na Terra. Em tempos sombrios como os nossos, pode bem ser da luta de um Luiz Gama que venhamos, tal como os habitantes do Brejo da Cruz, a nos alimentar de luz.

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