Lixo transformado em luxo

Brasileiro ensina britânicos a ter consciência ecológica

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 Desfile com fantasias feitas de material reciclado









Maurício Assumpção, de Londres (Inglaterra)








 






Encontrar a casa de Rudy Rocha não é tarefa fácil em Londres. Ele mora num bloco de apartamentos populares, parte de um grande conjunto habitacional, em East Greenwich, no extremo sudeste da cidade. Mas foi aqui, entre blocos de concreto, que encontrou o espaço necessário para sua arte. Ainda na rua, telefono para sua casa em busca de referências. Rosana, sua esposa, também brasileira, ajuda-me a encontrar a porta de entrada do prédio. Na saída do elevador sou recebido por Rudy e Yasmin, que, no colo do pai, se retrai com a timidez dos seus 18 meses de vida.







Alto, moreno, com longo rabo-de-cavalo já grisalho, Rudy tem a barba permanentemente por fazer e um sorriso que ilumina tudo a seu redor. Fala alto, de maneira expansiva e apaixonada. É um desses personagens que os britânicos chamam de
bigger than life

(maior do que a vida). Na sala de estar do seu apartamento, sentamos num sofá de couro, junto à janela, espremidos por uma infinidade de móveis e caixas que tornam pequena a ampla sala. Através da janela, Rudy aponta para uma extensão que construiu sobre o terraço para abrigar sua oficina. Pilhas de latas, caixas e sucata que lembram o depósito de um catador de lixo. Mas, no fundo, é isso que ele faz: separa o lixo reciclável para ensinar os alunos a transformá-lo em arte.









 Boneco construído com lixo doméstico






 




Nascido em Campinas (SP), Rudy chegou a Londres em 1994. Músico autodidata com formação em educação artística, sempre mesclou seu amor pela música com a vontade de educar. Sua carreira de educador em terras britânicas começou com a Taru Brazil, projeto que lançou com seu parceiro de música Tadeu Kobna. Inicialmente, a Taru oferecia seus serviços à Live Music Now, ONG britânica que leva música ao vivo para grupos que têm pouca oportunidade de acesso a concertos e casas de espetáculos. Idosos, deficientes físicos, crianças de comunidades carentes e até detentos de uma penitenciária foram assim introduzidos ao rico universo da música brasileira.







Com o crescimento do projeto, Rudy sentiu a necessidade de voltar ao Brasil para aprofundar seus conhecimentos com pesquisas de campo no Nordeste e na Amazônia. Na região de São Gabriel da Cachoeira (AM), no Alto Rio Negro, ele fez contato com a musicalidade das tribos Tuiuca e Baniua, que lhe trouxe inspiração para um novo projeto. Na volta a Londres, realizava o sonho de montar um show solo: a
Experiência Amazônica

, em que apresentava os sons da floresta com instrumentos musicais. O sucesso da apresentação o levou ao prestigiado Museu Britânico, onde fez 30 apresentações em 2002. Mas o contato com a Amazônia operou uma transformação ainda mais profunda na sua vida, com efeitos sobre sua arte.







“O que eu vi ali foi um meio-ambiente em estado puro, um ecossistema completamente harmonizado. Onde o que cai, o que morre, apodrece para renascer em outra forma. E assim a vida vai se renovando, e nada é desperdiçado. Na volta a Londres, fiquei chocado com a sujeira em que a gente vive, com a insensatez do desperdício”, explica Rudy, de maneira arrebatada. Foi assim que nasceu a
Festa do Reino da Sucata

(
Scrap Kingdom Party

, em inglês), projeto em que Rudy ensina crianças e grupos comunitários a reutilizar o lixo doméstico, transformando-o em instrumentos musicais, fantasias e até carros alegóricos para um desfile de carnaval.







O trabalho, que se desenvolve durante um bimestre, com uma aula por semana, começa com a coleta de material não-orgânico na casa dos alunos. O material é então separado em três “famílias” que não se misturam jamais: papel, plástico e metal. O que não for utilizado é devolvido à subprefeitura, que o envia para a reciclagem. Por conta das rigorosas leis de saúde e segurança britânicas, principalmente no que diz respeito ao trabalho com crianças, o projeto não utiliza vidro, e as poucas tesouras disponíveis são infantis, sem ponta afiada. Mas Rudy vai além da lei, evitando, sempre que possível, o uso de cola.







“O problema da cola é que ela contamina o material que está sendo usado. Uma vez terminado o desfile de carnaval, aquele material colado não pode ser reciclado. E isso contraria o conceito do próprio projeto. Por isso, trabalhamos com técnicas de encaixe, usando o mínimo possível de cola. O ideal seria tornar todas as nossas fantasias, alegorias etc. recicláveis uma vez mais. Por isso, também não misturamos diferentes materiais”, argumenta Rudy.







Na segunda parte do projeto, os alunos começam a transformar o lixo em luxo carnavalesco. Dependendo do tamanho do grupo, são convocados até três assistentes, que se dividem no ensaio da coreografia e confecção de fantasias e alegorias, enquanto Rudy assume a aula de iniciação ao samba e a fabricação dos instrumentos da bateria. De duas latas se faz um agogô. Da garrafa de água mineral, um reco-reco.







O primeiro “cliente” da
Festa do Reino da Sucata

foi uma ONG que trabalha com a comunidade carente de Haringey, subúrbio de Londres. Mas logo Rudy percebeu o potencial educativo do projeto, que poderia ser facilmente aplicado às escolas do ensino básico. Hoje, mais de 1.200 crianças de escolas públicas e privadas de Londres já passaram pela experiência do carnaval brasileiro oferecido pela
Festa

, ao mesmo tempo em que expandem sua consciência ecológica.






“Eu acho que as crianças jamais esquecerão a
Festa do Reino da Sucata

“, explica Cindy McGunnity, diretora da escola primária




St. Margaret’s Lee, em Lewisham, no sul de Londres. “As crianças se mostraram muito interessadas na confecção das fantasias e fabricação dos instrumentos musicais com material reciclável.

Acho que elas nunca tinham se dado conta da enormidade de lixo que se gera todos os dias. O carnaval foi o clímax da nossa Semana de Artes. E nós já estamos planejando uma segunda
Festa

para o próximo ano letivo.”










Para Rosa Gonçalves, brasileira que trabalha com a comunidade carente de Kidbrooke, o carnaval reciclado de Rudy Rocha trouxe nova atitude ao seu conjunto habitacional, em South Greenwich, no sudeste de Londres. Com 68% de moradores negros, na sua maioria de origem nigeriana, Kidbrooke será inteiramente demolido para em breve dar lugar a novos conjuntos habitacionais. Enquanto isso, Rosa articula a política local e contrata eventos como a
Festa do Reino da Sucata

.








 


Leia mais sobre o trabalho de Rudy Rocha em Londres e a Festa do Reino da Sucata na edição impressa da revista
Educação









 


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