Lúdico e didático

Estação da Luz da Nossa Língua, primeiro museu dedicado ao patrimônio lingüístico, será um “parque de diversões” do idioma

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Cerca de 230 milhões de pessoas falam hoje português – é a sexta língua mais usada, idioma oficial em oito países. O maior contingente desses falantes encontra-se na Grande São Paulo, a quarta megalópole do mundo, com aproximadamente 18,3 milhões de habitantes. Pois caberá a São Paulo, numa espécie de homenagem, o privilégio de abrigar um centro de documentação da língua portuguesa, a Estação da Luz da Nossa Língua, que deverá ser aberta ao público até o final do ano.

O novo espaço ficará na Estação da Luz, um dos marcos da arquitetura paulistana. Será o primeiro museu dedicado ao patrimônio lingüístico. O poeta e antropólogo Antonio Risério, envolvido no projeto, o define como um “parque de diversões da linguagem, que seja ao mesmo tempo lúdico e didático, capaz de criar uma emoção cívica, e do qual as pessoas saiam pensando outra coisa sobre elas mesmas, a língua e o país”.

Para isso, a Estação da Luz foi reformada. O objetivo é tornar o lugar acessível para toda a população, independentemente de posição social. O centro da capital paulista — definido pelo professor Ataliba Teixeira Castilho, da Universidade de São Paulo, como “grande laboratório lingüístico,” — foi escolhido justamente por sua pluralidade de pessoas e de culturas.

O designer, curador de exposições e diretor de documentários Marcello Dantas, responsável pela direção artística do projeto, o divide em três etapas. A primeira, contemplativa, será proporcionada no terceiro andar, onde o público terá seu contato inicial com o conteúdo do museu. A fase seguinte será “interativa” e a terceira, “exploratória”, a partir do trajeto proposto.

Ao entrar na Estação da Luz da Nossa Língua, os visitantes vão subir por elevadores panorâmicos até o terceiro andar. Serão recebidos pela Árvore da Língua, instalação da encenadora Bia Lessa, formada por palavras dos diferentes idiomas que deram origem ao português falado no Brasil hoje. O objetivo da obra, segundo Lessa, é “explicitar a língua como um código que está sendo formado diariamente”. Enquanto isso, uma canção — assinada por Risério e pelo poeta, cantor e compositor Arnaldo Antunes – preparará o ambiente para o próximo espaço.

Em seguida, o público será conduzido ao auditório, para a exibição de um filme de quinze minutos, que começa com o surgimento da linguagem e a mutação que provocou na espécie humana, seguindo para uma visão geral dos idiomas do mundo e, então, da língua portuguesa. Segundo Risério, responsável pelo roteiro do curta-metragem, também serão abordadas diversas mitologias que explicam o aparecimento das línguas, como o mito da Torre de Babel. Para o poeta, essa história mostra “o fracasso de Deus em separar a humanidade, porque todas as línguas se traduzem”.

Depois do filme, as telas serão erguidas e os visitantes chegarão à Praça da Língua, que lembrará um planetário, com telas de projeção em forma de abóbada. A documentarista Isa Ferraz, coordenadora do projeto, o define como um “espaço de vivência coletiva de celebração da língua portuguesa”. Os professores José Miguel Wisnik e Arthur Nestrovski preparam, para esse ambiente, 45 minutos de “experiência audiovisual” que estabelecerá vínculos de textos poéticos, trechos de livros e de canções com imagens. Nestrovski afirma que pretende evitar representações literais, ou seja, a correspondência de sons e imagens ao pé da letra, para fugir do previsível. Quando a música parar, o público poderá passear pela praça, como em uma típica cidade do interior.

