Lógica nefasta

Em lugar da condição de educadores, professores optam pelo cômodo lugar de amigos

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Classe do colégio Caetano de Campos, nos anos 30: rigidez disciplinar

Uma professora universitária que prefere o anonimato conta que uma aluna da instituição onde trabalha perguntou-lhe ao final da primeira aula do semestre se poderia chamá-la de… professora. "Claro", respondeu. "Mas por que a pergunta?" A aluna explicou que outros docentes exigiam ser chamados pelo nome, mas que tinha dificuldade em fazê-lo porque sentia necessidade de se dirigir a eles usando o termo "professor".

A situação é reveladora do que alguns educadores consideram uma "deserção" geracional, caracterizada pela renúncia à condição de quem deve orientar os mais jovens, com base na experiência e no profissionalismo da prática docente. Em lugar disso, se age em nome da lógica da amizade (que também se manifesta nas relações familiares contemporâneas, em que pais se dizem "amigos" dos filhos).

Dessa forma, muitos procuram fugir do que consideram autoritarismo, mas terminam se aproximando dele, de maneira socialmente perversa: adultos que consideram não ter o que dizer a crianças e jovens – ou seja, que não são portadores de um "segredo" a ser compartilhado, o do conhecimento – os condenam, em última instância, a permanecer no mesmo lugar. "Alguém vai ao médico perguntando se ele por acaso quer negociar o diagnóstico com você?", compara a professora.

"Dois obstáculos devem ser evitados", acredita Gérard Guillot, autor de O resgate da autoridade em educação. "O primeiro seria não levar em conta, na escola, o modo de vida dos alunos, seus passatempos, seus centros de interesse, a pretexto de que estão ‘poluídos’ por influências nefastas. Então, o professor centra-se na matéria que ensina, em seu programa e em sua turma, apostando que os conhecimentos adquiridos pelos alunos lhes permitirão não se deixar enganar."

O segundo obstáculo seria o de "abrir tanto a escola para o exterior que o ensino correria o risco de se reduzir a um comentário da atualidade, a um reflexo da sociedade, como se discuti-la bastasse para ensinar os elementos formadores de um espírito crítico. Nesse caso, a opinião poderia substituir o saber". O equilíbrio estaria em fugir de "uma escola de monopólio (do conhecimento)", mas também de "uma escola de ídolos".

Esse equilíbrio resultaria no que Guillot chama de "autoridade de bons tratos". "Ela não se inventa, ela se elabora e amadurece ao longo de uma formação inicial e contínua. É sempre frágil, não tem a rude estabilidade de uma autoridade de maus-tratos. Ela implica um dever de inquietude, bem o contrário da pretensão de ter certeza. Para exercer essa autoridade de bons tratos, é necessário ter duas preocupações permanentes: aquela a priori com a pessoa do educado e aquela com o contexto concreto de sua vida exterior (sem entrar em sua intimidade), cujos particularismos podem obstaculizar a irrupção e o desenvolvimento de sua singularidade."

Uma autoridade ética supõe uma ética da autoridade. "A autoridade não é um poder sobrenatural nem uma projeção de receios ou interesses", observa Guillot. "É uma maneira de conduzir no caminho da construção pessoal, graças ao qual nos tornamos capazes de autorizarmos a nós mesmos para viver com os outros no respeito à lei e aos valores fundadores de uma humanidade pacífica e sem exceção."

Essa autoridade necessita "recorrer a procedimentos que garantam a disciplina". "A palavra disciplina não é empregada por acaso para designar tanto as matérias ensinadas no sistema escolar quanto a regulação dos comportamentos na convivência", lembra. "Se os poderes disciplinam o pensamento, disciplinando o corpo, a escola disciplina os comportamentos pelo pensamento. Estruturar o próprio pensamento e aprender a pensar por si mesmo previnem submissões àqueles que pretendem pensar por nós e nos ditar condutas."

Exercer a autoridade e estabelecer a disciplina, entretanto, são "atitudes radicalmente diferentes". "É a autoridade que dá um sentido à disciplina, não é a disciplina que faz a autoridade", destaca Guillot.


Escola do descrédito

Autora de
A escola do homem novo – Entre o Iluminismo e a Revolução Francesa

, Carlota Reis Boto licenciou-se em pedagogia e em história pela Universidade de São Paulo, onde fez mestrado em história e filosofia da educação e doutorado em história social. É professora da Faculdade de Educação da instituição.


Qual o impacto sobre a escola da chamada "crise de autoridade"?

Autoridade não se confunde com coerção ou persuasão: tem a ver com uma identidade que se traduz por algum tipo de ascendência sobre os outros. Ela ocorre pelo efeito da legitimidade e produz credibilidade. A idéia de credibilidade supõe a noção de crença. Se não houver crença ou reconhecimento, não há autoridade. A autoridade pode ser ancorada na tradição, nas normas e nas regras, ou até na personalidade. Mas, se não houver o reconhecimento da legitimidade da tradição, das regras ou da personalidade, não haverá autoridade. A crise de autoridade existe quando as instituições sociais entram em descrédito. A crise de autoridade na educação coloca em questão os parâmetros pedagógicos adotados.


Como as novas gerações de docentes têm se comportado em relação ao exercício da autoridade?


A relação pedagógica é assimétrica, e não apenas por se tratar de uma relação entre adultos e crianças ou adolescentes, e sim porque a relação com o conhecimento é desigual. Um professor de geografia, por definição, tem de saber mais geografia do que os alunos a quem ensina. Por outro lado, a escolarização não lida apenas com a transposição do conhecimento científico. Ensinar na escola é também trabalhar valores. A história da educação mostra que a escolarização ocupava um lugar importante para formar comportamentos civis. Hoje, muitas vezes, a escola se exime dessa tarefa. Da 5ª série em diante, parece que os professores ocupam-se só do repertório de suas próprias matérias. Em geral, não há diálogo, não há planos de curso interdisciplinares, não há projeto pedagógico coletivo, institucional.


O que resulta desse quadro?


A escola deixa de ser vista como uma instituição que faz sentido na vida do aluno. Aí sua autoridade entra em crise. Há, ainda, outro fator: vivemos numa época que (mesmo com problemas) reconhece o direito de crianças e adolescentes. Acontece que o reconhecimento dos direitos não pode ser um argumento para que se deixe de pensar na necessária formação para o mundo dos deveres. As novas gerações de professores desejam romper com um modelo de ensino que consideram tradicional. Mas se deparam com alunos que, já em casa, não aprenderam a ter limites. Em sala de aula, muitas vezes passa-se de um extremo a outro; o aluno fica sem referências. Ser educado é também ter resistência à frustração, saber adiar a satisfação, estabelecer metas de longo prazo, resistir aos impulsos dos desejos mais imediatos. E isso requer disciplina, autocontrole, esforço, concentração, perseverança, tenacidade. É preciso que isso seja ensinado. A escola não pode esperar que os alunos venham prontos.

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