Ao sair da Praça da Língua, o visitante chegará ao segundo pavimento, que começará com a Grande Galeria, corredor dividido em três apresentações. Na parede da esquerda, uma tela de 120 metros trabalhará a metáfora do trem, fazendo referência à língua, que não pára de mudar, e à sua diversidade, representada pelos diversos vagões. A cada cinco minutos, o trem vai se mover, estacionar e, de cada uma das doze portas, sairá um filme temático sobre danças, festas, carnavais, religião, futebol, cotidiano, música, relações humanas, natureza e cultura, culinária, valores e saberes, mídia e integração nacional brasileiros. Esse conteúdo está sob responsabilidade de Risério e de Manuela Carneiro da Cunha, professora de antropologia da Universidade de Chicago.

Na parede oposta, especialistas em diferentes idiomas que influenciaram o português falado no Brasil hoje vão preparar uma linha do tempo da língua. Isa Ferraz diz que não se pretende fazer uma apresentação linear, burocrática e obrigatória. A idéia é recorrer a recursos audiovisuais e ao cromatismo. A Linha do Tempo será dividida em três partes, formadas pelas histórias das línguas portuguesa, ameríndias e africanas.

Na passagem central da galeria, estarão posicionadas doze grandes lanternas, cada uma representando uma língua que influenciou o português brasileiro atual, como o espanhol e o francês. Uma das faces de cada bloco será interativa, e o visitante poderá tocar uma palavra e conhecer, por meio de uma tela que se abrirá, a origem e a cultura que ela representa. Outra face da lanterna vai expor, atrás de uma vitrine, um objeto pertencente à mesma cultura, e o último lado descreverá a história do povo.

A última sala do segundo andar será a de Etimologia, produzida por Marcelo Tas, diretor, apresentador e roteirista de TV, e Mario Eduardo Viaro, professor de letras clássicas. A idéia é construir uma mesa eletrônica, na altura do chão, com diversos fragmentos de palavras espalhados, para que o público possa tocar, movimentar e formar novas (ou já conhecidas) palavras. Segundo Tas, “a tarefa de quebrar palavras sem machucá-las é difícil”. O software da mesa etimológica é desenvolvido por André Penna, da Universidade de Campinas (Unicamp).

O primeiro piso do museu será um lugar reservado, afirma Dantas, para o público “explorar” a língua portuguesa. De um lado, auditórios para a realização de cursos e atividades. De outro, um espaço para exposições temporárias. Os visitantes poderão acessar o Portal da Língua, site desenvolvido para o projeto, na sala de multimídia. Também serão ministrados nesses espaços cursos de capacitação de professores de literatura, artes, geografia e história.




Desafios –

O desafio de criar algo que tem como objeto de estudo um idioma com mais de 4 mil anos reuniu um time de especialistas para buscar uma forma de representar patrimônio tão amplo. “Queríamos que as pessoas vivessem isso como uma experiência nova em relação à língua, porque todos os brasileiros são especialistas em língua portuguesa, e estão imersos nela,” explica Isa Ferraz. Os responsáveis pelo projeto se guiaram por alguns eixos para desenvolver o trabalho: a antiguidade da língua, sua universalidade e mestiçagem, reveladas por meio das artes (literatura, música, teatro e cinema) e também na imprensa, nos grafites, nas telenovelas, no trabalho e no dia-a-dia das pessoas.

Segundo Isa Ferraz, um dos desafios foi descobrir uma forma de reunir público-alvo tão grande e encontrar referências para o projeto, inédito. Depois da reforma da Estação da Luz, um dos maiores especialistas em museologia do mundo, Ralph Appelbaum, o arquiteto Vasco Caldeira e o designer Rico Lins transformaram o espaço em um museu. O desafio atual, porém, é eletrônico. Quase toda a estrutura de conteúdo do museu precisa de novos softwares para se concretizar, como a mesa etimológica.

“Pela primeira vez em todo o mundo, a palavra vai ser tomada em termos museológicos,” diz Risério. A iniciativa, da Fundação Roberto Marinho e da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, está orçada em R$ 36 milhões, com a participação do Ministério da Cultura, IBM Brasil, Correios, TV Globo, Petrobrás, Secretaria de Estado da Educação de São Paulo, Vivo, Eletropaulo, Votorantim e Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).





Reportagem: Carmen Guerreiro




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